No dia 7 de setembro de 2026, o Brasil foi palco da 32ª edição do Grito dos Excluídos, um movimento tradicional que, mais uma vez, reverberou por todo o território nacional. Organizado por movimentos sociais, o evento contou com a participação ativa da população em atos e marchas realizadas em mais de 50 cidades, abrangendo todas as regiões do país. A mobilização anual visa dar voz a segmentos da sociedade historicamente marginalizados, reafirmando suas demandas e a luta por direitos fundamentais. A data, simbolicamente associada à Independência do Brasil, é ressignificada pelos manifestantes como um dia de reafirmar a independência de seus cidadãos frente às diversas formas de exclusão social e econômica.
Sob o potente lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”, faixas coloridas, bandeiras e gritos de ordem marcaram os encontros. Os participantes não apenas recordaram, mas também vocalizaram suas reinvindicações urgentes. A pauta diversificada incluiu pontos cruciais como a exigência por moradia digna para todos, a necessidade premente de uma reforma agrária abrangente, a defesa intransigente da educação pública de qualidade e o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), pilares essenciais para a dignidade e bem-estar da sociedade.
Grito dos Excluídos 2026: Luta por Moradia e Contra Violência no País
Além das pautas sociais, o movimento abordou questões de gênero e direitos humanos, exigindo o enfrentamento contundente do feminicídio e de todas as formas de violência direcionadas às mulheres. O combate ao racismo e à LGBTfobia também estiveram em evidência, refletindo a pluralidade das lutas encampadas. Adicionalmente, foi levantada a crítica à jornada de trabalho exaustiva, pedindo o fim da escala 6×1, uma reivindicação trabalhista que ecoou em diversos centros urbanos.
A Mobilização em São Paulo: Luta por Liberdade e Democracia
A capital paulista foi um dos principais palcos das manifestações. Manifestantes percorreram as históricas ruas do centro da cidade, concluindo o trajeto com uma missa emocionante na Catedral da Sé, dedicada especificamente à população em situação de rua. Antes do início da caminhada, um café da manhã comunitário foi organizado, promovendo a união e solidariedade entre os participantes. Para Miriam Hermogenes, ativista da Central dos Movimentos Populares e uma das organizadoras do evento, a liberdade plena só será alcançada quando não houver mais pessoas desabrigadas no país. Em declaração à Agência Brasil, ela enfatizou que, “ainda não temos liberdade; precisamos avançar muito para sermos um país, uma sociedade em liberdade”.
A defesa da democracia também se fez presente nos discursos e atos em São Paulo. Frei David Santos, coordenador do cursinho Educafro, ressaltou a importância de proteger o sistema democrático de interferências econômicas, afirmando: “É importante estarmos juntos, hoje, pela Democracia”. A dimensão pessoal das injustiças sociais também teve voz forte. Deuza Cordeiro de Lima participou do Grito para protestar contra a violência policial. Seu filho, Thiago, foi tragicamente assassinado em janeiro de 2023, na região central da capital. “Vim como em outros anos denunciar a violência. Meu filho foi morto pela polícia, e seus assassinos estão livres. Ele era inocente, mais um de tantos, e não vou ficar quieta”, desabafou Deuza, evidenciando a busca incessante por justiça. Célia Souza e seus amigos também marcaram presença, focando na reivindicação de moradia digna para todos, destacando a importância básica desse direito fundamental. “Eu vim hoje pela luta. Por moradia, que é algo cuja importância é a mais básica, da qual não podemos abrir mão”, disse Célia.
Manifestações no Rio de Janeiro: Teatro, Cidadania e Críticas
No Rio de Janeiro, o Grito dos Excluídos teve seu início após o tradicional Desfile de Sete de Setembro, com os manifestantes cruzando a movimentada Avenida Presidente Vargas, uma das vias mais importantes da área central. Um elemento distinto na capital fluminense foi a inclusão de performances teatrais no ato. Um grupo de ativistas levou o teatro às ruas, encenando esquetes em meio à marcha. Essas apresentações, repletas de defesa à soberania nacional e à democracia, foram conduzidas pela Escola de Teatro Popular, que se identifica como um movimento dedicado ao teatro político e à educação popular.
Julian Boal, pesquisador teatral e dramaturgo, filho de Augusto Boal – criador do renomado Teatro do Oprimido – coordenou as ações do grupo. Julian explicou que a presença teatral visava ampliar o alcance e o engajamento na manifestação, abordando a ideia de que a participação democrática transcende o ato eleitoral. “O que a nossa cena tentou fazer é recolocar a questão de qual é o peso das instituições. Tentar discutir que dentro das instituições a gente pode fazer muita coisa, mas que o nosso todo é muito maior do que aquelas eleições podem colocar”, explicou ele, enfatizando a necessidade de vigilância e participação contínua da sociedade. Uma das bandeiras mais levantadas foi, novamente, a defesa da moradia. Ricardo Pitta, coordenador do Movimento Quilombos Urbanos Luta por Moradia Digna, reforçou a convicção de que apenas através da mobilização popular os grupos mais vulneráveis e invisibilizados poderão reverter as injustiças sofridas.
Pitta expressou à Agência Brasil a frustração de ver as demandas sociais frequentemente subordinadas ao calendário eleitoral. “Todo ano os moradores estão sofrendo, ameaçados de despejo, muitos deles, inclusive, em imóveis públicos que, em vez de estarem cumprindo sua função social, como prevê a Constituição, estão sendo ameaçados de serem leiloados para atender aos interesses da especulação imobiliária”, criticou o coordenador, que lidera quatro ocupações na cidade. É vital recordar que a Constituição Federal Brasileira de 1988, em seu artigo 5º e nos artigos 182-183, estabelece a função social da propriedade, reforçando a importância do uso do solo urbano para o bem coletivo, e não apenas para o interesse individual.
O protesto carioca também reverberou críticas contra o “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros, evidenciando preocupações com a política econômica e a soberania nacional. Outro tema de forte debate foi o fim da escala 6×1 de trabalho, uma medida aprovada pela Câmara dos Deputados e que aguarda votação no Senado Federal, processo que deve ocorrer após as eleições. Além disso, uma seção da manifestação dedicou-se à memória de vítimas da Ditadura Militar (1964-1985), clamando por uma vigilância democrática constante para prevenir que o Brasil não vivencie novamente períodos de autoritarismo. Um globo cenográfico, medindo aproximadamente três metros de altura, foi exibido para simbolizar a crescente preocupação com a crise ambiental.

Imagem: Paulo Pinto via agenciabrasil.ebc.com.br
Durante o evento, houve um pequeno incidente quando um grupo de cerca de 15 pessoas tentou hostilizar os participantes do Grito dos Excluídos. Policiais militares, que acompanhavam o trajeto para garantir a segurança, intervieram rapidamente, dispersando o grupo e evitando maiores confrontos.
Brasília e a Preocupação Ecológica: Ecologia Integral e Eleições
Em Brasília, o Núcleo de Ecologia Integral da cidade aproveitou o Grito dos Excluídos para vocalizar preocupações profundas com a crise ecológica global. Eles enfatizaram que a questão ambiental possui dimensões políticas intrínsecas e representa um tema crucial de justiça social, responsabilidade política e compromisso fundamental com a vida no planeta. “O planeta está sendo destruído e se não mudarmos a política ecológica, a forma como estamos tratando nossa casa comum, usando os recursos naturais da forma como estamos gastando, logo não teremos mais onde habitar”, alertou Maria do Carmo de Jesus Botafogo, economista aposentada, em entrevista à Agência Brasil.
Como parte de suas atividades, o núcleo apresentou uma carta de compromisso com a ecologia integral. O documento visa ser integrado à plataforma de candidatos do campo progressista que concorrem a cargos nos Executivo e Legislativo nas eleições em curso. Esta carta é fruto de um seminário que reuniu diversos membros do grupo e está estruturada em quatro eixos temáticos essenciais: políticas agrícolas e fundiárias; políticas urbanas e de resíduos no Distrito Federal e Entorno; Justiça Climática e Proteção às Vítimas; e propostas para a salvaguarda de uma das mais importantes nascentes da região, a da Estação Ecológica de Águas Emendadas, que alimenta duas bacias hidrográficas cruciais: a do Tocantins-Araguaia e do Paraná.
Ana Clara Botafogo, engenheira florestal e filha de Maria do Carmo, explicou que a iniciativa não se limita aos candidatos progressistas. “Passadas as eleições, entregaremos uma cópia a todos os eleitos, independentemente do campo ideológico, pois eles terão as mesmas obrigações com o meio ambiente”, afirmou, reforçando o caráter universal da causa ambiental. A professora universitária Altaci Kokama, ao participar do Grito, ressaltou que, em suas 32 edições, o movimento se consolidou como um espaço vital onde “os que estão à margem da sociedade têm voz e vez para apresentar suas demandas, suas reivindicações”. Ela sublinhou que os “excluídos são aqueles que não têm casas, moradia, trabalho, alimento, os que estão buscando justiça”, reconhecendo, contudo, o grande desafio de mobilização.
Altaci Kokama pontuou as dificuldades enfrentadas na organização de tais eventos: “Quem tem mais dinheiro para financiar suas ações consegue mobilizar mais pessoas. Para trazer os excluídos, por exemplo, muitas vezes é preciso ajudar com transporte, comida, e nós não temos toda a estrutura necessária. Muitos têm vontade de participar, mas não têm condições”, explicou, evidenciando o trabalho contínuo de debates e engajamento nas comunidades, muitas vezes com recursos limitados, para que o Grito dos Excluídos continue a ser uma plataforma de luta e denúncia social.
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O Grito dos Excluídos de 2026 reafirmou, em mais de 50 cidades brasileiras, a importância da participação popular na defesa de direitos essenciais, desde a moradia e reforma agrária até a proteção ambiental e a erradicação de todas as formas de violência e discriminação. As manifestações serviram como um potente lembrete de que a busca por uma sociedade mais justa e equitativa é um processo contínuo e demanda a atenção constante de governantes e cidadãos. Continue acompanhando as últimas notícias sobre movimentos sociais e a política brasileira em nossa editoria de Política para se manter informado e engajado com os debates que moldam o futuro do país.
Crédito da imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil

