Desde a última quarta-feira, 18 de outubro, o tenente-coronel Geraldo Neto está detido no Presídio Militar Romão Gomes, uma penitenciária de alta relevância localizada na Zona Norte de São Paulo. A chegada de Neto à unidade adiciona um novo capítulo à história do complexo prisional, notório por abrigar agentes da Polícia Militar envolvidos em crimes que ganharam grande repercussão nacional, incluindo figuras como Mizael Bispo, o Cabo Bruno e o famoso Rambo, que em diferentes épocas foram custodiados no local.
Geraldo Neto enfrenta a acusação de assassinar sua esposa, a soldado Gisele Alves, ao disparar contra a cabeça dela dentro do apartamento do casal, situado no Brás, região central da capital paulista. O crime ocorreu em 18 de fevereiro. Conforme a apuração do Ministério Público (MP), Gisele manifestava o desejo de se separar, uma intenção não aceita pelo marido. Contudo, o oficial nega veementemente as acusações, sustentando que sua esposa teria tirado a própria vida após ele solicitar o divórcio.
Tenente-Coronel Neto Preso no Romão Gomes, onde esteve Mizael
A exclusividade do Presídio Romão Gomes reside no fato de ser a única unidade carcerária, estabelecida em 1957, dedicada unicamente à custódia de integrantes da Polícia Militar que são alvo de crimes militares. Dada a sua patente de tenente-coronel, sua permanência na corporação e a acusação de homicídio contra uma soldado, Geraldo Neto foi encaminhado a este estabelecimento prisional. Uma filmagem obtida pela TV Globo mostra o oficial recebendo abraços de outro policial militar logo em sua chegada, cena que levantou questionamentos sobre a praxe da cordialidade em recepções de novos detentos. A Polícia Militar ainda não se pronunciou oficialmente sobre essa conduta, nem respondeu aos questionamentos do G1, feitos na sexta-feira (20 de outubro), a respeito da estrutura, quantidade de detentos, tipos de crimes, níveis prisionais e a rotina do novo detento na unidade.
O Legado de Nomes Notórios no Romão Gomes
Um levantamento do programa Fantástico, divulgado em 2010, revelou que os crimes de homicídio são historicamente a principal causa para a prisão de policiais militares no Romão Gomes. Ao longo de décadas, o presídio se tornou palco para a custódia de diversos detentos que, de distintas maneiras, marcaram a crônica criminal do país. Seus corredores abrigaram histórias que vão desde crimes passionais até episódios de violência institucional de repercussão nacional.
O Caso Mizael Bispo e o Assassinato de Mércia Nakashima
Mizael Bispo, então advogado e soldado aposentado da PM, ganhou notoriedade nacional após ser apontado pelo Ministério Público como o responsável pela morte da ex-namorada, Mércia Nakashima. O caso, ocorrido em 2010, em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo, teve como motivação a suposta inconformidade de Bispo com o término do relacionamento. Mércia foi baleada e afogada, e Mizael sempre negou qualquer envolvimento com o crime. Ele foi detido temporariamente e preventivamente no Romão Gomes durante as fases iniciais do processo. Em 2013, a Justiça o condenou a uma pena superior a 20 anos pelo assassinato. Posteriormente, em 2015, Mizael foi transferido para a Penitenciária de Tremembé, conhecida por custodiar presos de alta visibilidade pública. Uma progressão de regime foi concedida em 2023, levando-o ao regime aberto. Entre 2022 e 2025, Bispo foi oficialmente expulso da Polícia Militar e desabilitado de exercer a advocacia pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
A Trajetória e o Fim de Cabo Bruno
Florisvaldo de Oliveira, mais conhecido como Cabo Bruno, era um nome que causava temor entre os anos 1970 e 1980 na Grande São Paulo. Ele foi acusado de liderar o infame ‘esquadrão da morte’, um grupo paramilitar composto por policiais e ex-policiais que, após o expediente na corporação, realizavam execuções de indivíduos considerados criminosos. Após sua prisão, Cabo Bruno enfrentou julgamentos por mais de 50 homicídios e acumulou penas que superaram os 100 anos de prisão. Ele chegou a admitir autoria em parte dos assassinatos. Sua pena foi iniciada no Romão Gomes, de onde ele conseguiu escapar três vezes entre 1983 e 1991, sendo sempre recapturado. Registros indicam mais duas fugas, em 2010 e 2015, por outros detentos, sem confirmação sobre suas recapturas. Posteriormente, Cabo Bruno foi desligado da corporação militar. Em 2012, foi transferido para Tremembé, onde se converteu em Pastor Bruno. Após 27 anos de prisão, recebeu indulto presidencial de Dilma Rousseff em 2011 e foi posto em liberdade. No ano seguinte, 2012, Cabo Bruno foi tragicamente executado a tiros na porta de sua residência, em Pindamonhangaba, enquanto retornava de um culto evangélico. Seus assassinos nunca foram identificados.
Rambo: O Rosto da Violência na Favela Naval
Otávio Lourenço Gambra, conhecido pelo apelido Rambo, tornou-se um símbolo da brutalidade policial em 1997. Ele foi um dos PMs fardados flagrados por um cinegrafista amador durante uma blitz violenta na Favela Naval, em Diadema, Grande São Paulo. As imagens chocantes revelaram execuções, extorsão e agressões contra moradores e suspeitos de tráfico. Durante a ação, duas pessoas foram mortas, uma delas o conferente Mário José Josino, atingido fatalmente por Rambo, que usava boné da corporação para trás e exibia extrema violência. As evidências em vídeo permitiram a identificação e prisão dos envolvidos. Em 2000, apesar de negar o crime, Rambo foi sentenciado a uma pena inicial de 47 anos de reclusão pelo homicídio. Cumpriu a prisão preventiva e parte de sua sentença no Romão Gomes. Em 2006, obteve sua liberdade por decisão judicial, progredindo para o regime aberto.
A Rotina Interna: 22 Horas na Cela e os Estágios de Progressão no Romão Gomes
Em 2013, uma reportagem do G1 ofereceu um vislumbre sobre o funcionamento interno do Presídio Romão Gomes, revelando detalhes sobre a rotina dos detentos e os sistemas de controle. À época, a administração prisional organizava os internos em quatro estágios, distintamente categorizados por cores – vermelho, amarelo, verde e azul. Cada estágio impunha um conjunto de regras que definia desde a localização do detento, o tempo de circulação e as atividades permitidas, até o nível de disciplina exigido. A progressão entre esses estágios não possuía um prazo fixo; ela dependia intrinsecamente do comportamento do preso, da sua avaliação disciplinar, da capacidade de adaptação às normas carcerárias e da aprovação em exames internos. Notavelmente, a unidade recebia tanto homens quanto mulheres policiais militares, porém, as regras de visitas íntimas eram exclusividade dos detentos do sexo masculino.
Estima-se que o tenente-coronel Geraldo Neto, recém-chegado, esteja inserido no primeiro estágio, o vermelho. Este estágio representa a fase de ingresso e adaptação, impondo a condição de permanência em cela com outros presos por até 22 horas diárias. O período permitido para banho de sol e outras saídas restritas seria de apenas duas horas. Adicionalmente, ele deve cumprir outras diretrizes internas estritas. A seguir, uma descrição mais detalhada de cada estágio:
1º Estágio – Vermelho: Ingresso e Adaptação Rígida
Identificado por um crachá vermelho, este estágio corresponde à fase mais severa de triagem e introdução às regulamentações do presídio. Os presos neste nível são mantidos na cela por até 22 horas diariamente, com aproximadamente duas horas dedicadas ao banho de sol. A movimentação externa é altamente restringida, permitida somente para atendimentos jurídicos e o período de banho de sol. A duração não é predeterminada, sendo a progressão condicionada ao bom comportamento e avaliações disciplinares rigorosas.

Imagem: g1.globo.com
2º Estágio – Amarelo: Primeiros Alivios das Restrições
Com um crachá amarelo, os detentos do segundo estágio desfrutam de normas ligeiramente mais brandas. Nesta etapa, é concedida a permissão para frequentar áreas comuns sob vigilância, participando de atividades monitoradas, tais como leitura, jogos, consultas diversas e pequenas tarefas dentro da unidade. Assim como no estágio anterior, o tempo de permanência varia conforme a conduta do preso e as avaliações internas para que ele possa ascender à próxima fase.
3º Estágio – Verde: Ampliação de Acesso e Atividades
Identificados com um crachá verde, os presos do terceiro estágio têm acesso expandido a espaços coletivos, com algumas celas individuais sendo substituídas por alojamentos em determinados pavilhões. Os internos podem utilizar quadras esportivas, academias e participar de trabalhos internos, os quais podem ser considerados para a redução de suas penas. A duração deste estágio não é fixa, dependendo crucialmente da disciplina, adaptação às normas e cumprimento integral das regras internas.
4º Estágio – Azul: O Semiaberto Interno
Com o uso do crachá azul, este estágio representa o regime semiaberto dentro da própria estrutura prisional. Proporciona aos detentos pátios diários, uso de quadra poliesportiva e a possibilidade de participar de atividades laborais e educacionais. As acomodações em seus pavilhões são mais abertas, com um monitoramento contínuo. A permanência neste estágio é governada pelas normas do regime semiaberto, sendo influenciada pela manutenção da disciplina e pelas condições do processo judicial ou da execução penal.
Geraldo Neto: O Primeiro Oficial Preso por Feminicídio Pós-Lei de 2015
A situação do tenente-coronel Geraldo Neto destaca-se ainda mais por um aspecto grave e inédito: ele é o primeiro oficial da Polícia Militar do estado de São Paulo a ser detido sob a acusação de feminicídio desde que a lei específica para este crime foi estabelecida em 2015. A Justiça decretou a prisão preventiva de Neto e o tornou réu no processo que investiga a morte de Gisele. Além da acusação de feminicídio — caracterizado pelo assassinato de mulheres por razões de gênero, envolvendo violência doméstica, familiar ou o desprezo pela condição feminina —, ele também responde por fraude processual. Essa última acusação deriva da suspeita de que ele teria manipulado a cena do crime com o intuito de simular o suicídio da vítima.
Laudos periciais, juntamente com as conclusões da Polícia Civil e do Ministério Público, indicam que o oficial teria segurado a cabeça da vítima antes do disparo fatal, refutando assim a alegação de suicídio. Ademais, a acusação de fraude processual sustenta que ele alterou o local após o ocorrido para criar uma falsa narrativa de autoextermínio. A investigação revelou também evidências digitais comprometedoras. Mensagens extraídas do celular de Geraldo Neto ilustram um padrão de controle financeiro, imposição sexual e tentativas de coerção sobre a vítima. Em diversos trechos, o próprio oficial se autodenominava como “macho alfa”, exigindo que sua esposa se portasse como uma “fêmea beta”, elementos que, na avaliação do Ministério Público, confirmam um ambiente de violência doméstica. Complementarmente, vídeos registrados pelas câmeras corporais dos PMs que atenderam a ocorrência contribuíram para contestar a versão de suicídio apresentada por Neto. Caso seja condenado, a Justiça poderá determinar uma indenização mínima de R$ 100 mil à família da vítima.
Para aprofundar-se sobre a natureza jurídica do feminicídio e as iniciativas de combate à violência de gênero no país, o leitor pode consultar os recursos disponíveis no site oficial do Ministério Público do Estado de São Paulo, uma instituição chave na promoção da justiça e defesa dos direitos.
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A detenção do tenente-coronel Geraldo Neto no Presídio Militar Romão Gomes traz à tona não apenas os detalhes de um grave caso de feminicídio e fraude processual, mas também revisita a história de uma das mais importantes unidades prisionais militares do país, marcada pela presença de figuras polêmicas como Mizael Bispo, Cabo Bruno e Rambo. A notícia reafirma a seriedade das acusações contra Neto e o impacto de suas ações na esfera jurídica e social, representando um marco significativo para a Polícia Militar paulista. Para acompanhar os desdobramentos deste e de outros casos que marcam o cenário urbano, e aprofundar-se nas principais notícias de Cidades em todo o Brasil, convidamos você a explorar mais conteúdo em nosso blog. Acesse nossa editoria de Cidades para uma cobertura jornalística completa e atualizada.
Crédito da imagem: Reprodução/Fabrício Lobel/TV Globo
