A ausência paterna acarreta consequências psicológicas significativas para filhas criadas por mães solo, uma realidade cada vez mais comum no Brasil. Conforme um relato de uma jovem de 28 anos, os danos se manifestam de diversas formas e, frequentemente, exigem suporte terapêutico para serem compreendidos e elaborados ao longo da vida adulta.
Nas últimas décadas, a configuração familiar brasileira tem passado por profundas transformações. Dados do Dieese, relativos ao terceiro trimestre de 2022, apontam que mais de 11,053 milhões de lares no país são chefiados por mães solo. Desse total, 61,7% dessas famílias são lideradas por mulheres negras e 38,3% por mulheres não negras, destacando a relevância socioeconômica e a complexidade dessa estrutura familiar.
Ausência Paterna: Impactos Psicológicos em Filhas de Mães Solo
Com o intuito de investigar a fundo como a ausência paterna é vivenciada e quais são seus efeitos subjetivos ao longo da vida das filhas, a equipe do Laboratório de Estudos em Família e Casal do Departamento de Psicologia da PUC-Rio realizou uma pesquisa qualitativa. O estudo focou em seis jovens mulheres, com idades entre 21 e 29 anos, que foram criadas exclusivamente por suas mães na cidade do Rio de Janeiro e tiveram contato mínimo ou nulo com seus pais biológicos.
O recorte metodológico qualitativo da pesquisa permitiu uma análise aprofundada das experiências individuais, explorando as dimensões subjetivas que são frequentemente inacessíveis em estudos quantitativos. Através das narrativas das participantes, os pesquisadores buscaram compreender a ausência paterna não apenas como um evento biográfico, mas, principalmente, como essa ausência é sentida, interpretada e processada no decorrer do tempo. Os depoimentos evidenciaram que a falta do pai raramente se restringe à mera distância física; ela adquire o peso simbólico do abandono, especialmente quando as mulheres percebem que não foram escolhidas ou desejadas.
Entre Ausência e Abandono
Um dos aspectos mais marcantes que emergiu das histórias contadas é a distinção e, ao mesmo tempo, a associação entre ausência e abandono. Enquanto a ausência pode ser compreendida como uma condição física, o abandono surge como a recusa da parentalidade. O estudo sugere que a ausência física atua como um ponto de partida, enquanto o abandono configura seu impacto subjetivo e emocional.
Cada história individual se mostrou única. Em alguns relatos, as participantes jamais chegaram a conviver com o pai e, por essa razão, afirmavam não sentir saudades, pois não existiam memórias conjuntas. Contudo, essa ausência se tornava presente e dolorosa em contextos sociais específicos, como ao observar outras configurações familiares ou em eventos escolares que exigiam a figura paterna.
Em outras narrativas, o distanciamento do pai ocorreu de maneira progressiva. Inicialmente, havia uma presença intermitente, que com o tempo se desfez, resultando na percepção de um abandono emocional. Nesses casos, a dor não advinha somente da ausência física, mas do sentimento de desinteresse. Uma das participantes revelou que a compreensão de sua própria história como abandono somente se consolidou na vida adulta, ao perceber a inexistência de um investimento afetivo constante na relação.
Impactos na Autoestima e nos Relacionamentos
Os relatos também indicam que a ausência do pai pode afetar diretamente a formação da autoimagem e a maneira como essas mulheres interagem socialmente. O abalo narcísico provocado pela falta paterna pode comprometer a construção de vínculos com os pares, um ponto corroborado por estudos de pesquisadores como Kim Jones, Maia e Okamoto, bem como Michael Diamond.
Diversas falas associam as dificuldades em lidar com rejeições amorosas a um histórico de abandono. O medo de ser deixada novamente era um sentimento recorrente, que influenciava profundamente os relacionamentos afetivos posteriores. Emergem, também, dúvidas profundas sobre o próprio valor pessoal, expressas em questionamentos que ecoavam silenciosamente durante a infância e adolescência: “Será que não fui suficiente?” ou “Por que ele não quis ficar?”. Do ponto de vista psicológico, tais vivências podem fragilizar o senso de se reconhecer como “filha de alguém”, um componente crucial na construção da identidade. A criança que percebe a falta de interesse ou cuidado parental pode passar a vida tentando dar sentido a essa lacuna, questionando a razão do abandono afetivo: “Eu sou muito parecida com a minha mãe?”.
Estratégias de Enfrentamento
A pesquisa identificou distintas formas de enfrentamento psicológico. Algumas participantes descreviam o pai de maneira distante e racionalizada, minimizando-o a uma figura meramente biológica, desprovida de relevância emocional. Outras declaravam não sentir emoção alguma em relação a ele, embora emoções conflitantes surgissem ao longo de suas narrativas.
Tais estratégias não devem ser interpretadas apenas como negação, mas sim como mecanismos de proteção psíquica, conforme a conceituação de Roland Chemama em seu Dicionário de Psicanálise (1995). Em muitas circunstâncias, funcionam como recursos para manter o equilíbrio emocional diante de experiências complexas de assimilação. Paralelamente, as histórias demonstram que o significado da ausência paterna não é estático; ele pode se reconfigurar ao longo da vida.
Novos Sentidos ao Longo da Vida
Momentos de transição importantes, como o início da terapia, o engajamento em novos relacionamentos ou a experiência da maternidade, frequentemente reativaram reflexões sobre suas histórias familiares. Esse fenômeno também foi observado em outros estudos. Uma das participantes relatou ter percebido a importância da figura paterna somente após o nascimento da própria filha. Ao se encontrar na posição de cuidadora, ela passou a meditar sobre o que não havia recebido. Esses relatos sublinham que a vivência do abandono não gera resultados idênticos para todos, tampouco determina trajetórias de vida inevitáveis. Pelo contrário, ela pode ser reinterpretada e simbolizada com o passar do tempo.
Uma História que Atravessa Gerações
Um ponto notável no estudo foi a observação da repetição de padrões familiares. Em algumas situações, os próprios pais das participantes haviam enfrentado experiências de abandono ou vínculos familiares fragilizados. Isso sugere que dificuldades no exercício da parentalidade podem perpetuar-se através de gerações quando não encontram um espaço para a devida elaboração. É importante ressaltar que isso não tem a intenção de justificar o abandono, mas sim de compreendê-lo como parte de uma cadeia de rupturas afetivas pré-existentes. A ocorrência de padrões geracionais é um fato conhecido e estudado em diversas áreas, incluindo a psicologia familiar. Um trabalho específico com 132 homens jovens afro-americanos, residentes em zonas rurais nos Estados Unidos, por exemplo, identificou que aqueles com melhores relacionamentos paternos tendiam a ter um maior envolvimento com seus próprios filhos, especialmente as meninas, como aborda um relatório da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE sobre estruturas familiares.
Compreendendo a Experiência
Os achados da pesquisa demonstram que o crescimento em uma família monoparental não é, por si só, um fator exclusivo e determinante de sofrimento psicológico. O aspecto crucial parece estar menos na estrutura familiar em si e mais na qualidade dos vínculos estabelecidos. A ausência paterna tem o potencial de provocar sentimentos de rejeição, insegurança e questionamentos identitários, mas igualmente pode inaugurar vias para a elaboração psíquica e a transformação pessoal.
As narrativas colhidas revelam indivíduos que, apesar das marcas e das feridas, conseguem atribuir significados próprios às suas trajetórias. A escuta dessas experiências contribui significativamente para enriquecer o debate público acerca da parentalidade, do cuidado e da responsabilidade afetiva. Fica claro que a presença parental transcende os meros laços biológicos, sendo definida, acima de tudo, pelo reconhecimento emocional e pelo desejo genuíno de vínculo.
O estudo foi conduzido pelas pesquisadoras Naytiara da Silva de Almeida Rodrigues, Professora Associada do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Andrea Seixas Magalhães e Rebeca Nonato Machado, cujas contribuições foram fundamentais para a análise e interpretação dessas importantes questões.
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