A crescente influência das redes sociais na leitura de livros no Brasil é um tema que tem ganhado destaque no cenário cultural. Em um país com um vasto potencial de leitores, plataformas digitais e clubes de leitura emergem como ferramentas significativas para fomentar o diálogo e o interesse pelo universo literário, conforme a visão da renomada escritora mineira Carla Madeira.
Autora de best-sellers aclamados como “Tudo é Rio”, “A Natureza da Mordida” e “Véspera”, Carla Madeira é hoje a escritora de ficção mais lida do Brasil, com mais de um milhão de cópias vendidas. Ela esteve presente na décima edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, no último sábado (8 de agosto de 2026), para uma concorrida sessão de autógrafos e bate-papo, onde interagiu com um grande público reunido no Largo do Pelourinho.
Redes Sociais Ampliam Interesse pela Leitura no Brasil, Destaca Escritora
Para a escritora, que se tornou um fenômeno de vendas, o aspecto mais positivo desse movimento é o engajamento crescente em torno da literatura. Madeira celebrou o aumento do número de brasileiros não apenas lendo mais, mas também comentando ativamente sobre as obras literárias. Ela enfatiza o papel preponderante das redes sociais e dos clubes de leitura nesse processo. “As pessoas estão descobrindo que é gratificante conversar sobre suas leituras, expressar concordância ou discordância, debater, incorporar outras perspectivas, cruzar informações e criticar ou aplaudir. Tudo isso é válido e é maravilhoso, pois constitui um exercício de troca rico, capaz de expandir a consciência”, ressaltou a autora.
A proliferação dos clubes de livros e dos diversos festivais de literatura pelo país também são fatores que, segundo Carla Madeira, impulsionam a elevação do interesse geral pela leitura. “Esse cenário está sendo celebrado e ampliado. E as redes sociais desempenham uma função super importante em todo este movimento”, acrescentou, sublinhando a sinergia entre o ambiente digital e os eventos literários tradicionais.
Os Desafios da Leitura no Brasil
Apesar da percepção de um maior interesse e engajamento em torno dos livros, a escritora pontua que o Brasil ainda enfrenta desafios significativos quanto aos hábitos de leitura. Madeira observa que, para um país com uma população estimada em 220 milhões de pessoas, o número de leitores ainda é modesto. Em 2024, a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, conduzida pelo Instituto Pró-Livro, indicou que 47% da população com cinco anos ou mais se declarava leitora, o que equivale a aproximadamente 93,4 milhões de indivíduos. No entanto, a maioria (53%) não havia lido sequer parte de um livro nos três meses que antecederam a pesquisa. “Quando confrontamos os dados do mercado editorial com esses indicadores demográficos, é inegável que o brasileiro lê pouco”, analisou Carla Madeira em entrevista. “Contudo, muitas questões estão interligadas a essa realidade, desde a educação formal e a carência de incentivos à leitura, até o próprio acesso aos livros e a locais adequados para ler”, afirmou ela à Agência Brasil.
Em sua fala anterior ao encontro com o público na Flipelô, Carla Madeira reforçou a indispensabilidade de políticas públicas que visem estimular e ampliar o acesso da população aos livros. “Estamos discutindo uma realidade que, muitas vezes, difere daquela de uma ‘bolha’ que tem condições de acessar livros, que possui uma casa ou um quarto, ou luz adequada à noite. Existe uma série de questões sociais que impactam diretamente nisso”, concluiu a escritora, evidenciando a necessidade de abordar as desigualdades sociais para promover uma cultura de leitura mais inclusiva.
“Quando”: Novo Romance Aborda Maternidade e Conflitos Sociais
Durante sua participação na mesa da Flipelô, a escritora mineira também revelou detalhes sobre seu próximo livro, intitulado “Quando”, que tem lançamento previsto ainda para o mês de agosto de 2026. A obra explora a complexa história de uma mãe que denuncia o próprio filho à polícia. A escrita de “Quando” ocorreu em um período particularmente desafiador para Carla Madeira, que enfrentava três lutos em sequência: a perda de sua mãe, de seu psicanalista e de sua sócia. “’Quando’ começou de maneira caótica e, embora não seja autoficção ou diretamente ligada aos meus lutos pessoais, nesse período eu senti a necessidade de uma linguagem que pudesse dar conta do real”, explicou. “Acredito que toda emoção reside no corpo. Um corpo afetado e perturbado busca retornar a um estado de equilíbrio. E qual o recurso que ele possui? A linguagem. Recorremos à linguagem para reorganizar o corpo”, filosofou.

Imagem: Elas via agenciabrasil.ebc.com.br
O novo romance narra a jornada de uma mãe doente que aguarda ansiosamente pelo reencontro com seu filho, que ela não vê há duas décadas. Durante essa espera, a narrativa retrocede para 1986, período em que o Brasil retornava às eleições diretas, revelando o que aconteceu anteriormente, com as marcas e heranças da ditadura ainda latentes no contexto social. “Este é mais um livro que explora um tema muito caro a mim: a maternidade. Não apenas a maternidade em si, mas a concepção da família como um lugar fundante, o primeiro espaço que nos acolhe no mundo e que será determinante – tanto para o bem quanto para o mal. É ali que se iniciam os primeiros pactos civilizatórios e onde construímos nossa primeira visão de mundo”, detalhou a autora.
A décima edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) teve início na quarta-feira, 5 de agosto, e encerrou-se neste domingo, dia 9, com ampla programação e a participação de grandes nomes da literatura brasileira e internacional. A repórter e a fotógrafa que cobriram o evento tiveram suas despesas de viagem custeadas pelo Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.
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A reflexão de Carla Madeira sobre a conexão entre redes sociais e leitura evidencia como a tecnologia, se bem empregada, pode ser uma aliada fundamental na construção de uma sociedade mais leitora e engajada com a cultura. Para continuar explorando debates relevantes sobre cultura e sociedade brasileira, explore mais análises aprofundadas em nosso blog, onde desvendamos os fatos e tendências que moldam o nosso cotidiano.
Crédito da imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil


