Fiagros: Retornos Elevados e Oportunidades no Agronegócio

Economia

Os Fiagros, fundos de investimento no agronegócio, voltaram ao centro das discussões no mercado financeiro após um desempenho notável na captação do primeiro semestre e, concomitantemente, uma turbulência que expôs seus riscos. Segundo dados da Anbima, a captação desses fundos no período alcançou R$ 8,3 bilhões, representando um crescimento expressivo de 288% em comparação ao ano anterior. Esse avanço destaca o apetite crescente dos investidores pelo setor, que promete ganhos isentos de imposto de renda, embora exija uma análise criteriosa.

A atenção sobre os Fiagros foi intensificada com o caso do Valora CRA (VGIA11), da Valora Investimentos, cujas cotas despencaram mais de 20% em apenas dois dias de julho. A causa foi a inadimplência de um dos devedores de Certificados de Recebíveis do Agronegócio, decorrente de uma decisão judicial. Especialistas reconhecem o potencial desses instrumentos para diversificação e rentabilidade de até 1,5% ao mês, mas alertam para a imperativa vigilância quanto às garantias e à saúde financeira dos devedores envolvidos.

Fiagros: Retornos Elevados e Oportunidades no Agronegócio

O mercado de crédito, especialmente para o agronegócio, ainda é considerado em fase de desenvolvimento no Brasil. Amanda Coura, fundadora da Zera, empresa especializada na originação de crédito para Fiagros, aponta que, apesar da recente democratização, que permite a investidores acessarem carteiras do agronegócio a partir de R$ 10, há uma necessidade de amadurecimento tanto do público investidor quanto do próprio mercado. No último ano, a Zera estruturou R$ 1,2 bilhão em operações, com projeção de expansão.

Crescimento Acelerado e Desafios Atuais do Setor

Atualmente, o universo dos Fiagros soma cerca de R$ 60 bilhões em patrimônio, sendo R$ 11 bilhões em fundos com cotas negociadas em bolsa e mais de 600 mil investidores ativos, mesmo diante de uma Selic próxima de 15% ao ano. O primeiro semestre de 2023 foi marcado pelo aumento da inadimplência e pela elevação da seletividade por parte dos investidores, impactando a qualidade das carteiras e moderando o ritmo das emissões, que se concentraram em operações de maior qualidade, conforme Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Para a segunda metade do ano, a expectativa de Lima é uma retomada gradual das emissões, desde que seja mantido um perfil mais conservador. Ele enfatiza que os problemas de inadimplência não são generalizados, concentrando-se em fundos com elevada concentração de crédito ou exposição a devedores mais vulneráveis. Gustavo Assis, CEO do Asset Bank, corrobora, afirmando que a inadimplência motivou os investidores a diferenciar mais rigorosamente os fundos com carteiras pulverizadas, boas garantias e gestão ativa daqueles com maior risco concentrado. A previsão para o segundo semestre inclui uma recuperação, mas sem a captação indiscriminada vista nos anos iniciais, favorecendo fundos com histórico sólido, boa governança e estruturas de proteção robustas.

Oportunidades e Rentabilidade Atrativa

A despeito das recentes turbulências, a rentabilidade dos Fiagros permanece um grande atrativo, em especial nos fundos de crédito, de acordo com Sidney Lima. Em julho, muitos fundos reportaram dividend yields mensais variando entre 1,0% e 1,5%, sustentados pelas taxas elevadas do CDI. No entanto, a qualidade da gestão emergiu como um fator ainda mais crucial devido à maior disparidade no desempenho entre os diferentes fundos.

Amanda Coura reitera que os Fiagros historicamente oferecem rentabilidades superiores devido aos ganhos com os créditos e à isenção de imposto de renda, um diferencial importante. Contudo, ela lembra que houve casos de fundos afetados por operações que entraram em recuperação judicial, cessaram pagamentos e resultaram em redução da rentabilidade, provocando uma desvalorização considerável das cotas em períodos anteriores. Embora alguns fundos tenham se recuperado, a média do setor ainda apresenta cotas desvalorizadas em relação ao patrimônio, limitando novas emissões.

Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, observa que a rentabilidade se mantém competitiva em diversos Fiagros, com alguns fundos listados distribuindo mais de 1% ao mês, especialmente aqueles com ativos de crédito indexados ao CDI. Ele ressalta, no entanto, a maior dispersão de resultados entre os fundos e adverte que não basta observar apenas o rendimento mensal distribuído. É fundamental analisar a qualidade dos ativos, os eventos de crédito potenciais, a cotação do fundo no mercado secundário e a capacidade de sustentar o nível de distribuição a longo prazo.

Atenção Redobrada aos Riscos e Garantias

As empresas de médio porte do agronegócio são vistas como as principais beneficiárias do mercado de capitais para captação de recursos, um caminho já explorado pelas grandes, incluindo produtores, empresas de insumos, comércio e indústria. Contudo, todas precisarão se aprimorar na “linguagem da Faria Lima”, ou seja, em governança e apresentação de resultados, conforme Amanda Coura.

Para os investidores, a barra de exigências aumentou, requerendo cada vez mais garantias robustas e informações detalhadas. Investidores ainda procuram garantias imobiliárias, como fazendas, solicitando, em geral, o dobro do valor emprestado. Um desafio, no entanto, reside na insegurança jurídica em torno da execução dessas garantias, visto que decisões judiciais podem variar consideravelmente dependendo do estado e da comarca.

Para mitigar esse receio, o setor tem buscado operações que, por sua própria estrutura, já promovam a diversificação e a redução de riscos. Isso inclui Fiagros com teses de investimento específicas, parcerias com grandes empresas que possuem conhecimento aprofundado do mercado e estruturas com cotas subordinadas, onde as grandes empresas compram cotas subordinadas e podem cobrir até 20% das perdas de grupos de pequenos produtores. Outra abordagem é a estruturação em que um fundo se torna o proprietário da fazenda, e o fazendeiro se posiciona como investidor das cotas subordinadas, com o objetivo de evitar a necessidade de execução judicial de garantias. Para dados mais detalhados sobre o desempenho do setor, pode-se consultar os relatórios e estudos divulgados pela Anbima, uma referência para o mercado de capitais e financeiro no Brasil.

Lima, da Ouro Preto, salienta que investidores agora exigem maior transparência, garantias mais robustas e diversificação de carteiras. Fundos com gestão reconhecida continuam a atrair capital, enquanto estruturas mais arriscadas enfrentam dificuldades. As estratégias de estruturação estão se direcionando para operações com garantias mais sólidas, menor concentração por devedor, diversificação geográfica e de culturas agrícolas, além de um processo mais rigoroso de análise e monitoramento dos tomadores de crédito.

A redução de riscos, segundo Assis, do Asset Bank, inicia antes da aquisição do crédito, com uma análise rigorosa do tomador e da operação. É crucial compreender o modelo de negócio, o fluxo de caixa, o nível de endividamento, o histórico de pagamentos, a capacidade produtiva e os riscos inerentes a cada elo da cadeia do agronegócio. Entre os mecanismos de proteção primários, estão a exigência de garantias reais, como alienação fiduciária de propriedades ou equipamentos, cessão de recebíveis, contas vinculadas, seguros, aval de controladores e estruturas de fundos com cotas subordinadas. Adicionalmente, é vital que os fundos estabeleçam limites de concentração por devedor, grupo econômico, região, cultura e atividade, mantendo um acompanhamento contínuo após a liberação do crédito, verificando covenants, safras, preços de commodities, custos de produção e alterações na capacidade de pagamento.

O Futuro do Financiamento do Agronegócio no Brasil

O agronegócio, que corresponde a 30% da economia brasileira, é um setor cíclico com uma vasta gama de perfis empresariais. Amanda Coura lembra que, embora os participantes do agro estejam acostumados com alternâncias de anos bons e ruins, os investidores precisarão desenvolver essa mesma compreensão, já que o mercado de capitais está em rota de maior participação no financiamento do setor. Ela projeta que as fontes governamentais focarão cada vez mais nos pequenos produtores e que os bancos diminuirão sua presença no crédito ao agronegócio. Com apenas cerca de 20% das empresas do agronegócio utilizando o mercado de capitais para financiar-se atualmente, Amanda conclui que há uma vasta oportunidade para consolidar o setor nesse cenário financeiro.

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Em suma, os Fiagros apresentam-se como uma modalidade de investimento com potencial de retornos elevados e isentos de IR, mas que exigem dos investidores uma compreensão aprofundada dos riscos inerentes ao agronegócio e uma seleção rigorosa dos fundos. Para mais análises e atualizações sobre o mercado de investimentos, economia e o setor do agronegócio, continue acompanhando nossa editoria de Economia no blog.

(Crédito da imagem: Divulgação)

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