A recomposição das aprendizagens no Brasil demonstra uma significativa evolução, transitando de estratégias emergenciais – inicialmente impulsionadas pela urgência de mitigar os profundos efeitos da pandemia de Covid-19 no setor educacional – para um panorama de políticas cada vez mais estruturadas e institucionalizadas. Um levantamento inédito, o “Diagnóstico das Ações Pela Recomposição Das Aprendizagens”, evidenciou que uma expressiva maioria, precisamente 82,8% das iniciativas implementadas pelos entes federativos em todo o país, já possui um respaldo formal em normativas.
Este estudo abrangente e crucial para o futuro da educação básica brasileira foi resultado de uma colaboração estratégica entre o Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Unibanco, sendo oficialmente divulgado ao público na quinta-feira, dia 25 de junho de 2026. A pesquisa se dedicou a mapear um total de 151 ações e programas distribuídos em 24 estados, fundamentando-se nos princípios e objetivos do Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens. O detalhe dessas ações fornece um panorama claro de como estados e municípios estão enfrentando a tarefa de garantir o direito à educação de qualidade para todos os estudantes, buscando a superação de lacunas deixadas ou acentuadas por eventos recentes.
Recomposição de Aprendizagens Ganha Força com Políticas Formalizadas
O relatório de alcance nacional detalha metodologias e abordagens que as redes educacionais, tanto estaduais quanto municipais, estão utilizando para solidificar suas políticas na educação básica. O foco central é enfrentar as defasagens educacionais, um dos maiores desafios contemporâneos, assegurando que o direito à aprendizagem dos estudantes seja garantido e que a equidade no acesso a uma formação de qualidade seja uma realidade. Aspectos como o desenvolvimento e a revisão de currículos, a eficácia da mediação pedagógica, o estímulo ao desenvolvimento profissional dos educadores e a otimização da gestão educacional foram minuciosamente avaliados. Os dados que alimentaram este robusto diagnóstico foram compilados através de questionários detalhados, respondidos por técnicos e gestores atuantes nas secretarias de educação em diversos níveis administrativos.
Uma análise profunda das 52 iniciativas focadas no eixo curricular revelou que a totalidade delas incorpora algum tipo de instrumento ou metodologia para apoiar sua reorganização. Em uma esmagadora proporção de 88% dos casos analisados, observa-se a adoção tanto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), um referencial crucial para a educação do país, quanto de currículos específicos desenvolvidos e adaptados por cada rede de ensino. Essa flexibilidade, aliada à adesão a uma base comum, mostra um esforço para equilibrar diretrizes nacionais com necessidades locais.
A secretária de Educação Básica do MEC, Kátia Schweickardt, enfatizou a importância dos achados do diagnóstico. Para ela, os resultados permitem uma compreensão mais aprofundada da maneira como as redes de ensino estão configurando suas políticas e quais são os obstáculos primários a serem superados. “Transformar essas evidências em ação prática é fundamental. Conseguimos, assim, aprimorar a assistência técnica oferecida, refinar diretrizes existentes e fortalecer uma política que seja mais consonante com as particularidades e realidades locais, um passo crucial para ampliar o impacto positivo sobre a aprendizagem dos nossos estudantes”, explicou Schweickardt, ressaltando o valor da contextualização das ações educacionais.
No que tange à percepção do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, superintendente executivo da instituição, avaliou o vasto conjunto de iniciativas estruturadas como um indicador claro e contundente do compromisso existente com a garantia do direito à aprendizagem. “Estados e municípios já edificaram um acúmulo valioso de conhecimentos e experiências. Converter este patrimônio em uma inteligência coletiva representa um caminho promissor para acelerar o processo de superação das lacunas de aprendizagem e, por conseguinte, diminuir as profundas desigualdades educacionais que ainda persistem no Brasil”, pontuou Henriques, reforçando a ideia de que a partilha de saberes é vital.
Desafios na Centralização das Decisões Educacionais
Apesar do panorama geral de avanço na formalização de políticas de recomposição das aprendizagens, o levantamento do MEC e Instituto Unibanco também revelou áreas que exigem atenção e aprimoramento. Dentre elas, destacam-se falhas significativas na escuta ativa e no envolvimento de profissionais que estão na linha de frente do ensino. Apenas 44% das redes de ensino indicaram que mantêm canais efetivos de diálogo com professores e gestores escolares para um redesenho colaborativo de suas estratégias, visando entender suas demandas e desafios em tempo real.
No processo de elaboração dos documentos curriculares, uma tendência de centralização foi notada. Em 67% das iniciativas analisadas, a equipe técnica central foi a responsável pela formulação, apresentando os resultados aos professores majoritariamente para simples validação. A participação ativa dos docentes no desenvolvimento curricular foi registrada em meros 25% dos casos. Adicionalmente, os debates e consultas com as regionais de ensino ou órgãos equivalentes aconteceram em apenas 27% das iniciativas, com um índice ainda menor – 8% – de ausência total de qualquer processo formal de consulta.
O relatório enfatiza que “esses atores (professores e gestores escolares) são indicados pelos próprios secretários de educação como pontos focais responsáveis pela liderança ou articulação das ações de recomposição das aprendizagens.” Essa constatação acende um alerta sobre a participação ainda restrita dos profissionais da escola na reorientação das políticas educacionais, sugerindo uma oportunidade para descentralizar e enriquecer os processos decisórios.
A especialista em Pesquisa Social e Educacional do Instituto Unibanco e coordenadora do levantamento, Fabiana Bento, ofereceu uma perspectiva sobre os achados, esclarecendo que o resultado da centralização na elaboração não deve ser interpretado como um problema inerente. Conforme Bento, “é esperado que a formulação das propostas curriculares seja conduzida pelas equipes técnicas das secretarias, que possuem expertise em gestão e política educacional”. Contudo, ela ressalta a importância de fortalecer os mecanismos de retroalimentação entre a concepção e a implementação da política. “É preciso permitir que a vivência da sala de aula alimente a evolução contínua da política”, afirmou a coordenadora. Para Bento, a consolidação das políticas de recomposição das aprendizagens abre uma janela de oportunidade para “ampliar os espaços de diálogo com os profissionais que atuam nas escolas, pois são eles que vivenciam, cotidianamente, os desafios da aprendizagem e podem oferecer contribuições importantes para o aperfeiçoamento das propostas curriculares e na formulação de estratégias para enfrentar a defasagem escolar”.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Desenvolvimento Docente e Material Didático
No âmbito do desenvolvimento docente, o relatório aponta que os programas de formação são majoritariamente voltados para coordenadores pedagógicos (73%) e gestores escolares (63%). Alarmantemente, os professores, diretamente responsáveis pela sala de aula, são alcançados em apenas 52% dos casos. Esta menor presença de formações dirigidas especificamente aos docentes pode, segundo o estudo, “acender um alerta sobre o quanto as ações têm conseguido, de fato, apoiar a prática docente”, sugerindo que o foco na formação dos formadores pode não ser suficiente para impactar diretamente a recomposição das aprendizagens dos estudantes.
Quanto ao modelo de suporte material de ensino, o estudo revela uma prevalência de recursos tradicionais e analógicos. Livros didáticos, sequências impressas de atividades e outras formas de materiais estruturados correspondem ao uso central em 52% das iniciativas. Apostilas são destacadas em 32%, e recursos audiovisuais em 30%. O contraste é evidente na interação com ferramentas digitais, que aparecem em apenas 20% dos materiais, demonstrando um atraso na incorporação de tecnologias modernas para auxiliar a recomposição das aprendizagens.
Fabiana Bento contextualiza a questão da tecnologia, explicando que a pesquisa não permite inferir que a ausência de tecnologias adaptativas seja o principal entrave para a recomposição das aprendizagens. Segundo ela, o verdadeiro desafio reside em ampliar a capacidade de adaptar as estratégias de ensino às variadas necessidades e ritmos de aprendizado dos alunos. “As tecnologias podem ser uma aliada importante nesse processo, mas são apenas parte de um conjunto mais vasto de apoios, que abrange materiais pedagógicos, capacitação dos profissionais, utilização de evidências geradas por avaliações e estratégias de acompanhamento contínuo da aprendizagem”, detalha a especialista.
A transição de iniciativas de recuperação para a formulação de políticas educacionais estruturadas está alinhada com as diretrizes do Ministério da Educação, que lançou o Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens. Mais detalhes sobre esta iniciativa podem ser encontrados no portal oficial do Ministério da Educação.
A Saúde Mental dos Educadores e o Cuidado Psicossocial dos Estudantes
O estudo trouxe à tona uma questão crucial e, muitas vezes, negligenciada: a saúde mental dos educadores. O diagnóstico evidenciou um número alarmantemente baixo de ações direcionadas a esse aspecto, apontando para um espaço considerável a ser preenchido na institucionalização de iniciativas que promovam o bem-estar dos profissionais da educação. Entre todas as iniciativas analisadas, 54% não possuem absolutamente nenhuma ação voltada para a saúde mental dos educadores. Apenas 7% abordam a prevenção da síndrome de burnout, um estado de exaustão física e mental extrema desencadeado por estresse crônico no ambiente de trabalho. Além disso, somente 14% das redes de ensino oferecem programas de apoio psicológico direto aos docentes. Um ponto de atenção grave é a completa ausência de formações específicas para professores sobre temas como trauma e seus impactos na aprendizagem, indicando uma lacuna significativa na preparação dos profissionais para lidar com realidades complexas de seus alunos.
No que se refere às ações de cuidado psicossocial destinadas aos estudantes, a maioria (57%) encontra-se em um estágio intermediário de desenvolvimento. As práticas priorizam acolhimento contínuo e coletivo (75%), a realização de rodas de conversa (71%) e a criação de espaços de escuta (64%). Entretanto, projetos focados no desenvolvimento de competências socioemocionais (46%) e atendimento psicológico especializado (36%) são menos frequentes. Ao mapear o ambiente escolar, as redes identificaram desafios preponderantes que contribuem para o agravamento dos quadros de saúde mental: a violência verbal e virtual (bullying e cyberbullying) em 82% dos casos, conflitos e agressividade entre os estudantes em 73%, e a baixa participação das famílias na vida escolar dos alunos em 64%, evidenciando a necessidade de uma abordagem mais integrada e holística.
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Em suma, o levantamento inédito sobre a recomposição das aprendizagens destaca a formalização progressiva das políticas educacionais, impulsionada pela necessidade de superar os impactos da pandemia. Embora avanços notáveis tenham sido feitos na estruturação curricular e na avaliação das defasagens, o estudo também sublinha desafios cruciais, como a necessidade de maior participação docente, o avanço na integração digital dos materiais pedagógicos, e, principalmente, a urgente atenção à saúde mental dos educadores e o aprimoramento do cuidado psicossocial dos estudantes. Esses pontos são essenciais para fortalecer a educação básica no Brasil e assegurar o direito de aprendizagem a todos os estudantes. Para aprofundar a compreensão sobre os desafios e progressos na área, convidamos você a explorar outras análises educacionais em nosso blog, onde desvendamos os panoramas da educação brasileira.
Créditos: Arquivo/ Agência Brasil, Lucas Ismael


