Enquanto milhões de famílias ao redor do globo enfrentam as severas consequências financeiras decorrentes do conflito envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã, um grupo distinto de empresas observa seus balanços financeiros incharem com lucros recordes. A atmosfera de incerteza instaurada pela guerra e a estratégica interrupção do tráfego pelo Estreito de Ormuz, imposta pelas forças iranianas no final de fevereiro, catalisam um aumento generalizado nos custos de vida. Tal cenário pressiona orçamentos domésticos, corporativos e governamentais, embora para certas organizações, este seja um período de prosperidade incomum, impulsionada por negócios inerentemente lucrativos em cenários de conflito ou pela valorização atípica nos mercados de energia.
A paradoxal dinâmica econômica da crise no Oriente Médio tem direcionado cifras bilionárias para corporações em setores específicos. Do volátil mercado de petróleo e gás às operações de grandes instituições financeiras, passando pelas indústrias de defesa e até mesmo pelo crescente segmento de energia renovável, diversos players vêm capitalizando a conjuntura geopolítica. Analisar esses segmentos revela os mecanismos pelos quais o caos e a imprevisibilidade de um confronto podem, inesperadamente, se traduzir em rendimentos substanciais para a economia global.
Guerra no Irã: Empresas Lucram Bilhões com Instabilidade Atual
O impacto mais imediato e significativo da guerra na economia mundial reside na vertiginosa elevação dos preços da energia. Aproximadamente 20% da produção global de petróleo e gás transita pelo vital Estreito de Ormuz, e a paralisação efetiva desse fluxo em fevereiro deflagrou uma montanha-russa de preços nos mercados energéticos internacionais. Este cenário de flutuações acentuadas tem sido um motor de lucro para algumas das maiores companhias do setor. As gigantes petrolíferas europeias destacam-se como as principais beneficiárias, possuindo divisões de trading especializadas que se mostraram excepcionais ao lucrar com as intensas oscilações.
A British Petroleum (BP), por exemplo, anunciou que seus lucros nos três primeiros meses do ano mais que dobraram, atingindo a marca de US$ 3,2 bilhões, o equivalente a R$ 15,7 bilhões. A companhia creditou esse resultado notável ao “desempenho excepcional” de sua divisão de trading. De maneira similar, a Shell superou as projeções de analistas, reportando um aumento em seus lucros no primeiro trimestre, que totalizaram US$ 6,92 bilhões (cerca de R$ 33,9 bilhões). A TotalEnergies, outra potência global, viu seus lucros saltarem em quase um terço, alcançando US$ 5,4 bilhões (aproximadamente R$ 26,4 bilhões) no primeiro trimestre de 2026, atribuído diretamente à volatilidade dos mercados de petróleo e energia. Em contraste, as gigantes americanas ExxonMobil e Chevron registraram uma queda nos ganhos comparado ao mesmo período do ano anterior, impactadas pela interrupção do fornecimento vindo do Oriente Médio, mas ainda assim superaram as expectativas dos analistas e projetam crescimento para o restante do ano, com os preços do petróleo mantendo-se significativamente acima dos níveis pré-conflito.
Grandes Bancos e a Volatilidade dos Mercados Financeiros
Paralelamente ao setor energético, alguns dos maiores conglomerados bancários do mundo também experimentaram um expressivo crescimento de lucros após o escalonamento do conflito no Irã. O JP Morgan, por exemplo, registrou uma receita de trading que atingiu o nível recorde de US$ 11,6 bilhões (cerca de R$ 56,8 bilhões), impulsionando o banco a seu segundo maior lucro trimestral de sua história. Este padrão não foi isolado: o conjunto dos “Seis Grandes” bancos — que inclui, além do JP Morgan, o Bank of America, Morgan Stanley, Citigroup, Goldman Sachs e Wells Fargo — apresentou um substancial aumento nos lucros durante o primeiro trimestre de 2026. Juntos, esses bancos acumularam ganhos de US$ 47,7 bilhões (cerca de R$ 233,4 bilhões) nesse período.
Segundo Susannah Streeter, estrategista-chefe de investimentos do Wealth Club, “os altos volumes de trading beneficiaram os bancos de investimentos, particularmente o Morgan Stanley e o Goldman Sachs”. O intenso fluxo de negociações em Wall Street foi resultado de investidores buscando se desfazer de ações e títulos considerados de maior risco, optando por alocar seu capital em ativos percebidos como mais seguros. Além disso, a volatilidade dos mercados financeiros estimulou o trading, à medida que alguns investidores liquidavam posições por temor de uma escalada do conflito, enquanto outros aproveitavam a baixa para comprar, alimentando a dinâmica de recuperação do mercado. A incerteza geopolítica sobre o Estreito de Ormuz tem sido um fator relevante para a volatilidade global.
Indústria de Defesa: Um Beneficiário Direto dos Conflitos
O setor de defesa, naturalmente, se posiciona como um dos mais diretos e imediatos beneficiários de qualquer cenário de conflito armado, conforme ressaltado por Emily Sawicz, analista sênior da consultoria RMS UK. O enfrentamento “reforçou as lacunas da capacidade de defesa aérea”, precipitando investimentos significativos em sistemas antimísseis, tecnologia de combate a drones e modernização de equipamentos militares tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Além de evidenciar a relevância de tais empresas, a guerra impulsiona a necessidade governamental de reabastecer os arsenais, o que naturalmente eleva a demanda por armamentos e tecnologias de segurança.

Imagem: g1.globo.com
A BAE Systems, uma proeminente fabricante de componentes para jatos de combate F-35, anunciou em uma atualização comercial divulgada em 7 de maio que antecipa um forte crescimento em suas vendas e lucros para o ano de 2026. A empresa citou o aumento das “ameaças de segurança” globais como um impulsionador dos gastos governamentais com defesa, criando um “cenário de apoio” favorável à companhia. Similarmente, três dos maiores fornecedores mundiais de defesa — Lockheed Martin, Boeing e Northrop Grumman — reportaram atrasos recordes nos pedidos ao término do primeiro trimestre de 2026. No entanto, as ações dessas empresas, que apresentaram forte valorização nos últimos anos, registraram queda desde meados de março, em meio a preocupações de uma possível supervalorização do setor.
Energia Renovável: Resposta à Dependência Fóssil
Contrariamente ao que possa parecer à primeira vista, o conflito no Oriente Médio também realçou a urgência de diversificar as matrizes energéticas globais e diminuir a dependência de combustíveis fósseis, como observa Susannah Streeter. Esse imperativo “potencializou o interesse no setor de energia renovável”, mesmo em contextos como os Estados Unidos, onde gestões anteriores incentivaram veementemente o uso de combustíveis fósseis. Streeter aponta que a guerra fez com que os investimentos em fontes renováveis fossem cada vez mais percebidos como cruciais para a estabilidade energética e a resiliência contra choques geopolíticos e econômicos.
Empresas como a NextEra Energy, com sede na Flórida (EUA), sentiram um forte impulso, com suas ações valorizando-se 17% este ano, refletindo o apoio dos investidores à sua missão. As gigantes dinamarquesas de energia eólica, Vestas e Orsted, também divulgaram aumento de lucros, demonstrando como as ramificações do conflito no Irã estão dinamizando o setor de energia renovável. No Reino Unido, a Octopus Energy informou à BBC que a guerra gerou um “enorme impulso” nas vendas de painéis solares e bombas de calor, com as vendas de painéis solares crescendo 50% desde o final de fevereiro. A elevação dos preços da gasolina também estimulou a demanda por veículos elétricos, e os fabricantes chineses, em particular, têm capitalizado significativamente essa oportunidade.
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A instabilidade gerada pela Guerra no Irã revela uma complexa teia de impactos econômicos, onde setores distintos, da energia convencional à inovação sustentável, passando por finanças e defesa, se encontram em um paradoxo de ganhos. As empresas que lucram com a guerra no Oriente Médio evidenciam como eventos geopolíticos remodelam os mercados e a economia global. Para se aprofundar nas análises sobre a economia e entender melhor os desdobramentos de crises globais, continue acompanhando as notícias em nossa editoria de Economia.
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