Despejo Idosa Espanha: Urbagestion e Crise Imobiliária

Últimas Notícias

O despejo de uma idosa de 87 anos em Madri tem agitado o debate nacional sobre a crise imobiliária que assola a Espanha. Maricarmen Abascal, que viveu por impressionantes 70 anos no mesmo imóvel e mantinha o pagamento de seu aluguel em dia, tornou-se o triste símbolo da complexa problemática dos despejos, uma realidade crescente no país europeu, especialmente para indivíduos idosos e com deficiência.

A gravidade da situação habitacional na Espanha é ressaltada pelos dados do Conselho Geral do Poder Judicial, que registrou mais de 25 mil desocupações em 2025. O caso de Maricarmen evidencia o aumento exponencial dos preços dos aluguéis nos últimos anos, impulsionado pela escassez de oferta de moradias, pelo contínuo crescimento populacional nas principais cidades e pelo aumento de apartamentos convertidos em aluguéis turísticos de curta duração, que limitam o estoque de residências para locação de longa duração. A residência da idosa, situada no número 46 da rua Alcalde Sainz de Baranda, encontra-se no prestigioso e valorizado bairro do Retiro, uma das regiões mais caras de Madri.

Despejo Idosa Espanha: Urbagestion e Crise Imobiliária

Após uma prolongada batalha judicial, o tribunal decidiu em favor da Urbagestion Desarrollo e Inversión SL, empresa proprietária do imóvel, resultando na execução do despejo pela comissão judiciária. Em um esforço desesperado para evitar a quarta tentativa de remoção, dezenas de ativistas se reuniram em frente ao edifício. Apesar de uma forte presença policial desmantelar um acampamento de aproximadamente 400 pessoas, o despejo prosseguiu. A repercussão internacional foi imediata, com a Organização das Nações Unidas (ONU) emitindo um apelo pela suspensão da ação e exigindo que as autoridades espanholas garantissem uma alternativa de moradia adequada para Maricarmen.

Koldo Casla, o Relator Especial da ONU para o direito à habitação, expressou indignação com o ocorrido. “Não há como entender como se pode justificar priorizar a rentabilidade de um investimento imobiliário em detrimento do direito à habitação de uma mulher de 87 anos que recebe uma pensão de 1.300 euros e vive naquela casa há 70 anos”, declarou Casla, lembrando que o Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (CESCR) da ONU havia anteriormente emitido medidas cautelares para impedir o despejo. Ele ainda argumentou que o juiz deveria ter suspendido a ação para prevenir “danos irreparáveis”. A tragédia pessoal de Maricarmen também provocou uma forte reação política, com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, classificando o despejo como “inaceitável”.

Como a Urbagestion opera no mercado imobiliário

Fundada em outubro de 2005, durante o pico da bolha imobiliária espanhola, a Urbagestion Desarrollo e Inversión SL, que também opera sob o nome comercial Urbagesa, define sua missão como a de oferecer “investimentos rentáveis em imóveis de uso comercial, escritórios, industrial, logística, residencial e terrenos”. A estratégia da empresa, segundo sua própria descrição, consiste em aumentar o valor dos imóveis após a aquisição, removendo inquilinos e realizando reformas estruturais. Com sede em Madri e uma filial em Valladolid, a Urbagestion expande suas atividades por todo o território espanhol. Apesar de sua abrangência, a agência EFE, através da plataforma einforma, classificou-a como uma “microempresa” com apenas sete funcionários.

De acordo com dados fornecidos pela Axesor, especialista em informações financeiras e de risco de crédito na Espanha, a Urbagestion está associada aos empresários Ricardo Alonso Fernández e Fernando Alonso Fuentes. A BBC Mundo tentou repetidamente contato com a empresa por meio de seu site e números de telefone divulgados, mas todas as tentativas foram infrutíferas, não sendo possível obter um posicionamento oficial sobre o caso. A carteira de projetos da Urbagestion abrange cerca de dez edifícios residenciais à venda, majoritariamente localizados em Madri. Entre estes, um imóvel próximo à famosa Gran Vía, descrito como “atualmente vazio e para reformar”, é cotado a um preço que ultrapassa os 14 milhões de dólares, conforme reportado pela EFE. Outra oferta, localizada “em pleno centro” da capital, trata-se de um “edifício com inquilinos”, mas com a observação de que os contratos “terminariam no ano que vem e os demais não são de longa duração”. Em uma entrevista gravada antes de seu despejo, Maricarmen classificou a empresa como “desumana” e criticou abertamente sua motivação em “ganhar dinheiro”. Curiosamente, o edifício onde Maricarmen residia foi primeiramente adquirido em 2018 pela Renta Corporación, um dos proeminentes grupos imobiliários espanhóis.

Detalhes do antigo contrato de aluguel e a oferta de compra

A empresa propôs a Maricarmen a compra do apartamento por um valor próximo a 290 mil dólares. Contudo, com uma aposentadoria mensal que não excede os 1.500 dólares, a idosa não tinha nenhuma possibilidade financeira de concretizar tal transação. Dois anos após a compra inicial pela Renta Corporación, a Urbagestion adquiriu o edifício e, subsequente a isso, aumentou o valor do aluguel cobrado de Maricarmen para cerca de 3 mil dólares. Este montante representava um salto dramático em comparação aos 570 dólares que ela vinha pagando até então, uma tarifa possível devido a um contrato de aluguel antiquíssimo, assinado por seus pais em 1956.

Os chamados contratos de aluguel antigos, estabelecidos durante a ditadura franquista (período entre 1939 e 1975), eram regidos por regulamentações específicas que limitavam o valor dos aluguéis e garantiam a transferência dos direitos aos herdeiros dos inquilinos. Historicamente, os valores mensais desses contratos eram consideravelmente baixos, e no caso de Maricarmen, o valor que ela pagava era significativamente inferior à média do aluguel praticado na região, o que diminuía a rentabilidade do imóvel para seus proprietários. A Urbagestion argumentou que o contrato centenário havia expirado, demandando a atualização do valor para patamares de mercado. É importante contextualizar que o direito à moradia é um direito humano fundamental, reconhecido internacionalmente, conforme destaca o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) em seus documentos oficiais, servindo de base para a preocupação global com casos como o de Maricarmen.

A ascensão dos fundos de investimento e a crise da moradia

Em suas raras comunicações sobre o assunto, a Urbagestion se descreve como uma empresa de pequeno porte, buscando dissociar-se dos grandes fundos de investimento, frequentemente rotulados como “fundos abutres”. No entanto, muitos especialistas na área apontam que a lógica econômica subjacente à sua operação se assemelha muito à dessas grandes corporações: identificar e adquirir ativos imobiliários, desocupá-los, realizar reformas e então vendê-los por valores mais elevados, com o objetivo primário de obter um rápido retorno financeiro.

Ao longo das últimas duas décadas, o mercado imobiliário espanhol testemunhou uma entrada massiva de grandes fundos de investimento, que hoje se destacam como os maiores detentores de imóveis residenciais em toda a nação. Empresas de projeção internacional como Blackstone, Cerberus e Goldman Sachs desembarcaram na Espanha justamente em um período de intensificação das dificuldades de acesso à moradia. Neste cenário, os imóveis experimentaram uma acentuada valorização, e o mercado local emergiu como um polo extremamente atraente para investidores internacionais detentores de grandes volumes de capital, notavelmente os grandes fundos norte-americanos. Raymond Torres, economista do centro de análises espanhol Funcas, declarou à BBC Mundo que “o mercado na Espanha se caracteriza por uma demanda muito forte, o que o torna muito atraente para investidores de outros lugares, que têm a segurança de que conseguirão vender o bem adquirido e de que os preços sobem ano após ano”.

Essa ascensão contínua é confirmada por um período de 12 anos consecutivos de aumento nos preços, com indicadores atuais sugerindo uma aceleração desta tendência. Especialistas são unânimes em apontar que o encarecimento das moradias amplifica o risco de despejo, em particular para inquilinos em situações mais vulneráveis, como foi o caso de Maricarmen. É crucial notar que a evolução dos despejos não é influenciada apenas por fatores econômicos, mas também por nuances legais e sociais que complexificam ainda mais o panorama. A ministra da Habitação da Espanha, a socialista Isabel Rodríguez, criticou publicamente o governo conservador da Comunidade de Madri, acusando-o de “estender o tapete para esses especuladores” e destacando as tentativas frustradas do governo de coalizão de esquerda de aprovar leis que proíbam este tipo de despejo, devido à falta de maioria parlamentar. Atualmente, Maricarmen se encontra internada em um hospital e, posteriormente, residirá com parentes. Contudo, seu apartamento em Madri, embora agora vazio, ainda guarda as lembranças e os pertences de toda uma existência, que culminou neste lamentável episódio do despejo de uma idosa de 87 anos na Espanha.

Confira também: Imoveis em Rio das Ostras

O caso de Maricarmen serve como um lembrete vívido das ramificações humanas da crise imobiliária e da atuação de empresas como a Urbagestion, destacando a urgente necessidade de políticas eficazes para garantir o direito à moradia. Para se aprofundar em questões relacionadas à habitação, economia urbana e as intersecções com a política local e nacional, continue explorando nossa editoria de Cidades em Hora de Começar, onde abordamos temas cruciais para a sociedade.

Crédito da imagem: Getty Images via BBC

Deixe um comentário