Um estudo recente divulgou que a geometria instintiva é uma característica partilhada entre humanos e primatas não humanos, apontando raízes comuns na capacidade de distinguir formas regulares, como ângulos retos e linhas paralelas, de estruturas irregulares. Publicada esta semana no renomado jornal científico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), a pesquisa redefiniu a compreensão sobre as habilidades cognitivas de macacos e babuínos, tradicionalmente considerados incapazes de compreender conceitos geométricos complexos.
Considerados seres de inteligência notável, capazes de manipular ferramentas, reconhecer rostos e até interagir por meio da linguagem de sinais, os primatas não humanos sempre foram objeto de fascínio científico. Contudo, noções como a geometria eram historicamente vistas como algo fora de seu escopo cognitivo. A intuição geométrica, em particular, era até então pensada como uma exclusividade da mente humana, uma barreira que este novo estudo parece ter transposto.
Esta investigação representa um avanço significativo, desafiando concepções arraigadas. Os cientistas buscavam desvendar se essa percepção inata das formas e do espaço é, de fato, um fundamento universal na arquitetura cerebral dos primatas. O que se descobriu pode ter implicações profundas para a educação e para o entendimento de como as habilidades cognitivas evoluíram.
Geometria Instintiva: Estudo Revela Padrão em Macacos e Humanos
O Experimento com Primatas
Para investigar essa hipótese, uma equipe de pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon, localizada na Pensilvânia, nos Estados Unidos, idealizou um experimento engenhoso. Foram selecionados dois grupos de macacos: quatro macacos-rhesus (Macaca mulatta) e quatro babuínos-oliva (Papio anubis). A eles foi oferecido um incentivo alimentar – petiscos de frutas – para que participassem de um jogo interativo.
O jogo consistia em combinar formas geométricas bidimensionais apresentadas em uma tela sensível ao toque. Os primatas foram desafiados a identificar a correspondência correta das formas, baseando-se unicamente em sua semelhança geométrica intrínseca. Conforme destacou Jessica Cantlon, neurocientista da Universidade Carnegie Mellon e uma das autoras do estudo, as combinações não eram triviais. “Pareciam fáceis de combinar, mas não eram. Os objetos não tinham características distintivas, nem diferenças significativas de cor, tamanho ou forma”, explicou Cantlon, ressaltando a complexidade da tarefa proposta aos animais. Este método de teste garantiu que a intuição geométrica pura fosse avaliada, desconsiderando outros atributos que pudessem simplificar a identificação das formas.
Continuidade em Humanos
Em uma etapa subsequente, os cientistas replicaram o mesmo experimento, porém com participantes humanos. Foram envolvidas 58 crianças em idade pré-escolar e 79 adultos, vindos de diferentes contextos. Parte dos adultos era dos Estados Unidos, enquanto a outra parcela pertencia às comunidades indígenas Tsimane da Bolívia. A inclusão de grupos com backgrounds culturais e sistemas educacionais distintos tinha o objetivo de validar a universalidade da intuição geométrica, observando se haveria variações significativas entre culturas.
A análise detalhada dos resultados revelou uma notável consistência em todos os grupos estudados. Tanto as duas espécies de macacos quanto as crianças e adultos humanos demonstraram uma clara continuidade e semelhança na maneira como compreendiam a geometria mais básica. Essa uniformidade nos padrões de reconhecimento e associação geométrica forneceu a base para a principal conclusão do estudo.
Implicações da Descoberta
As implicações dessa descoberta são significativas. Jessica Cantlon enfatizou a natureza fundamental dessas habilidades. “Macacos, crianças e adultos pareciam pensar sobre relações geométricas essencialmente da mesma maneira. Isso sugere que essas intuições sobre geometria fazem parte da arquitetura básica da mente dos primatas”, afirmou a pesquisadora. Este achado sugere que a capacidade de perceber e interpretar conceitos geométricos não é apenas uma característica aprendida, mas sim um componente intrínseco, profundamente enraizado na evolução primata.

Imagem: g1.globo.com
Cantlon acrescentou que os resultados têm relevância direta para a pedagogia. “Ao mesmo tempo, indica que as crianças partem de intuições profundas e evolutivamente antigas sobre forma e espaço. Isso implica que a educação pode ser baseada nessas intuições, em vez de tratar a geometria como algo que precisa ser ensinado do zero”, observou a neurocientista. Essa perspectiva pode transformar os métodos de ensino de matemática e geometria, permitindo que educadores construam sobre uma base de conhecimento inato, tornando o aprendizado mais orgânico e eficaz.
O Papel do Portal dos Primatas
Este estudo é a mais recente adição a uma série de descobertas oriundas do laboratório de Cantlon, realizado em colaboração com o projeto denominado Portal dos Primatas. Localizado dentro do Zoológico Seneca Park, em Nova York, o Portal dos Primatas constitui uma parceria de pesquisa entre cientistas da Universidade Carnegie Mellon e do Instituto de Tecnologia de Rochester. Seu propósito principal é aprofundar o conhecimento sobre as origens e a natureza do pensamento nos primatas.
Uma das inovações desse projeto é a existência de uma tela sensível ao toque que permite aos babuínos-oliva em cativeiro interagir enquanto realizam suas rotinas diárias normais. Este ambiente controlado e interativo é crucial para a coleta de dados precisos sobre suas habilidades cognitivas. Mais do que apenas um laboratório de pesquisa, o Portal dos Primatas adota uma abordagem de ciência aberta, oferecendo acesso público a dados brutos, códigos e vídeos dos primatas enquanto resolvem diversos problemas cognitivos. O objetivo é permitir que estudantes e pesquisadores de qualquer parte do mundo possam analisar a mente animal, fomentando uma colaboração global na pesquisa sobre a inteligência primata e a evolução da intuição geométrica. Para mais informações sobre a publicação original do estudo, acesse o site oficial da revista Proceedings of the National Academy of Sciences: PNAS – Proceedings of the National Academy of Sciences.
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A descoberta de que a geometria intuitiva é um traço compartilhado entre primatas oferece insights valiosos sobre a evolução da cognição. Para aprofundar-se em como a ciência está desvendando os mistérios do pensamento animal e suas implicações para o futuro da educação, continue explorando nossas análises e reportagens sobre descobertas científicas em horadecomecar.com.br/blog/analises.
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