Projeto de Lei da UE Ameaça Montadoras Japonesas de Elétricos

Economia

As montadoras japonesas de veículos elétricos na União Europeia enfrentam um cenário de incerteza significativa, à medida que os estados-membros debatem uma nova legislação industrial. Este projeto de lei visa favorecer a produção de elétricos dentro do bloco europeu, podendo gerar um impacto substancialmente negativo para as fabricantes do Japão.

A proposta em análise é a denominada Lei do Acelerador Industrial (IAA, na sigla em inglês). Conforme uma minuta, esta legislação estabelece um tratamento preferencial para produtos manufaturados na UE. Para que veículos elétricos sejam qualificados para subsídios e incentivos fiscais, a IAA exigiria que pelo menos 70% de seus componentes fossem fabricados na União Europeia e que a montagem final também ocorresse na região.

Projeto de Lei da UE Ameaça Montadoras Japonesas de Elétricos

Diante da iminência de tais mudanças, uma delegação conjunta do governo japonês e da Associação de Fabricantes de Automóveis do Japão realizou um encontro estratégico em 16 de setembro. Eles se reuniram com altos representantes do Partido Popular Europeu, o maior grupo político do Parlamento Europeu, no edifício principal da instituição em Estrasburgo. Cerca de quarenta pessoas participaram do encontro, refletindo a seriedade da situação. Um executivo do setor automotivo japonês expressou profunda preocupação, declarando que “Nossas operações na Europa correm risco de colapso” devido às novas regulamentações.

Uma das principais áreas de impacto diz respeito aos “carros de empresa”, que representam uma fatia considerável do mercado automotivo europeu. É prática comum na Europa que corporações forneçam veículos para seus funcionários utilizarem em propósitos pessoais, como parte dos pacotes de remuneração, usufruindo de benefícios fiscais por esses veículos. Os carros de empresa constituem aproximadamente 60% dos novos emplacamentos no mercado automotivo europeu. A Lei do Acelerador Industrial, entretanto, prevê que veículos elétricos produzidos fora da UE não seriam mais elegíveis para esses incentivos fiscais.

Além disso, a proposta afeta diretamente os consumidores. Pessoas físicas que adquirirem veículos elétricos fabricados fora do território europeu também perderão o direito a subsídios governamentais destinados à compra de carros elétricos. Essa medida é um fator desestimulante para a aquisição de EVs japoneses ou de outras origens não-UE, criando uma barreira considerável para as vendas. Mesmo com um acordo de parceria econômica estabelecido entre o Japão e a União Europeia, a nova legislação não prevê isenções para os veículos elétricos manufaturados no Japão.

O mercado de veículos elétricos na Europa tem apresentado crescimento robusto. No ano passado, as vendas de EVs totalizaram 2,72 milhões de unidades, correspondendo a 18% do mercado automotivo geral, segundo dados da GlobalData. As projeções indicam que essa participação atingirá impressionantes 85% até 2035 e 98% até 2038. É crucial notar que essas projeções não levam em conta o possível impacto da Lei do Acelerador Industrial, sugerindo que o crescimento para EVs não-UE pode ser substancialmente menor se a lei for aprovada. Atualmente, as marcas japonesas detêm pouco mais de 10% do mercado automotivo europeu como um todo, mas sua participação no segmento de elétricos não ultrapassa os 2%, evidenciando um desafio de competitividade ainda maior.

Para as montadoras japonesas de veículos elétricos, o principal obstáculo reside na localização de suas plantas produtivas. A maioria das fábricas que produzem EVs destinados ao mercado europeu está localizada fora do bloco. A Toyota, por exemplo, possui uma linha de 12 modelos de veículos elétricos, mas quase todos são importados para a União Europeia do Japão ou de outros países. As únicas exceções incluem as fábricas de montagem da Toyota na França e em Portugal, que produzem outros modelos. A montadora também mantém operações no Reino Unido e na Turquia, nações que não integram a UE. No entanto, a Toyota tem planos de iniciar a produção de veículos elétricos na República Tcheca até 2028, em uma tentativa de se adequar a futuros cenários regulatórios.

A Suzuki também enfrenta desafios semelhantes. Embora possua uma fábrica na Hungria, a maioria dos veículos elétricos da empresa comercializados na UE são importados da Índia. A Nissan, outra gigante do setor automotivo japonês, produz seu principal modelo elétrico, o Leaf, em uma fábrica localizada no norte da Inglaterra. Esses exemplos ilustram a dependência da indústria japonesa em importações, que seria seriamente afetada pela IAA.

A Lei do Acelerador Industrial parece ter um objetivo implícito de fortalecer a indústria automotiva europeia, blindando-a da concorrência de fabricantes externos, especialmente os chineses. Empresas chinesas têm demonstrado uma ascensão notável no mercado de veículos elétricos da Europa, respondendo por 11,5% das vendas de elétricos no continente em 2025, de acordo com a empresa de pesquisa francesa Inovev. O volume de vendas de elétricos chineses cresceu um expressivo percentual de 90%. Assim como as japonesas, a maioria dos EVs chineses é fabricada fora da UE, porém, montadoras chinesas têm estrategicamente adquirido fábricas na Europa. Um exemplo disso é a transferência da propriedade da fábrica da Stellantis na Espanha para uma joint venture com a chinesa Leapmotor Technology.

Diante do complexo cenário, Keisuke Hanyuda, executivo-chefe (CEO) do Owls Consulting Group, sediado em Tóquio, ressalta a importância da adaptação. “Será necessário entender os detalhes [da IAA] e reestruturar a cadeia de suprimentos”, afirmou Hanyuda, enfatizando a necessidade de uma revisão profunda das estratégias operacionais. O processo legislativo da Lei do Acelerador Industrial segue adiante, com o Parlamento Europeu e o Conselho da UE analisando a proposta separadamente até o mês de dezembro. Caso aprovada, a legislação entraria em vigor já em 2028, alterando drasticamente o panorama competitivo. O prazo para que os legisladores apresentem emendas à IAA é esta quarta-feira, marcando um período crítico para as deliberações. Informações adicionais sobre as diretrizes industriais da UE podem ser encontradas em fontes como o portal de legislações da União Europeia.

Confira também: Imoveis em Rio das Ostras

A iminência da Lei do Acelerador Industrial representa um momento decisivo para as montadoras japonesas de veículos elétricos na Europa, forçando-as a reconsiderar profundamente suas estratégias de produção e cadeia de suprimentos para manter sua presença no crescente mercado de elétricos do bloco. Para continuar acompanhando as implicações das políticas econômicas europeias e as reações da indústria automototiva global, navegue pela editoria de Economia do nosso blog.

Crédito da imagem: Suas buscas no Google agora podem ter mais Valor. Ponha o jornal entre suas fontes preferidas. SAIBA COMO

Projeto de Lei da UE Ameaça Montadoras Japonesas de Elétricos - Imagem do artigo original

Imagem: Autoesporte via valor.globo.com

Deixe um comentário