Jongo no Vale do Café Celebra 70 Anos de Mestra Fatinha

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Jongo no Vale do Café Celebra 70 Anos de Mestra Fatinha. A histórica região do Vale do Café, no sul fluminense, está em efervescência cultural para homenagear os 70 anos de vida e o legado inestimável de Maria de Fátima da Silveira Santos, universalmente reconhecida como Mestra Fatinha. A efeméride se entrelaça à celebração do Dia Estadual do Jongo e culmina na realização do 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café, um marco significativo para a preservação e valorização da cultura ancestral brasileira.

O palco deste grandioso evento é o icônico Parque das Ruínas de Pinheiral. Neste sábado, dia 25 de julho de 2026, a programação do encontro congrega uma impressionante delegação de 450 lideranças. Eles representam 18 quilombos e diversas comunidades tradicionais de jongo, abrangendo os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Para Mestra Fatinha, matriarca de profunda sabedoria, essa reunião simboliza uma poderosa reafirmação das tradições culturais ancestrais, ocorrendo em um local carregado de significado histórico e espiritual.

Jongo no Vale do Café Celebra 70 Anos de Mestra Fatinha

A simbologia do Parque das Ruínas de Pinheiral reside, em parte, no fato de suas duas áreas – cedidas pela prefeitura municipal – terem sido parte da Fazenda São José dos Pinheiros, uma das maiores plantações de café da época do Brasil Colônia. Ali, mais de três mil africanos escravizados foram forçados a trabalhar e viver. A manutenção das tradições ali tem um peso enorme, sendo as raízes da comunidade diretamente ligadas à resiliência de seus ancestrais. A organização Centro de Referência de Estudo Afro do Sul Fluminense (Creasf), idealizada e fundada pelas próprias lideranças jongueiras de Pinheiral, desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de atividades que garantam a perpetuação dessas ricas origens. “A gente herdou essa tradição deles, e a gente mantém. São vários núcleos de jongueiros de várias famílias”, explicou Mestra Fatinha sobre a importância dessa herança viva.

Mestra Fatinha: Cinquenta Anos de Luta pela Resistência Negra

Dos sete decênios de sua existência, Mestra Fatinha dedicou metade de sua vida — 50 anos — à vanguarda da luta e da resistência em prol da conservação da cultura negra na vasta região do Vale do Café, localizada no sul do estado do Rio de Janeiro. Sua jornada é um testemunho de comprometimento e paixão, elementos que moldaram a paisagem cultural da área e fortaleceram a identidade de diversas comunidades.

Para Mestra Fatinha, o jongo é muito mais que uma dança ou uma manifestação cultural; ele se constitui na “verdadeira bandeira de luta do povo preto”. Ela compartilha que, nos tempos sombrios da escravidão, os negros usavam o jongo como um intrincado código de comunicação. Era um meio secreto para organizar revoltas, expressar o amor, vocalizar a profunda saudade de suas terras africanas e cultuar seus orixás, tornando-se uma ferramenta vital de resistência e coesão comunitária.

Sua militância teve início nos fins dos anos 80 e no começo dos anos 90, um período efervescente em que o movimento negro entre Rio e São Paulo ganhava força expressiva. Mestra Fatinha ingressou na causa pelo Clube Palmares, em Volta Redonda, cidade vizinha a Pinheiral. Naquela época, o Clube Palmares era a única agremiação social de pessoas negras em todo o estado do Rio, representando um bastião de encontro e organização. Ela conta que a consciência racial sempre foi presente em sua família. “Meus pais e avós sempre foram muito conscientes do que é ser negro nesse país”, afirmou, destacando o ambiente familiar que a nutriu para o ativismo. Em sua casa, a cultura sempre foi central: seu bisavô liderava um corte de Moçambique, tradição ancestral similar à congada; seu pai atuava como jongueiro, sambista e músico; e suas tias e avó cantavam. Aos 93 anos, sua mãe continua a cantar até hoje, evidenciando uma profunda e contínua conexão com suas raízes culturais.

O Reconhecimento Acadêmico e o Resgate da História

A perseverança e o trabalho árduo de Mestra Fatinha na defesa da cultura negra e do jongo foram formalmente reconhecidos no âmbito acadêmico. No ano anterior, a Universidade Federal Fluminense (UFF) concedeu-lhe o prestigiado título de Notório Saber, validando sua vasta experiência e conhecimento tradicional. A conexão de Mestra Fatinha com a UFF ultrapassa uma década, período em que tem conduzido uma série de “Encontros de Saberes”, intercâmbios cruciais que fortalecem o diálogo entre o conhecimento ancestral e o universitário.

Mestra Fatinha enfatiza veementemente a importância de que os próprios descendentes de africanos escravizados sejam os narradores de suas histórias. Este processo de auto representação e resgate da memória é fundamental, especialmente para as crianças e os adolescentes das comunidades. “Isso é muito importante, principalmente, para as crianças e adolescentes, por sermos essa referência e eles valorizarem a luta dos que vieram antes de nós”, observou a matriarca. Ela também aponta o esforço da comunidade em contrapor as narrativas dominantes no Vale do Café, que frequentemente enaltecem os “barões” e seus feitos, negligenciando a verdadeira fundação da riqueza da região. “Aqui no Vale do Café se trabalha muito a memória dos barões, e a gente vem fazendo a contramão contando a história do povo preto, porque o nosso povo é que construiu todo esse império”, completou, destacando a agência e o protagonismo histórico do povo negro.

Certificação Quilombola e Jongo: Patrimônio do Brasil

Como resultado direto do incansável trabalho cultural realizado pelo Jongo do Pinheiral, a Fundação Palmares certificou a região como comunidade quilombola no ano passado. Esta certificação representa uma vitória significativa e abre caminho para as próximas etapas, incluindo o processo junto ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para a efetiva delimitação da área, assegurando os direitos territoriais da comunidade. Mestra Fatinha ressaltou a importância dessa iniciativa: “É uma área histórica que vai dar mais visibilidade à nossa cultura e para a gente poder desenvolver com mais autenticidade tudo que a gente já faz.”

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Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

Em 2005, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o Jongo como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, solidificando sua relevância. A Mestra Fatinha esclarece que o jongo, conhecido também como congo ou caxambu, é uma manifestação cultural intrínseca à Região Sudeste do país. Essa valiosa tradição continua sendo preservada com rigor por descendentes de povos escravizados de origem Bantu, oriundos predominantemente do Congo, Angola e Moçambique. Esses povos foram trazidos brutalmente para o Brasil para trabalhar nas lavouras de café e cana-de-açúcar, concentradas nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. Após a abolição da escravidão, o jongo expandiu-se, transcendendo as fazendas para chegar aos morros cariocas pelas mãos de famílias que, com o tempo, seriam fundamentais na fundação das primeiras escolas de samba, demonstrando sua influência duradoura na cultura brasileira.

Programação Estendida: Jongo e Tradição Centenária

O 5º Encontro de Jongos do Vale do Café é fruto de uma realização colaborativa entre diversas instituições e grupos. Integram a iniciativa o Jongo de Pinheiral, a Rede de Jongo do Vale do Café, o Instituto Floresta, a Rede de Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro e o Centro de Referência Afro do Sul Fluminense (CREASF). Além disso, o evento conta com importantes parcerias estratégicas, incluindo a Prefeitura de Pinheiral, os Ministérios da Igualdade Racial e da Justiça, o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) e o Museu Vassouras.

As celebrações não se limitam ao sábado. A programação estende-se para o domingo, 26 de julho de 2026, uma data duplamente significativa. Nesse dia, celebra-se o Dia de Sant’Ana e, coincidentemente, o Dia Estadual do Jongo, um elo que ressalta o sincretismo religioso e cultural do Brasil. As atividades incluem uma procissão dedicada a Sant’Ana, que na tradição católica é mãe de Maria e avó de Jesus Cristo. Na umbanda e no candomblé, Sant’Ana é sincretizada com Nanã, uma das mais respeitadas divindades africanas.

A saída da procissão está agendada para as 18h, partindo da Casa do Jongo de Pinheiral. Esta procissão é uma tradição profundamente enraizada na comunidade, ostentando mais de um século de existência e fé. Após o cortejo, serão entoadas ladainhas em honra à santa, completando os festejos com uma expressão devocional que reforça os laços culturais e espirituais da população local.

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Os festejos pelos 70 anos de Mestra Fatinha e a quinta edição do Encontro dos Jongos do Vale do Café são muito mais do que simples comemorações. Eles representam a vitalidade inabalável da cultura negra e a persistência da memória ancestral na região de Pinheiral, no coração do Vale do Café. O evento reitera o poder do jongo como uma força cultural motriz, reafirmando identidades, impulsionando a resistência e solidificando seu papel como patrimônio imaterial brasileiro. Para aprofundar-se em outras análises sobre eventos culturais, históricos e o dia a dia das comunidades locais, convidamos você a continuar explorando nossa editoria de Cidades, descobrindo as histórias e fatos que moldam a nossa sociedade. Acompanhe nossas publicações para mais informações e perspectivas relevantes.

Créditos de imagem: Marcelo Costa Braga/Midia Ninja e Karen Eppinghaus/Divulgação.

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