Saúde de Ribeirinhos no Amazonas Ganha Reforço Crucial

Saúde

O acesso à saúde de comunidades ribeirinhas no Amazonas tem sido historicamente um desafio marcante para moradores de regiões remotas. Várias famílias carregam cicatrizes profundas causadas pela escassez de assistência médica, distâncias gigantescas e a falta de recursos adequados para um atendimento eficiente e em tempo hábil. Cenários trágicos, como a perda de vidas durante emergências e a persistência de sequelas devido ao atraso no socorro, são narrativas comuns no dia a dia da população de Carauari, um vasto município localizado no interior do estado.

A situação que ceifou a vida da mãe de Francisco Solivan Peres de Araújo, atual presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), ilustra bem a urgência dessa pauta. Na década de 1980, a hemorragia durante o parto de sua irmã foi fatal para a matriarca, uma perda que poderia ter sido evitada com o atendimento adequado. Tais histórias de dor, consequências irreversíveis e traumas psicológicos ecoam frequentemente, delineadas pela significativa distância entre as áreas rurais e urbanas e a insuficiência financeira para o deslocamento em busca de cuidados médicos.

Saúde de Ribeirinhos no Amazonas Ganha Reforço Crucial

O município de Carauari se destaca por sua colossal extensão territorial, superior à de diversos países e um dos maiores do Brasil, com mais de 25,7 mil quilômetros quadrados. Banhado pelo imponente Rio Juruá e abraçado pela vasta Floresta Amazônica, essa configuração geográfica implica em viagens que podem durar horas ou até dias para que ribeirinhos das áreas rurais alcancem a estrutura de saúde fixa na zona urbana. O tempo de trajeto é influenciado pelo tipo de embarcação e pelas condições fluviais, que se agravam nos períodos de seca, prolongando ainda mais a jornada em busca de atendimento.

Uma expedição realizada pela Agência Brasil à Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS Uacari) de Carauari revelou a dura realidade de diversas comunidades. O trajeto desde Manaus até a comunidade de Bauana e, posteriormente, até Campina, somou dezenas de horas de navegação. Durante essa imersão, inúmeros relatos trágicos emergiram, indicando que muitos desfechos poderiam ter sido diferentes se, no passado, existissem políticas públicas de acesso à saúde mais robustas para os ribeirinhos do Amazonas.

Superando Barreiras e Histórias de Superação

A situação era ainda mais crítica até os anos 90, quando a prefeitura de Carauari implementou um sistema de lanchas de resgate. Embora essa iniciativa tenha sido um avanço, os testemunhos de atrasos no socorro persistiam, decorrentes da gigantesca distância a ser vencida até a “cidade”, como os moradores locais se referem à área urbana do município.

Adriana da Silva e Silva é um exemplo vivo das sequelas que a demora no atendimento pode causar. Após ser picada por uma cobra em janeiro de 2019, na comunidade de São José do Nachiqui, ela aguardou mais de 24 horas por um resgate indisponível no momento da emergência. O veneno causou um inchaço extremo em sua perna, demandando quatro cirurgias para evitar a amputação. Hoje, Adriana convive com as consequências, como a perda de sensibilidade e dificuldades de movimento no membro, resultantes de um tratamento que, apesar de salvá-la, chegou tardiamente.

Raimundo Viana da Cunha, ex-morador da comunidade Mandioca e colaborador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), também carrega uma tragédia familiar. Em 1994, seu irmão adoeceu com fortes dores abdominais. A ausência de apoio governamental e de organizações de base na época forçou a família a depender de regatões (comerciantes fluviais) para um possível transporte. Raimundo relata que seu irmão esperou por uma semana, em agonia, sem nenhum barco que pudesse levá-lo. Quando, finalmente, uma carona foi conseguida, o trajeto demorou outra semana devido às prioridades comerciais do regatão. Após duas semanas de sofrimento, o irmão de Raimundo foi atendido, mas não resistiu, vindo a óbito. A causa da morte nunca foi realmente esclarecida, apenas a lembrança da dor na barriga e o lamento pelo atendimento tardio.

Essa realidade, que resultou até mesmo em um êxodo de famílias para a cidade em busca de melhores condições de vida e atendimento de saúde, começou a mudar por volta de 1997, quando as organizações da sociedade civil se fortaleceram e passaram a reivindicar os direitos das populações do Médio Juruá. Foi então que a região passou a receber uma atenção especial.

Iniciativas e Novas Perspectivas para a Saúde

A percepção é unânime entre os ribeirinhos: a disponibilidade de atendimento médico próximo a suas comunidades alteraria drasticamente os desfechos de suas histórias. Francisco Solivan, recordando a morte da mãe há 38 anos, expressa a certeza de que ela estaria viva se existisse a infraestrutura atual, incluindo lanchas motorizadas para resgates de emergência. A ideia de migrar para a cidade em busca de saúde não é uma opção desejável, pois significaria abandonar o modo de vida tradicional e o trabalho agroextrativista que contribui para a preservação ambiental.

A RDS Uacari, com seus 633 km de extensão e 31 comunidades que abrigam mais de 409 famílias, prospera a partir do extrativismo sustentável. Manejo do pirarucu, coleta do látex da seringa, cadeia das oleaginosas (andiroba, açaí, ucuba) e agricultura familiar são pilares de sua subsistência. A premissa fundamental, portanto, é levar a saúde até eles, garantindo sua permanência e o cumprimento de sua importante missão ambiental e cultural. O desafio, contudo, é imenso. O orçamento reduzido de municípios como Carauari, que tem cerca de 28 mil habitantes e uma estimativa orçamentária de R$ 142 milhões para 2026, inviabiliza a instalação de postos de saúde em todas as comunidades.

Conforme o secretário de saúde de Carauari, Manoel Brito, a solução encontrada até então tem sido o serviço de lanchas de resgate, que custa entre R$ 40 mil e R$ 45 mil mensais aos cofres municipais. Há também Unidades Básicas de Saúde (UBS) fluviais, que atendem as comunidades de forma eventual devido ao alto custo. “A prefeitura sozinha, com recursos próprios, não consegue [instalar unidades básicas de saúde pelas comunidades]. A arrecadação do município não comporta isso. Temos planejamento e temos conhecimento sobre esses territórios, sabemos dessas necessidades. Por isso as parcerias com o terceiro setor têm sido importantíssimas”, disse o secretário em declaração anterior à Agência Brasil.

O Ministério da Saúde, reconhecendo a importância das organizações civis e alinhado com as diretrizes do SUS, tem buscado expandir investimentos para o atendimento de populações ribeirinhas e outras comunidades em áreas de difícil acesso. Para este ano, R$ 500 milhões estão sendo aplicados para a implantação de Equipes de Saúde da Família Ribeirinha. Essas equipes contam com médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e profissionais de saúde bucal, expandindo o serviço de 784 para 2.690 municípios em áreas da Amazônia Legal e do Pantanal Sul-Mato-Grossense, conforme nota oficial do ministério, acessível no site do Ministério da Saúde. Atualmente, existem 332 equipes e 71 UBS fluviais, superando obstáculos históricos como barreiras geográficas e dificuldades na fixação de profissionais.

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Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

Parceria Transformadora: o “SUS na Floresta”

Uma iniciativa conjunta entre a prefeitura de Carauari e organizações da sociedade civil marcou um avanço crucial na última semana. A instalação de dois novos pontos de saúde, estrategicamente localizados para aproximar o atendimento das comunidades ribeirinhas, é o fruto do modelo “SUS na Floresta”. Este projeto é resultado de um edital do programa “Juntos pela Saúde”, executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umane, sob a gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e com apoio técnico da prefeitura local e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas.

As duas unidades, estabelecidas nas bases de Bauana e Campina da Fundação Amazônia Sustentável, prometem atender a 56 comunidades, beneficiando cerca de 4,7 mil pessoas com atenção primária. Cada ponto de saúde está equipado com consultórios para atendimento presencial e remoto, sala de triagem, consultório odontológico, conexão à internet, tecnologias de telessaúde e áreas de permanência para as equipes, integrando-se plenamente ao Sistema Único de Saúde (SUS). Para Solivan, a concretização desse “sonho” é a garantia de uma vida melhor para os ribeirinhos, uma possibilidade que, se existisse antes, teria salvado sua mãe.

Na semana inicial de operação, a demanda foi alta, evidenciando a necessidade latente de acesso à saúde. Casos como o de uma criança ferida por um anzol e um grave quadro de desnutrição infantil foram atendidos, com destaque para o empenho da equipe de enfermagem de Campina. O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, atuante na unidade, ressaltou que esses atendimentos só seriam possíveis na cidade ou nas raras visitas das UBS fluviais, que ocorrem apenas duas vezes ao ano. Ele observa que essa população busca assistência médica com pouca frequência, “só vai mesmo quando chama resgate ou então quando a UBS Fluvial passa por aqui.”

Antigo caso, também relatado pelo enfermeiro Carlos, detalha a tragédia de um paciente que perdeu dois filhos por picada de cobra após esperar 12 horas por socorro, em uma época sem resgate e sem o ponto de atendimento. Agora, a expectativa é que o novo sistema de atenção primária reduza em até 80% as chamadas para resgates por lancha. “Vamos salvar muito mais vidas e vamos evitar também os resgates. Se eles vierem aqui, faz-se o atendimento e só vai para cidade se for um caso de emergência mesmo. Mas já vai sair daqui estabilizado”, complementou o enfermeiro.

Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS, destaca que o projeto vai além de oferecer novas estratégias de atendimento: ele visa assegurar que os ribeirinhos permaneçam em seus territórios com a garantia de seus direitos à saúde. Ela enfatiza o perigo do êxodo rural, que desequilibra ecossistemas e sobrecarrega centros urbanos já frágeis. “Dentro das diversas Amazônias, a gente não pode esquecer que nós temos cidadãos brasileiros que precisam que as políticas cheguem. E se o governo, por um acaso, não está conseguindo interiorizar isso, é nossa obrigação apoiar”, concluiu Mickela.

O Caminho Adiante para a Saúde do Amazonas

Os moradores de Carauari, como Maria das Neves, vice-presidente da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), e Raimundo Viana, veem a iniciativa dos pontos de saúde como um alento e um avanço extraordinário. Para eles, que antes sofriam com a complexa logística e a insuficiência da UBS fluvial, o atendimento no Médio Juruá terá “outro sentido na área da saúde”. A diminuição das distâncias para o atendimento — de 12 para 4 horas em alguns casos — é uma vantagem “muito importante”, destaca Raimundo, mesmo com os desafios logísticos da Amazônia.

Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS, aponta os desafios de custo de manutenção, captação de recursos e a inconstância da gestão pública como obstáculos para a sustentabilidade desses projetos. Contudo, ela ressalta que o “SUS na Floresta” demonstra a possibilidade de otimizar recursos e atendimentos, gerando até economia para as prefeituras. Apesar dos progressos, os comunitários reforçam a necessidade de ir além: Solivan argumenta pela implantação de mais postos de saúde em toda a RDS e na Reserva Extrativista do Médio Juruá, enfatizando que “a dor das pessoas é a mesma”. A esperança é que, com iniciativas contínuas e parcerias, a garantia de uma saúde mais próxima se torne uma realidade plena para os ribeirinhos do Amazonas.

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O esforço conjunto para levar serviços essenciais à população do Amazonas é um exemplo de como parcerias estratégicas podem mitigar desigualdades históricas. Ao fortalecer o atendimento local, a qualidade de vida dos ribeirinhos é drasticamente melhorada, garantindo não só saúde, mas a continuidade de suas tradições e o valioso trabalho de conservação ambiental. Mantenha-se atualizado sobre as principais notícias da região, explorando a categoria Cidades em nosso portal.

Crédito da imagem: Lucas Bonny/FAS

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