À medida que a preocupação com o meio ambiente cresce e a exigência de métricas claras se intensifica por parte de investidores e reguladores, a indústria de eventos enfrenta um desafio sem precedentes: comprovar a capacidade de reduzir seu impacto climático sem prejudicar a receita ou a atração de público. Grandes eventos sustentáveis estão se tornando uma prioridade em um setor que, tradicionalmente, gera emissões consideráveis de gases de efeito estufa (GEE), resultantes da complexa logística, do deslocamento massivo de equipes e participantes, da vasta produção de resíduos e do consumo intensivo de recursos como energia e água.
O calendário nacional exemplifica a magnitude deste desafio, com projeções para 2026 repletas de atividades intensas. Entre junho e julho, a Copa do Mundo de Futebol promete um aquecimento significativo para a economia, impulsionando bares, restaurantes, turismo e eventos temáticos. Em setembro, o icônico Rock in Rio retorna ao Rio de Janeiro, com uma expectativa de público superior aos 700 mil participantes de 2024. O início do ano já contou com a realização de grandes encontros, incluindo o Rio Open, diversas turnês de artistas internacionais, o Tour da Taça da Copa do Mundo e o Lollapalooza Brasil, que atrai centenas de milhares de fãs para o Autódromo de Interlagos, em São Paulo, em março. Apesar de não figurarem entre os principais emissores globais, posição ocupada por setores como mudança no uso da terra, agropecuária e energia, o impacto cumulativo dessas manifestações é notável.
Grandes Eventos Sustentáveis Buscam Reduzir Impacto Climático
Em resposta a essa conjuntura, a indústria de eventos está reestruturando suas operações. A adoção de inventários de carbono detalhados, o estabelecimento de metas públicas de redução e o desenvolvimento de programas de mitigação tornaram-se passos cruciais para alcançar a sustentabilidade. A busca por alternativas ecologicamente responsáveis, alinhada à manutenção do sucesso comercial, define a nova era dos grandes eventos sustentáveis no Brasil.
Setor Musical: Sustentabilidade em Escala Bilionária
No universo do entretenimento, empresas como a Rock World, organizadora de festivais como Rock in Rio, The Town e Lollapalooza Brasil, incorporaram as metas ambientais e sociais diretamente em sua estratégia de negócios. A envergadura desses eventos destaca a urgência das ações: a edição de 2025 do The Town, por exemplo, atraiu 420 mil pessoas, gerou 25 mil empregos temporários e injetou R$ 2,2 bilhões na economia de São Paulo. O Lollapalooza mais recente recebeu 240 mil visitantes, e o Rock in Rio 2024 acumulou aproximadamente 700 mil participantes em sete dias de festival.
A pegada de carbono do Rock in Rio, historicamente, orbita as 60 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂), com a maior parcela atribuída ao transporte do público e de equipamentos. Para enfrentar esse desafio, a Rock World investe na certificação ISO 20121, que rege os Sistemas de Gestão de Eventos Sustentáveis, para o Rock in Rio e o The Town. Letícia Freire, gerente de Sustentabilidade Operacional da companhia, enfatiza que essa certificação reflete um compromisso contínuo com a melhoria dos processos. O ponto de partida para essa governança é o mapeamento exaustivo de toda a cadeia de produção, identificando riscos e impactos envolvidos para, então, definir metas até 2030. Essas metas abrangem desde a oferta de alimentação saudável e sustentável e a garantia de segurança e bem-estar, até a formação de 100 mil pessoas por meio de cursos, o engajamento de stakeholders na política de sustentabilidade, a ampliação da inclusão e diversidade, e a maximização da reutilização, reciclagem e valorização de resíduos. Freire ressalta que essas metas não apenas visam a reduzir o impacto dos eventos, mas também a promover boas práticas em todo o setor. A sustentabilidade é um dos pilares centrais da Rock World, estando integrada em todas as diretorias e áreas, com compromissos e responsabilidades específicas para cada setor, em vez de ser uma área isolada.
Duas frentes principais atuam de forma transversal: a sustentabilidade operacional, vinculada à diretoria de operações, e a área de Talentos, pluralidade e diversidade, responsável pelas práticas sociais. As decisões sobre a agenda de ESG são orientadas pelas metas de curto, médio e longo prazo, sempre em conformidade com critérios técnicos. A companhia mantém uma parceria de longa data com a Deloitte para avaliar a maturidade ESG, definir metas e dar suporte ao inventário de emissões. Além disso, realiza auditorias e diligências em direitos humanos na cadeia de fornecedores, uma medida que ganhou destaque após o incidente trabalhista no Lollapalooza de 2023, sob organização da T4F, que expôs vulnerabilidades na terceirização de serviços.
Na dimensão climática, a mobilidade persiste como o principal entrave. Os relatórios de emissão de carbono da empresa indicam que o deslocamento do público é sempre a maior fonte de emissão, uma vez que o inventário abrange o número e tipo de viagens (aeronaves, ônibus, caminhões e veículos particulares), a origem dos participantes e o volume e proveniência de alimentos e bebidas. Freire, no entanto, reconhece que há limites estruturais para a redução direta, pois não é algo que o evento possa controlar totalmente. A gestão de resíduos enfrenta desafios semelhantes, relacionados ao comportamento do público e à reciclabilidade das embalagens. Engajar o público na separação correta dos resíduos e lidar com embalagens de difícil reciclabilidade ou baixo valor de mercado são os maiores obstáculos. Em 2025, o The Town alcançou uma taxa de desvio de aterro de 94,1% e formou mais de 33 mil pessoas através do programa RockU. No campo operacional, a Rock World adota medidas de eficiência hídrica e energética, embora reconheça as barreiras econômicas para implementar soluções como energia 100% solar ou o uso exclusivo de biodiesel, dada a incomparável dimensão de seus eventos em relação à maioria do setor.
Arenas Multiuso: Responsabilidade Compartilhada pela Sustentabilidade
Se os promotores de eventos estruturam metas ambiciosas, os locais que os recebem também passaram a ser objeto de cobrança em relação à sustentabilidade. O Allianz Parque, palco de shows, partidas de futebol e eventos corporativos, adota um modelo de responsabilidade compartilhada. A administração do local informa que a gestão dos impactos de um grande evento se divide, com a arena respondendo por uma parcela, mas o organizador detendo a autonomia e responsabilidade por decisões que geram muitos desses impactos. O consumo de água, energia e a geração de resíduos estão sob gestão direta do Allianz Parque, que em 2024 lançou seu primeiro Inventário de Gases de Efeito Estufa, agora um compromisso anual.
O estádio neutraliza as emissões de Escopo 2 (provenientes da geração de energia) através de I-RECs – certificados digitais que atestam o consumo de fontes renováveis de eletricidade. As emissões de Escopo 1 (operações diretas) são compensadas via créditos de carbono, enquanto estratégias de redução direta estão sendo estudadas. É importante notar que a pegada de carbono dos eventos individuais não é calculada separadamente, sendo o inventário focado nas emissões sob gestão da arena. O deslocamento do público e de fornecedores são considerados parte de uma cadeia de responsabilidade compartilhada.
No quesito energia, sistemas centrais de gestão (BMS) monitoram iluminação e climatização, com o estádio utilizando iluminação LED e acompanhando o consumo por pessoa, ainda sem metas formais estabelecidas. Embora a energia do edifício seja renovável, a dependência de geradores a diesel para palco e sonorização representa um desafio. A gestão da água é eficiente, com o gramado sintético exigindo baixa hidratação e o estádio aproveitando a captação de chuva para sanitários e manutenção, monitorando o consumo por pessoa.
Um dos pilares ambientais do Allianz Parque é o Compromisso Lixo Zero, que visa desviar 90% dos resíduos de aterros. O plano de gestão contempla a separação de recicláveis, orgânicos e rejeitos, com os recicláveis encaminhados para cooperativas, os orgânicos para compostagem e os rejeitos para aterro. O principal desafio é manter o padrão de separação e triagem em dias de grandes eventos, quando há um grande volume de público e de operadores terceirizados. A arena orienta os organizadores com um Manual de Boas Práticas em Sustentabilidade e promove treinamentos pré-evento com as equipes, abordando temas como saúde, segurança e responsabilidade com o entorno, incluindo a proibição de fogos de artifício com estampido.
A governança ESG é coordenada por uma área de Sustentabilidade em colaboração com equipes técnicas. Em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), um plano foi elaborado para mitigar o impacto sonoro dos shows, definindo limites contratuais de intensidade e realizando monitoramento técnico em cada evento, em resposta às demandas da vizinhança. A gestão de pessoas e fornecedores envolve a exigência de documentação técnica, treinamentos de saúde e segurança e processos padronizados de contratação, com avaliação socioambiental para contratos considerados críticos. A arena oferece canais confidenciais para denúncias e publica indicadores ambientais e sociais em seu Relatório Anual de Sustentabilidade, disponível online.
Feiras de Negócio: Foco na Gestão de Resíduos e Economia Circular
O Brasil também se destaca no segmento de feiras de negócio, que apresentam intensa movimentação. A Wine South America (WSA), evento realizado em Bento Gonçalves (RS) de 12 a 14 de maio, incorporou uma robusta agenda ESG, com especial atenção à gestão de resíduos, à compensação de carbono e a iniciativas de inclusão social, tanto no planejamento quanto na execução. A edição de 2025 atraiu mais de 7 mil compradores, expôs marcas de mais de 20 países e gerou negócios que ultrapassaram os R$ 100 milhões.
De acordo com a organização da WSA, a gestão de resíduos constitui o eixo mais estruturado de sua estratégia ESG. Todos os descartes foram direcionados para reciclagem ou reutilização – abrangendo vidro, papelão, plástico, madeira, alumínio e orgânicos – o que resultou na evitação de cerca de 26 toneladas de CO₂. Adicionalmente, a feira implementou a logística reversa para lonas e materiais gráficos, que foram doados para projetos sociais visando o reaproveitamento. Além de assegurar a destinação final adequada, a organização aprimorou a sinalização, os fluxos logísticos e a orientação aos expositores, buscando maximizar as taxas de reciclagem e minimizar o uso de descartáveis. Marcos Milanez, diretor da Wine South America, enfatiza a relevância da sustentabilidade em eventos de negócios, especialmente em setores dependentes do equilíbrio ambiental, como o vitivinícola, reiterando o compromisso de evolução contínua. O maior desafio, conforme a feira, reside nas emissões indiretas, como o deslocamento dos visitantes, um tema que será integrado ao planejamento das próximas edições. O aprendizado é claro: a sustentabilidade em eventos requer planejamento antecipado, engajamento de toda a cadeia de valor e um processo contínuo de aprimoramento.
No plano social, a WSA ampliou suas ações de inclusão, incluindo a contratação de profissionais com deficiência. Reforçou, ainda, o diálogo com fornecedores sobre condições de trabalho e boas práticas, reconhecendo que a terceirização de mão de obra pode ser um ponto sensível em eventos de grande porte.
Eventos Esportivos: Da Tradição à Vitrine Global da Sustentabilidade
As corridas de rua vivenciaram uma das mais rápidas expansões no cenário esportivo brasileiro em 2025. Dados da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO) revelam um salto impressionante no número de provas, passando de 2.827 em 2024 para 5.241 no ano passado, um aumento de 85% e o segundo ano consecutivo de crescimento recorde. No mesmo período, o número de clubes de corrida disparou 109%, quase o dobro da média global de 59%, consolidando a modalidade como uma força motriz no país, que vai além da competição, transformando-se em um estilo de vida e uma experiência coletiva para atletas profissionais e amadores. Este crescimento, no entanto, amplifica a responsabilidade ambiental dos organizadores de grandes eventos sustentáveis.
A 100ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre, uma das maiores e mais tradicionais do Brasil, reforçou sua agenda ambiental na prova do ano passado. Pela primeira vez, estruturou um processo formal e de larga escala para inventariar e compensar suas emissões, com o suporte da assessoria Green CO2 Projetos Ambientais. Realizada no último dia de 2025, a edição histórica registrou a emissão e subsequente compensação de 5.122 toneladas de carbono, por meio de uma colaboração entre a Vega Sports (organizadora do evento desde 2024), a Solví (responsável pela gestão de resíduos) e a Fundação Cásper Líbero (proprietária da corrida). Segundo os organizadores, esta foi uma das maiores compensações já realizadas pela Solví. A neutralização do gás carbônico foi efetuada através do plantio de árvores na Amazônia, embora os detalhes específicos sobre localização e número de mudas não tenham sido divulgados. Apesar de uma ação de compensação anterior em 2012, com plantio de árvores, esta edição marcou a primeira vez que o processo ocorreu com esse nível de estrutura técnica e certificação. Além da compensação de GEE, a prova gerou 6.740 quilos de resíduos, com uma taxa de reciclagem de 100%, convertendo 5.370 quilos em novos materiais recicláveis. Contudo, desafios persistem na cadeia de produção: a medalha entregue aos corredores, por exemplo, ainda não incorpora material reciclável em sua fabricação.
Ainda no esporte, o renomado Tour da Taça da Copa do Mundo da FIFA, patrocinado pela Coca-Cola no Brasil, utiliza sua plataforma global para gerar impacto social nos territórios visitados. Recentemente, a empresa de bebidas anunciou parcerias com a Aliança Empreendedora para promover ações focadas em inclusão produtiva e geração de renda. Katielle Haffner, diretora de Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, destaca que essa iniciativa de fortalecimento de microempreendedores e inclusão produtiva alinha-se ao compromisso de longo prazo da companhia com o país. Este posicionamento se conecta a programas já existentes, como o “Coca-Cola Dá um Gás no Seu Negócio”, que, conforme a empresa, já capacitou mais de 245 mil microempreendedores. Atualmente, aproximadamente 60% do mais de um milhão de pontos de venda do Sistema Coca-Cola Brasil são liderados por mulheres. O Instituto Coca-Cola Brasil também integra a iniciativa por meio da dinâmica “Jogo Coletivo – O gol é o primeiro emprego”, que aproxima jovens do programa Coletivo Coca-Cola Jovem do mercado empregador. Conduzida pelo influenciador PH Cortês, a atividade reúne esses jovens e representantes do mercado para debater os desafios do início da trajetória profissional. Daniela Redondo, diretora-executiva do Instituto Coca-Cola Brasil, ressalta a importância de levar o tema da empregabilidade a um ambiente tão simbólico, reforçando o apoio a jovens, em particular aqueles que enfrentam maiores dificuldades sociais, para que possam dar os primeiros passos no mundo do trabalho.
Na dimensão ambiental, o Tour da Taça da Copa do Mundo adota práticas como o uso de geradores movidos a biodiesel e a compensação certificada das emissões geradas durante a montagem, operação, logística e deslocamentos. As emissões são quantificadas e compensadas por meio do programa Evento Neutro, que apoia projetos socioambientais brasileiros focados em energia renovável, preservação florestal e agricultura regenerativa. O público é também incentivado a participar de ações de educação ambiental, como o descarte correto de latas em máquinas interativas instaladas nas cidades visitadas. Como estímulo, cada participante recebe uma garrafa reutilizável, o que reforça a mensagem de redução de resíduos plásticos e de consumo consciente.
Ao incorporar inventários de carbono, estabelecer metas de desvio de resíduos, exigir padrões de fornecedores e desenvolver programas de inclusão social, os grandes eventos não são mais apenas vitrines de marcas, mas se tornaram plataformas de impacto abrangente. Apesar de a escala continuar a exercer pressão ambiental significativa, especialmente no que tange a transporte e energia, a tendência, em um calendário cada vez mais intenso, é que métricas, certificações e compromissos públicos se tornem a base operacional, deixando de ser meros diferenciais de reputação para se firmarem como condições sine qua non para o funcionamento. Mais do que nunca, a demanda por grandes eventos sustentáveis redefine o futuro da indústria, equilibrando espetáculo e responsabilidade.
Confira também: Imoveis em Rio das Ostras
Fique por dentro das últimas tendências e análises do cenário de eventos, economia e sustentabilidade no Brasil. Acesse agora a editoria de Esporte e outras categorias em nosso site para continuar acompanhando essas discussões cruciais.
Crédito da Imagem: Divulgação/Rock in Rio