Os desafios impostos pela Inteligência Artificial (IA) e a urgente necessidade de “desaprender” para coexistir com esta tecnologia disruptiva foram os temas centrais de uma recente análise do engenheiro e escritor Silvio Meira. Co-fundador do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), uma das instituições-chave por trás do Polo Digital pernambucano, Meira reassumiu seu posto no Conselho de Administração da entidade e compartilhou suas perspectivas sobre a IA, que ele compara a inovações históricas como a imprensa de Gutenberg.
A discussão ocorreu no contexto das celebrações de aniversário do CESAR, instituição que nasceu em 1996 a partir do ambiente cultural e tecnológico efervescente de Pernambuco nos anos 90, um período marcado pelo movimento Manguebeat e pelo impulso de professores do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (CIn-UFPE) em criar um polo de inovação. Essa iniciativa foi precursora do Porto Digital, hoje reconhecido como um dos mais importantes polos de tecnologia e inovação do Brasil, com cerca de 500 empresas de tecnologia no Recife Antigo.
Impacto da IA: Silvio Meira discute convivência com tecnologia
Para Silvio Meira, a Inteligência Artificial representa o maior desafio da humanidade desde a invenção dos tipos móveis, impactando diretamente a capacidade cognitiva e repetitiva dos seres humanos. Ele descreve três dimensões da inteligência humana: a informacional (capacidade de coletar, processar, armazenar e utilizar dados para decisões), a de socialização (articulação com outros para resolver problemas) e a autônoma (poder de decisão individual).
A principal característica da IA, segundo Meira, é a imitação da inteligência informacional humana. Em suas palavras, “tudo que eu e vocês fazemos que é cognitivo, exige uma formação, mas é repetitivo, a IA pode fazer e faz melhor do que o humano numa escala estratosfericamente mais elevada e mais barata.” Este cenário ilustra a magnitude do problema e da transformação em curso.
O engenheiro exemplifica o potencial da IA com a figura de um clínico geral. Se um médico se limita a solicitar e analisar exames repetidamente, e depois prescrever remédios baseando-se em manuais, ele executa uma função que pode ser automatizada. Da mesma forma, em áreas de programação, a Inteligência Artificial já é capaz de produzir 95% do código escrito por humanos, com a mesma qualidade ou superior. Assim, o papel humano se transforma: não mais na execução repetitiva, mas na definição do que deve ser feito, como, para quem, e, crucialmente, na validação da entrega da IA.
Meira ressalta que a confiança na IA não pode ser cega, pois sendo uma “máquina probabilística”, ela apresenta uma margem de erro. Ele explica que a IA pode ter várias possibilidades de soluções, e, mesmo que apenas algumas estejam incorretas, a máquina pode optar por um desses caminhos errados. O resultado é um código aparentemente funcional, mas que contém falhas subjacentes. A validação humana, portanto, torna-se uma tarefa mais complexa e vital.
Adaptação e Produtividade: O Exemplo do Porto Digital
No Porto Digital e em instituições como o CESAR, a discussão sobre o impacto da Inteligência Artificial não é recente, remontando a 2018. A urgência é tamanha que em empresas spin-off do CESAR, a proibição de trabalhar sem o suporte de um “agente inteligente” construído pelo próprio colaborador já é uma realidade. Essa medida drástica visa garantir que toda tarefa repetitiva seja codificada e executada por um agente inteligente, liberando o humano para atividades mais estratégicas e menos repetitivas, garantindo mais agilidade e economia de recursos.
Silvio Meira compara o cenário atual da IA à transição dos meios de transporte no início do século XX, quando o carro substituiu rapidamente a carroça. Aqueles que não se adaptarem a novas ferramentas perderão a capacidade de competir. Ele menciona um caso no Porto Digital onde um projeto que demandava dez pessoas e seis meses de trabalho, agora pode ser concluído por quatro pessoas em apenas um mês, resultando em um aumento de produtividade de 15 vezes. A não adaptação a essa nova realidade impulsionada pela IA pode levar empresas à inviabilidade.
Contrariando a preocupação de que a IA elimine postos de trabalho em massa, Meira argumenta que a Inteligência Artificial não é “inteligente” no sentido humano, mas sim uma imitação algorítmica da capacidade cognitiva repetitiva. Enquanto algumas áreas verão até 95% do trabalho humano impactado, em outras, esse percentual pode ser de 10%, chegando a 100% em três anos, mas não necessariamente substituindo humanos. Pelo contrário, a IA pode expandir a capacidade humana de solucionar problemas mais complexos, acelerar processos e permitir a articulação de equipes maiores para desafios que um único indivíduo não conseguiria enfrentar.

Imagem: CIn-UFPE via agenciabrasil.ebc.com.br
Regulação e Futuro das Plataformas Digitais
Em sua obra “A Próxima Democracia”, Silvio Meira advoga pela transparência radical e política nas plataformas digitais. Ele explica que, diferentemente da noção ocidental de liberdade extrema, em alguns países como a China, a regulação é vista como um “consenso” para o funcionamento da sociedade. Lá, o dissenso é permitido quando visa a resolução de problemas e a criação de consensos, sem agressividade destrutiva.
O país asiático, segundo Meira, integra uma camada de software estatal às plataformas digitais, estabelecendo, por exemplo, rigorosas regras para o uso de videogames por crianças e adolescentes, com limites de idade e tempo de jogo vinculados ao desempenho escolar. Meira enfatiza que tal abordagem não é censura, mas sim a criação de limites essenciais para a sociedade, questionando a ideia ocidental de que “radicais” teriam o direito de destruir a própria democracia.
No Brasil, a discussão sobre regulação de plataformas ainda é incipiente e atrasada. Com eleições iminentes, a ausência de um arcabouço regulatório em meio à IA “a mil por hora” aponta para um cenário de “incompetência” e “faroeste digital”, mesmo com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) oferecendo alguma proteção. Meira lamenta a leniência dos Poderes Executivo e Legislativo na criação de um espaço político para discutir a regulação, cedendo aos lobbies que, naturalmente, não desejam nenhuma regulamentação de mercado. Pesquisas do Fórum Econômico Mundial apontam os desafios na redefinição de leis e políticas de trabalho frente a esses avanços tecnológicos.
O processo de “desaprender” para abraçar as transformações da IA e definir limites para sua convivência em sociedade é um imperativo, tanto para indivíduos quanto para governos. Silvio Meira alerta que ignorar essa necessidade de adaptação pode custar caro à capacidade competitiva e à coesão social.
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As reflexões de Silvio Meira sublinham a importância de uma profunda mudança de mentalidade e estratégias adaptativas diante da revolução da Inteligência Artificial, ressaltando que o desafio não está em temer a tecnologia, mas em compreendê-la, regulá-la e utilizá-la de forma a potencializar a capacidade humana. Para mais análises aprofundadas sobre o cenário econômico e as inovações tecnológicas no Brasil, convidamos você a continuar navegando em nossa editoria de Análises e Economia.
Crédito da imagem: CIn-UFPE/Divulgação


