A Arábia Saudita registrou um crescimento vertiginoso em suas exportações de petróleo pelo Mar Vermelho, alcançando volumes não vistos há vários anos. Esta escalada notável ocorre em resposta ao fechamento quase total do Estreito de Ormuz, imposto por uma série de tensões geopolíticas. O país busca rotas alternativas para escoar sua produção energética, reconfigurando a dinâmica de seu comércio de petróleo e elevando os custos de frete marítimo globalmente.
No dia 10 de março, dados de transporte marítimo do London Stock Exchange Group revelaram que 22 petroleiros tiveram seus acordos finalizados para carregamento no porto de Yanbu, localizado na costa oeste saudita, banhada pelo Mar Vermelho. Este número representou a maior quantidade registrada em um único dia desde 2020. Em contraste, antes do recrudescimento do conflito entre Estados Unidos e Israel com o Irã no início deste ano, o fluxo diário de petroleiros nesse porto oscilava entre zero e duas embarcações. O panorama mudou drasticamente em março, com o total de petroleiros atingindo a marca de 64 até o dia 13, um salto de 21 vezes em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Exportações de Petróleo no Mar Vermelho Disparam Após Ormuz
O porto de Yanbu está estrategicamente conectado à parte leste da Arábia Saudita, epicentro de sua produção de petróleo bruto, por um extenso oleoduto com aproximadamente 1.200 quilômetros. Esta infraestrutura crítica possibilita o transporte de petróleo sem a necessidade de cruzar o Estreito de Ormuz, oferecendo uma via de escoamento alternativa diante das restrições atuais. Segundo a Kpler, uma renomada empresa europeia de análise, os embarques de petróleo bruto provenientes da costa oeste saudita alcançaram 2,6 milhões de barris por dia na semana iniciada em 9 de março, o nível mais elevado desde que tais dados se tornaram disponíveis em 2013.
Historicamente, a maior parte do petróleo bruto da Arábia Saudita era exportada através da costa do Golfo Pérsico, onde estão situados os principais campos petrolíferos. Conforme levantamentos da Veson Nautical, uma empresa de pesquisa americana, em 2025, o Golfo Pérsico respondia por cerca de 80% das exportações sauditas de petróleo por meio de grandes navios-tanque. Naquela época, as exportações pelo Mar Vermelho, realizadas através do oleoduto leste-oeste, representavam apenas 20% do volume total. A situação sofreu uma alteração profunda após os ataques na região do Irã. Desde o início de março, foram notificados apenas três contratos de navios-tanque para Ras Tanura, um importante terminal no Golfo Pérsico, evidenciando a reversão dessa tendência.
Sakuji Hamasaki, presidente da corretora de frete marítimo Atlas, sediada em Tóquio, comentou sobre a tendência. “Com a contínua impossibilidade de atravessar o Estreito de Ormuz, o número de armadores que enviam navios para o Mar Vermelho está aumentando gradualmente, impulsionado pela expansão das exportações de Yanbu”, afirmou. Entretanto, é crucial sublinhar que as exportações realizadas pelo Mar Vermelho possuem limitações em decorrência da capacidade dos oleodutos e outros fatores intrínsecos à logística, impedindo que substituam integralmente o vasto volume de petróleo bruto que tradicionalmente passava pelo Estreito de Ormuz.
Para mitigar essas limitações, a Arábia Saudita estaria trabalhando no aumento da capacidade diária de transporte de seu oleoduto leste-oeste, elevando-a de 5 milhões para 7 milhões de barris. Uma análise do JPMorgan indicou que 2 milhões de barris dessa capacidade já estão sendo utilizados. Os cerca de 5 milhões de barris restantes, ao serem ativados, deverão levar a operação de exportação de Yanbu à sua capacidade máxima. Na conjuntura atual, aproximadamente 14 milhões de barris de petróleo bruto por dia — equivalentes a cerca de 70% do volume que era escoado via Estreito de Ormuz antes de seu fechamento — encontram-se impossibilitados de deixar o Golfo Pérsico, o que gera significativas implicações para o mercado global.
O percurso do petróleo bruto do Mar Vermelho até o Golfo de Aden, no Oceano Índico, exige a travessia pelo Estreito de Bab el-Mandeb, uma passagem crítica com desafios de segurança próprios. Desde o final de 2023, o local tem sido palco de uma série de ataques contra navios mercantes, perpetrados pelos rebeldes Houthis do Iêmen, o que acrescenta uma camada de risco à rota já estratégica. Antes mesmo do fechamento de Ormuz, grandes companhias de navegação globais já consideravam rotas mais longas, como o contorno pelo Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África, para evitar os perigos de Ormuz, do Mar Vermelho e do Canal de Suez.
A média de navios que cruzaram Bab el-Mandeb entre 2 e 8 de março foi de 33 por dia, conforme dados do PortWatch, plataforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) para monitoramento do tráfego marítimo. Este volume, similar ao do mesmo período do ano anterior, permanece aquém da média de 73 navios registrada em 2023, refletindo a cautela na navegação. Apesar dos riscos acentuados no transporte marítimo do Oriente Médio, a demanda na região segue em crescimento, impulsionando as taxas de frete de Yanbu a patamares elevados. Para dados detalhados sobre o tráfego marítimo e análises econômicas globais, a plataforma PortWatch do FMI oferece um acompanhamento atualizado.
Segundo Anders Lund, da MB Shipbrokers, sediada na Dinamarca, as taxas de frete para navios petroleiros de grande porte (VLCCs) com partida de Yanbu são estimadas em aproximadamente US$ 450 mil por dia. Este valor representa um aumento de mais de 10 vezes em relação à média de US$ 42 mil para o período entre 2023 e 2025. George Morris, analista da empresa de pesquisa britânica Vortexa, apontou que embarcações que deixam a região do Mar Vermelho estão pagando fretes superiores aos navios oriundos de outras localidades, como o Golfo do México e a África Ocidental, com destino à Ásia. Essas tendências demonstram claramente a intensa demanda por transporte e os altos riscos associados à navegação marítima no Oriente Médio.
O conflito militar liderado por Estados Unidos e Israel contra o Irã não dá sinais de arrefecimento, aprofundando as incertezas no mercado. Na última sexta-feira, forças americanas atacaram a Ilha de Kharg, um dos principais centros de exportação de petróleo iraniano. Embora não tenha havido confirmação imediata de danos significativos às instalações de carregamento e armazenamento em Kharg que resultassem em interrupção do fornecimento, o mercado mantém-se vigilante. O subsequente ataque com drones ao porto de Fujairah, um centro de exportação nos Emirados Árabes Unidos, reforçou a crescente preocupação de que novos ataques a centros de exportação na Arábia Saudita, Emirados Árabes e outros países do Golfo possam se alastrar, prejudicando ainda mais a capacidade de exportação da região.
A cautela do mercado em relação aos riscos de abastecimento global, amplificada pela escalada dos conflitos, tem impactado diretamente os preços do petróleo. Na segunda-feira, os contratos futuros do petróleo bruto West Texas Intermediate (WTI), referência internacional, subiram brevemente acima de US$ 100 por barril, feito que não se via há uma semana. O transporte de petróleo bruto através da alternativa do Mar Vermelho, somado aos riscos geopolíticos, não apenas resulta em custos de frete elevados, mas também contribui para manter a pressão ascendente sobre os preços globais do petróleo.
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