Com sua economia intrinsecamente ligada à atividade mineral, Minas Gerais se encontra em uma encruzilhada vital, equilibrando o desenvolvimento com a imperativa necessidade de sustentabilidade ambiental. A crise climática em Minas Gerais, agravada pela recorrência de eventos extremos, impõe um desafio singular aos futuros líderes do estado. Em 2025, a mineração injetou R$ 3,57 bilhões em Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) no caixa estadual, solidificando sua posição como a maior arrecadação do setor entre as unidades federativas do Brasil. No entanto, essa pujança econômica vem acompanhada de complexas questões envolvendo a preservação ambiental, o manejo de recursos naturais, a recuperação de áreas degradadas e, particularmente, a segurança das barragens.
O cenário é crítico: Minas Gerais é o estado com o maior número de barragens em nível de alerta ou situação de emergência no país, totalizando 84 estruturas, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), informação que pode ser consultada no site da própria ANM. Este dado sublinha a urgência em conciliar o avanço econômico com a proteção ecológica. Adicionalmente, o estado deve se preparar para os efeitos das mudanças climáticas, que impactam significativamente cidades e populações, especialmente aquelas em zonas de risco. Eventos extremos, como as fatalidades registradas na Zona da Mata no início de 2026, com 74 mortes, tendem a se tornar mais frequentes e severos.
Propostas Candidatos MG: Crise Climática e Mineração
Diante dessa conjuntura complexa, os diversos postulantes ao governo de Minas Gerais apresentam plataformas distintas para enfrentar os desafios ambientais da mineração e a crescente crise climática. As propostas, detalhadas a seguir, foram extraídas dos planos de governo submetidos à Justiça Eleitoral e demonstram as visões de cada candidato para o futuro ambiental e socioeconômico de Minas Gerais.
Visão dos Candidatos para Mineração e Meio Ambiente
Alexandre Kalil (PDT)
Alexandre Kalil propõe integrar considerações como recursos hídricos, biodiversidade, cobertura vegetal, áreas de recarga, corredores ecológicos e zonas de risco na formulação de decisões sobre atividades econômicas. Ele visa a reestruturação do licenciamento ambiental, enfatizando o rigor técnico, a previsibilidade e prazos definidos. Para a segurança de barragens, o candidato defende o uso de tecnologias avançadas de sensoriamento e monitoramento contínuo, complementadas por fiscalização efetiva. No tocante às alterações climáticas, seu plano contempla o mapeamento territorial da vulnerabilidade estadual, direcionando suporte a municípios mais expostos a eventos extremos para o desenvolvimento de planos de adaptação e prevenção. O documento sublinha a natureza social da crise climática, defendendo políticas que considerem a desproporcionalidade dos impactos sobre idosos, crianças, pessoas com deficiência, famílias de baixa renda e comunidades em áreas de risco.
Ben Mendes (Missão)
O plano de Ben Mendes foca em aprimorar a qualidade técnica e a transparência dos processos de licenciamento ambiental para empreendimentos de alto risco. Ele sugere a criação de uma “plataforma estadual de inteligência mineral-ambiental” para otimizar o monitoramento das atividades, priorizando equipes de campo. Ademais, propõe a fiscalização anual de estruturas críticas de mineração. No entanto, seu plano de governo não detalha propostas específicas para a abordagem da crise climática.
Cleitinho Azevedo (Republicanos)
Cleitinho Azevedo defende a digitalização e a simplificação dos procedimentos de licenciamento ambiental, com a premissa de manter o rigor técnico e a proteção ecológica, sem detalhar os métodos para essa simplificação. Em relação à segurança de barragens, o plano prevê uma fiscalização transparente através do acompanhamento diário das estruturas. Para enfrentar as mudanças climáticas, propõe uma política estadual de adaptação climática destinada a auxiliar prefeituras na gestão de enchentes, secas severas e tempestades. O documento ainda prevê apoio estadual para o mapeamento de riscos e a instalação de redes de alerta meteorológico, além de programas estaduais de reflorestamento e restauração de bacias hídricas.
Flávio Roscoe (PL)
Flávio Roscoe propõe a adequação da legislação ambiental mineira, buscando implementar a licença por adesão para empreendimentos de menor porte. Seu plano visa também exigir nexo de causalidade entre as condicionantes impostas a empreendedores e os impactos ambientais potenciais, bem como reduzir os prazos para análise de licenciamento. Ele sugere a criação de um cadastro público online, permitindo que a população monitore o cumprimento das compensações ambientais de grandes projetos. Não há, em seu plano de governo, propostas específicas para a gestão das mudanças climáticas.
Gabriel (MDB)
Gabriel defende o monitoramento ativo de barragens e o acompanhamento do cronograma de descaracterização de barragens alteadas a montante, com fiscalização permanente. Ele propõe um planejamento ambiental integrado para otimizar os instrumentos de licenciamento, autorização para supressão de vegetação e outorga do direito de uso de recursos hídricos. O objetivo é proporcionar previsibilidade aos empreendedores e concentrar o esforço técnico nas atividades com maior risco ambiental. Seu plano inclui apoio técnico aos municípios na prevenção de desastres de impacto regional, promovendo uma coordenação estadual para monitoramento, alerta e resposta rápida a eventos extremos. Preconiza também uma frente estadual de descarbonização, incentivando a aquisição de ônibus de baixa ou zero emissão e a adoção de critérios ambientais nas compras públicas.
Henrique Áreas (PCO)
O plano de governo de Henrique Áreas não apresenta propostas detalhadas ou específicas em relação às mudanças climáticas ou às questões ambientais diretamente associadas à mineração.

Imagem: g1.globo.com
Indira Xavier (UP)
Indira Xavier promete intensificar o monitoramento e a fiscalização de barragens, além de exigir que as mineradoras adotem tecnologias de extração de minério mais eficientes. O plano de governo sugere a elaboração de legislações que priorizem as necessidades das populações afetadas e a criação de conselhos populares da mineração, com ampla participação das comunidades locais e dos trabalhadores do setor. O documento prevê ainda a instituição de fundos de incentivo à diversificação da matriz econômica em territórios mineradores, promovendo, por exemplo, o fortalecimento da agricultura familiar. A candidata não detalha propostas específicas para a abordagem das mudanças climáticas.
Mateus Simões (PSD)
Mateus Simões defende a atração de investimentos que se alinhem com políticas de sustentabilidade, priorizando a geração de energia verde e a descarbonização. Ele propõe modernizar a gestão ambiental, conciliando rigor técnico com previsibilidade de prazos e o emprego de tecnologia nas análises, assegurando a fiscalização permanente de barragens. O plano de governo sugere apoiar os municípios na adaptação climática e na redução da vulnerabilidade a eventos extremos, embora sem detalhamento prático. O documento também visa combater o desmatamento ilegal e promover a recuperação de áreas degradadas por meio de monitoramento remoto e incentivos à conservação ambiental.
Patrus Ananias (PT)
Patrus Ananias propõe transformar a CFEM em um mecanismo de desenvolvimento regional, com recursos alocados para recuperação ambiental, diversificação econômica de municípios mineradores e investimentos em saúde, educação e infraestrutura. O candidato enfatiza o fortalecimento da governança da atividade mineral para garantir fiscalização rigorosa, segurança de barragens e participação efetiva das comunidades nas decisões sobre novos empreendimentos. Em relação à crise climática, o plano de governo advoga por uma política de desenvolvimento integrada com o enfrentamento das mudanças climáticas. As propostas incluem a expansão de áreas florestais no estado e o estímulo à recuperação de nascentes, bacias e sub-bacias. O documento também sugere uma maior democratização na gestão das políticas públicas através de conselhos municipais de meio ambiente.
Rafael Duda (PSTU)
Rafael Duda defende a estatização do setor de mineração e a proibição da exploração mineral nas serras que abastecem a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ele propõe o fortalecimento dos órgãos ambientais, com dotação orçamentária e pessoal ampliados para ações de fiscalização, e a elaboração de um plano de contingência para perdas florestais. O plano de governo também prevê a publicação de normas para a redução da emissão de carbono e a ampliação das áreas de preservação ambiental no estado.
Túlio Lopes (PCB)
Túlio Lopes propõe a revisão de todos os licenciamentos ambientais, com a participação direta das comunidades impactadas, e o estabelecimento do controle social sobre o ritmo de extração mineral. O objetivo é assegurar a preservação dos territórios, a segurança e a autossuficiência das populações. O candidato defende a criação, por lei, de territórios livres de mineração e a proteção de Áreas de Preservação Permanente (APPs), com recomposição da vegetação nativa, controle do uso do solo e combate às atividades ilegais. Seu plano de governo sugere medidas como a proteção e recuperação de nascentes, rios, lagoas e mananciais, recomposição da cobertura vegetal, manejo sustentável do solo, controle de atividades predatórias e um planejamento territorial integrado, além de ampliar e manter, sob controle popular, parques e áreas verdes urbanas.
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As propostas dos candidatos ao governo de Minas Gerais refletem a urgência e a complexidade de dois temas centrais para o futuro do estado: a gestão da mineração e o enfrentamento da crise climática. Ao comparar as diferentes abordagens, o eleitor tem a oportunidade de escolher qual visão melhor se alinha com um futuro mais sustentável e seguro para Minas Gerais. Para aprofundar-se em outros debates e análises políticas, continue explorando nossa editoria de Política.
Foto: TV Globo/ Reprodução
