O JPMorgan rebaixa Braskem (BRKM5) de forma significativa, alterando sua recomendação de “overweight” (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra) para “neutra”. Simultaneamente, a renomada instituição financeira reduziu pela metade o preço-alvo das ações da petroquímica para dezembro de 2026, passando de R$ 15 para R$ 7,50 por ação. Tal decisão repercutiu instantaneamente no mercado, levando os papéis da empresa a registrar uma queda de 6,66%, cotados a R$ 6,17, às 10h19 (horário de Brasília) do dia da divulgação. A movimentação surpreende, especialmente porque, em meados de maio, os analistas do próprio JPMorgan haviam elevado a recomendação para a Braskem, o que, à época, impulsionou uma alta de 29% nas ações em apenas uma sessão de negociação, evidenciando a volatilidade e as rápidas mudanças nas perspectivas de mercado.
A súbita mudança na visão estratégica que culminou no rebaixamento das ações da Braskem decorre da conclusão do JPMorgan de que a relação entre risco e retorno do ativo se deteriorou consideravelmente. Dois fatores principais contribuem para essa reavaliação: um cenário menos favorável para o setor petroquímico como um todo e um notável aumento nos riscos inerentes à reestruturação da dívida da companhia. Estes elementos combinados criam um ambiente de maior incerteza para os investidores e justificam a postura mais cautelosa adotada pelo banco de investimento em relação à empresa.
JPMorgan rebaixa Braskem: BRKM5 despenca e preço-alvo cai
De acordo com os analistas Milene Clifford Carvalho, Henrique Cunha e Rodolfo Angele, a tese de investimento construtiva, adotada há poucas semanas pelo banco, estava alicerçada em dois pilares fundamentais. O primeiro era a expectativa de uma melhoria na governança corporativa da empresa, impulsionada por uma potencial mudança no controle acionário. O segundo pilar consistia na perspectiva de uma recuperação robusta dos spreads petroquímicos, estimulada por tensões geopolíticas no Oriente Médio. Contudo, as análises recentes indicam que ambos os fatores perderam sua força motriz desde então, exigindo uma recalibração das projeções.
A fragilização do cenário otimista se deve, em grande parte, às revisões das expectativas para o setor petroquímico. Embora os spreads petroquímicos ainda se mantenham acima dos níveis observados antes da escalada do conflito entre Israel e Irã, o abrandamento das tensões, impulsionado pelo cessar-fogo e pelo avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã, levou a uma revisão para baixo das projeções do setor. Consequentemente, o JPMorgan procedeu à redução de suas estimativas operacionais para a Braskem. A projeção de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) da Braskem para 2026, por exemplo, foi ajustada para US$ 2,2 bilhões, o que representa um valor 20,1% inferior à previsão inicialmente estabelecida, indicando uma perspectiva de desempenho financeiro menos robusta.
Na avaliação aprofundada dos analistas, a elevada alavancagem financeira da Braskem torna a companhia particularmente sensível a quaisquer modificações nas projeções operacionais. Mesmo revisões que poderiam ser consideradas moderadas em cenários mais estáveis, possuem um impacto substancial e amplificado sobre o valor do patrimônio líquido dos acionistas, dada a delicada estrutura de capital da empresa. Esse fator contribui significativamente para o aumento da percepção de risco e a subsequente revisão da recomendação de investimento. Além da revisão dos fundamentos, a instituição ressaltou que a publicação dos materiais relacionados à reestruturação financeira da Braskem trouxe maior transparência ao processo de negociação com os credores. Tal divulgação, entretanto, também evidenciou que o principal direcionador para o preço das ações passou a ser o desfecho desse processo de reestruturação.
O JPMorgan continua a considerar uma reestruturação extrajudicial da dívida como o cenário mais provável para a Braskem. Contudo, o relatório destacou que a proposta inicial apresentada pela administração foi rejeitada de forma rápida pelos credores, sinalizando uma negociação complexa. Os documentos que foram divulgados deixam claro que os credores buscam uma participação mais substancial dos acionistas nos esforços de reequilíbrio financeiro da companhia. Essa exigência eleva a pressão sobre os atuais acionistas e adiciona uma camada de incerteza sobre o futuro da estrutura de capital da Braskem. Ainda na visão do banco, paira uma considerável incerteza quanto ao formato exato dessa participação que os credores exigem. As alternativas levantadas pelo mercado e pela própria análise do JPMorgan incluem, mas não se limitam a, apoio operacional, aportes diretos de capital, o uso de instrumentos vinculados ao capital da empresa ou, inclusive, a implementação de soluções que possam se mostrar dilutivas para os acionistas que atualmente detêm participação na petroquímica. A materialização de cenários de diluição, caso se confirmem, poderiam impactar significativamente o valor por ação e a composição do quadro societário. Caso as negociações com os credores não alcancem um desfecho satisfatório e consensual, o risco de uma recuperação judicial emerge como o principal fator de baixa para a tese de investimento na Braskem, apresentando um cenário de maior complexidade e potenciais perdas para todos os envolvidos.
Apesar das significativas preocupações em torno da reestruturação financeira e do cenário de mercado, os analistas do JPMorgan reconhecem avanços relevantes na governança corporativa da Braskem. Em junho, um marco importante foi alcançado com a conclusão da transferência do controle acionário da petroquímica da Novonor para a IG4 Capital. Através do fundo Shine I, a IG4 Capital agora detém 50,1% das ações com direito a voto da empresa, enquanto a Petrobras (PETR4) manteve sua participação de 47%. Inicialmente, a tese otimista se fundamentava na expectativa de melhora da governança corporativa, um tema de grande relevância no mercado, como detalham as orientações e estudos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre a administração de companhias abertas.

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Um novo acordo de acionistas foi estabelecido, prevendo uma estrutura de governança compartilhada entre a IG4 e a Petrobras. Sob esse arranjo, Magda Chambriard, presidente da estatal Petrobras, assumiu a presidência do conselho de administração da Braskem, ao passo que Helcio Tokeshi, nomeado pela IG4, foi indicado para o cargo de CEO da companhia. A missão primordial dessa nova administração será complexa e focará em dois pilares essenciais: reorganizar integralmente a estrutura financeira da Braskem, visando a solvência e sustentabilidade, e melhorar substancialmente a eficiência operacional da empresa para garantir maior competitividade e lucratividade no longo prazo. Mesmo com o reconhecimento de tais avanços na governança, o JPMorgan entende que eles, por si só, não são suficientes para compensar o aumento das incertezas substanciais ligadas ao processo de reestruturação da dívida da empresa. O banco enfatiza que, por ora, sua nova avaliação e precificação das ações não incorporam qualquer cenário explícito de diluição acionária. Entretanto, é ressaltado que, caso uma solução dessa natureza seja, de fato, adotada nas negociações em curso com os credores, haverá um risco adicional e significativo de queda para o valor justo estimado das ações da Braskem, impactando negativamente os atuais investidores.
Diante desse complexo quadro de incertezas operacionais, financeiras e estruturais, os analistas do JPMorgan optam por uma postura de prudência. Eles afirmam preferir permanecer à margem, sem se posicionar com uma recomendação mais agressiva, até que haja maior clareza sobre os termos finais da reestruturação financeira da Braskem. A conclusão é que o potencial de valorização das ações da empresa, dado o atual cenário e as projeções revisadas, ficou consideravelmente mais limitado do que o previsto anteriormente, o que justifica a revisão para “neutra” e a drástica redução do preço-alvo. O mercado continua atento aos próximos desdobramentos dessa crucial fase da Braskem.
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