A situação da vacina contra o HPV para adolescentes no Brasil acende um alerta importante, conforme dados recentes revelados por uma pesquisa nacional. Apesar de o Sistema Único de Saúde (SUS) oferecer gratuitamente um método seguro e eficaz para prevenir diversos tipos de câncer relacionados ao papilomavírus humano, a cobertura vacinal ainda está longe do ideal para garantir a máxima proteção do público-alvo.
Para que a imunização alcance sua eficácia plena, a vacinação contra o HPV deve ocorrer preferencialmente no final da infância ou no início da adolescência. Contudo, um estudo detalhado indica que uma parcela significativa dessa faixa etária permanece desprotegida ou com status vacinal incerto, o que expõe milhões de jovens a riscos desnecessários.
De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última quarta-feira (25), menos de 55% dos estudantes entrevistados, com idades entre 13 e 17 anos, tinham a certeza de terem sido imunizados contra o papilomavírus humano (HPV).
Adolescentes Vulneráveis: Cobertura Vacinal de HPV em Alerta
O vírus do HPV é amplamente reconhecido como o agente etiológico de 99% dos casos de câncer de colo do útero, além de ser responsável por uma parcela significativa de tumores que afetam o ânus, pênis, boca e garganta. A importância da prevenção através da vacina, portanto, é crucial para a saúde pública e individual dos jovens brasileiros.
A vacina que previne infecções por HPV está disponível em todas as unidades de saúde do território nacional e é recomendada para meninos e meninas na faixa etária entre 9 e 14 anos. Essa diretriz de idade se justifica pelo fato de a transmissão do vírus ocorrer predominantemente por via sexual, sendo a vacina mais potente e eficaz quando administrada antes da iniciação sexual do indivíduo, criando uma barreira protetora precoce.
Os resultados da PeNSE mostram uma realidade preocupante: 10,4% dos estudantes abrangidos pelo levantamento do IBGE não haviam sido vacinados. Mais grave ainda, 34,6% afirmaram não saber se haviam recebido a dose ou não. Esses percentuais traduzem-se em cerca de 1,3 milhão de adolescentes efetivamente desprotegidos e outros 4,2 milhões que podem estar potencialmente vulneráveis à infecção pelo vírus.
A pesquisa, cujos dados foram coletados pelo IBGE em 2024, trouxe também insights sobre o comportamento sexual na adolescência. Ela identificou que 30,4% dos estudantes de 13 a 17 anos já possuíam vida sexual ativa. A idade média para o início da atividade sexual foi de 13,3 anos para os meninos e 14,3 anos para as meninas, sublinhando a urgência da imunização precoce contra o HPV.
Declínio na Imunização e Disparidades de Gênero
A análise comparativa entre as edições da pesquisa revela uma tendência de queda alarmante. A porcentagem de estudantes que receberam a vacina diminuiu 8 pontos percentuais em comparação com a edição anterior da PeNSE, realizada em 2019. Apesar de as meninas apresentarem uma cobertura vacinal superior aos meninos — 59,5% contra 50,3%, respectivamente — a retração da imunização foi ainda mais acentuada entre elas, registrando uma queda de 16,6 pontos percentuais.
A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Isabela Balallai, oferece uma perspectiva crucial sobre as razões por trás da baixa adesão. Segundo Balallai, o que ela classifica como hesitação vacinal não se restringe apenas à propagação de notícias falsas. A desinformação é um dos fatores, mas a falta de acesso à vacina, a subestimada percepção do risco da doença e a escassez de informações claras sobre a disponibilidade e a importância da vacina contribuem de forma significativa para o problema.
No Brasil, a dificuldade de informação é um “problema máximo”, conforme a especialista, que aponta que “muitas pessoas não sabem quando têm que se vacinar e quais as vacinas disponíveis”. Dados adicionais da pesquisa apontam outras razões, em proporção menor: 7,3% dos estudantes informaram que pais ou responsáveis se opuseram à vacinação; 7,2% desconheciam a função da vacina; e 7% enfrentaram dificuldades para chegar aos postos de vacinação.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Diferenças Regionais e o Papel Essencial da Escola
A PeNSE também revelou disparidades importantes entre os grupos de alunos da rede pública e privada. Entre os estudantes de escolas públicas, 11% não foram vacinados, número que contrasta com 6,9% na rede privada. Por outro lado, a resistência parental à vacina foi um fator mais predominante na rede privada, sendo a razão da hesitação para 15,8% dos alunos, enquanto na rede pública esse percentual foi de 6,3%.
Isabela Balallai reitera o papel primordial que as instituições de ensino podem desempenhar na reversão desse quadro. Segundo ela, as escolas são capazes de abordar múltiplos fatores de hesitação vacinal. Ao educar o adolescente, elas combatem a desinformação. Ao organizar campanhas ou avisar sobre a vacinação, superam a falta de informação. O ambiente escolar facilita o acesso à imunização, um processo mais complicado em postos de saúde, e promove a conscientização dos pais sobre a importância da vacinação.
Na casa da jornalista e escritora Joana Darc Souza, o bom exemplo é prática. As filhas mais velhas, com 9 e 12 anos, já estão imunizadas contra o HPV, enquanto a mais nova, de 6 anos, aguarda a idade recomendada. Joana relata sua convicção na eficácia das vacinas: “Eu nunca tive dúvida em relação à eficácia e sempre defendi que vacina salva vidas. Isso é uma coisa que eu aprendi em casa, quando ainda era criança, e hoje eu replico com as minhas filhas”. As filhas de Joana, que estudam em escolas municipais do Rio de Janeiro, participam de convocações vacinais na escola, apesar de a família já realizar o controle da imunização em casa, com o apoio fundamental da pediatra.
Esforços do Ministério da Saúde para o Resgate Vacinal
Em um esforço para reverter as taxas decrescentes, o Ministério da Saúde reporta dados preliminares de vacinação para 2025 que mostram uma cobertura superior à identificada na PeNSE: 86% entre meninas e 74,4% entre meninos. É importante ressaltar que, desde 2024, a vacina contra o HPV passou a ser administrada em dose única, simplificando o esquema vacinal e potencialmente melhorando a adesão.
Adicionalmente, no ano passado, o Ministério lançou uma estratégia abrangente de resgate vacinal, visando imunizar adolescentes de 15 a 19 anos que não receberam a vacina na idade originalmente recomendada. Até o momento, essa iniciativa já alcançou 217 mil jovens. A campanha está prevista para se estender até junho de 2026 e inclui ações específicas de vacinação dentro das escolas, além da disponibilidade contínua do imunizante em todas as unidades de saúde. Para quem tem dúvidas sobre seu histórico vacinal, é possível consultar o aplicativo Meu SUS Digital para verificar as vacinas recebidas.
Para se aprofundar nas políticas de saúde pública e os esforços do Ministério da Saúde no combate ao HPV, explore os recursos oficiais. Ações conjuntas entre saúde e educação são essenciais para fortalecer a imunização contra o HPV no Brasil e proteger as futuras gerações.
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A gravidade dos números aponta para uma necessidade urgente de fortalecer as campanhas de conscientização e acesso à vacina contra o HPV, especialmente para adolescentes. É crucial que pais, escolas e profissionais de saúde trabalhem em conjunto para garantir que mais jovens brasileiros estejam protegidos contra doenças sérias causadas pelo vírus. Continue acompanhando nosso portal para mais análises e notícias sobre saúde e políticas públicas que impactam diretamente a sua vida.
Crédito da imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil



