Grandes Eventos: Sustentabilidade e Enfrentamento Climático

Economia

A crescente demanda por métricas ambientais, transparência e responsabilidade por parte de investidores, patrocinadores e reguladores impulsionou uma nova era para a indústria de eventos. O setor agora enfrenta a tarefa de demonstrar sua capacidade de mitigar o impacto climático, preservando, ao mesmo tempo, sua vitalidade econômica e seu alcance de público. Eventos de grande porte, como festivais musicais, feiras comerciais, corridas de rua e plataformas esportivas de alcance global, historicamente figuram entre os principais geradores de gases de efeito estufa (GEE), principalmente devido à complexa logística, ao deslocamento de um grande número de pessoas e equipes, à expressiva produção de resíduos e ao intenso consumo de energia e recursos hídricos.

O calendário nacional, marcado por edições notáveis, dimensiona o desafio enfrentado. Em um ano de Copa do Mundo de Futebol, entre junho e julho, setores como bares, restaurantes, turismo e eventos temáticos registram uma intensa movimentação financeira. Já em setembro, o Rock in Rio, que em edições anteriores chegou a atrair cerca de 700 mil participantes, retorna ao Rio de Janeiro. Nos primeiros meses do ano, a programação já incluiu eventos como o Rio Open, diversas turnês internacionais de artistas renomados, a turnê da Taça da Copa do Mundo e, em março, o Lollapalooza Brasil, que atrai centenas de milhares de entusiastas ao Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Tais eventos, embora o setor não esteja entre os maiores emissores globais – uma posição ocupada no Brasil por atividades como mudança de uso da terra, agropecuária e energia –, representam um impacto ambiental notável que exige estratégias contundentes.

Grandes Eventos: Sustentabilidade e Enfrentamento Climático

A resposta da indústria tem sido proativa, com a estruturação de inventários de carbono detalhados, o estabelecimento de metas publicamente acessíveis e a implementação de programas eficazes de mitigação. A iniciativa vai além da simples conformidade, buscando incorporar a sustentabilidade em eventos como um pilar central das operações.

Entretenimento e Megafestivais: Equacionando Bilhões e Carbono

No segmento de entretenimento, as metas ambientais, sociais e de governança (ESG) consolidaram-se como parte integrante da estratégia de negócios da Rock World, responsável por festivais emblemáticos como Rock in Rio, The Town e Lollapalooza Brasil. A magnitude de cada evento reflete a dimensão do desafio de sustentabilidade: o The Town 2025 atraiu 420 mil pessoas, gerou 25 mil empregos temporários e injetou R$ 2,2 bilhões na economia de São Paulo; o Lollapalooza, em sua última edição, recebeu 240 mil participantes; e o Rock in Rio 2024 acumulou cerca de 700 mil participantes ao longo de sete dias. Historicamente, o Rock in Rio tem uma pegada de carbono que se aproxima das 60 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂), majoritariamente impulsionada pelo transporte do público e de todos os equipamentos necessários para as estruturas gigantescas.

Para assegurar uma governança robusta, a empresa optou pela certificação ISO 20121, referente a Sistemas de Gestão de Eventos Sustentáveis, para o Rock in Rio e o The Town. “A certificação ISO 20121 atesta o compromisso com a melhoria contínua de nossos processos”, destaca Letícia Freire, gerente de Sustentabilidade Operacional da companhia. Freire explica que o ponto de partida é o mapeamento minucioso de toda a cadeia produtiva para identificar riscos e impactos envolvidos. Com base nesse diagnóstico, foram delineadas metas até 2030, que abrangem desde a oferta de alimentação saudável e sustentável, garantia de segurança e bem-estar dos participantes, formação profissional de 100 mil pessoas, engajamento de todos os stakeholders na política de sustentabilidade, até a ampliação da inclusão e diversidade e a reutilização, reciclagem e valorização de resíduos. “Nossas metas refletem não apenas a redução dos impactos, mas também a adoção de boas práticas para o setor de eventos”, comenta Letícia Freire, reforçando que, a cada edição, os processos são revistos e novas medidas são estabelecidas.

A executiva enfatiza que a sustentabilidade é um pilar intrínseco à Rock World, permeando todas as diretorias com compromissos específicos. Duas frentes operam de forma transversal: sustentabilidade operacional, ligada à diretoria de operações, e Talentos, Pluralidade e Diversidade, responsável pelas práticas sociais. As decisões da agenda ESG são tomadas com base em metas de curto, médio e longo prazo, alinhadas a critérios técnicos. A companhia mantém uma colaboração estratégica com a Deloitte para avaliação da maturidade ESG e inventário de emissões, além de auditorias rigorosas em direitos humanos na cadeia de fornecedores, uma frente que ganhou centralidade após um escândalo trabalhista no Lollapalooza em 2023, sob a antiga organização da T4F, o que gerou um alerta no setor sobre a terceirização.

No âmbito climático, a mobilidade emerge como o principal desafio. “De acordo com nossos relatórios, o deslocamento do público é sempre a maior vertente de emissão”, afirma Letícia. O inventário considera dados detalhados como número e tipo de viagens (aviões, ônibus, caminhões, carros), a origem dos participantes, e o volume e procedência de alimentos e bebidas. Trata-se de um esforço coletivo que exige o fornecimento de dados por toda a equipe após cada evento. Contudo, ela reconhece limitações estruturais, afirmando que a questão da mobilidade não é algo que o evento possa reduzir diretamente. Na gestão de resíduos, os desafios incluem a dificuldade de engajar o público na separação correta e a existência de embalagens de alimentos e bebidas que carecem de reciclabilidade ou valor de mercado. Em 2025, o The Town registrou uma taxa de desvio de aterro de 94,1% e a formação de mais de 33 mil pessoas pelo programa RockU. Em termos operacionais, a empresa implementa medidas de eficiência hídrica e energética, mas reconhece barreiras econômicas para soluções como energia 100% solar ou o uso exclusivo de biodiesel, dada a dimensão incomparável dos seus eventos em relação à maioria, o que as tornaria inviáveis economicamente.

Arenas Multiuso: Responsabilidade Compartilhada por Impacto e Legado

Se os promotores de eventos estruturam metas ambiciosas, o local que os sedia também tem sido igualmente cobrado. No caso do Allianz Parque, palco de shows, partidas de futebol e eventos corporativos em São Paulo, a responsabilidade pela sustentabilidade é partilhada. “O local é responsável pela gestão de parte dos impactos, mas o organizador detém a autonomia e a responsabilidade pelas decisões sobre muitos elementos que podem gerar impactos”, explicou a administração. Os impactos ambientais sob gestão direta incluem o consumo de água, energia e a geração de resíduos. Em 2024, a arena publicou seu primeiro Inventário de Gases de Efeito Estufa, agora com periodicidade anual, refletindo seu compromisso com a transparência e a mitigação. Atualmente, a neutralização de emissões de Escopo 2 (provenientes da geração de energia) é realizada via I-RECs – certificados digitais que atestam o consumo de energia elétrica de fontes renováveis – e as emissões de Escopo 1 (operações diretas) são compensadas por créditos de carbono, enquanto se analisam estratégias para uma redução direta e mais eficaz. A pegada de carbono específica de cada evento, no entanto, não é calculada individualmente, já que o inventário abrange as emissões sob a gestão da arena, enquanto o deslocamento de público e fornecedores faz parte de uma cadeia de responsabilidade compartilhada.

No consumo de energia, sistemas centrais de gestão (BMS) monitoram a iluminação e a climatização do estádio. O uso de iluminação LED e o acompanhamento do consumo por pessoa são práticas já implementadas, embora ainda sem uma meta formal. A energia do edifício provém de fontes renováveis, mas palco e sonorização, por exemplo, ainda dependem de geradores a diesel. Em relação à água, o gramado sintético exige hidratação mínima, e o estádio aproveita a captação de água da chuva para uso em sanitários e manutenção do campo, com o consumo também sendo monitorado por pessoa. Uma das metas ambiciosas é o “Compromisso Lixo Zero”, visando desviar 90% dos resíduos de aterros. O plano de gestão estabelece a separação de recicláveis, orgânicos e rejeitos: os recicláveis são direcionados a cooperativas, os orgânicos para compostagem e os rejeitos, inevitavelmente, para aterro sanitário. O grande desafio, conforme a administração, reside na manutenção dos padrões de separação e triagem em dias de grandes espetáculos, quando o fluxo de público e a quantidade de operadores terceirizados aumentam exponencialmente. A arena orienta os organizadores de eventos através de um Manual de Boas Práticas em Sustentabilidade e promove treinamentos pré-evento com as equipes, abordando aspectos de saúde, segurança e cuidados com o entorno, incluindo a proibição de fogos com estampido, prática ruidosa que perturba a vizinhança.

A governança ESG no Allianz Parque é coordenada por uma área de Sustentabilidade, em estreita colaboração com as equipes técnicas. Com o apoio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), um plano específico foi elaborado para mitigar o impacto sonoro dos shows, estabelecendo limites contratuais de intensidade e monitoramento técnico rigoroso em cada apresentação, o que representa uma resposta direta às preocupações da comunidade vizinha. Na gestão de pessoas e fornecedores, a arena exige documentação técnica detalhada, treinamentos de saúde e segurança, e processos de contratação padronizados, com avaliações socioambientais para contratos críticos. Canais confidenciais para denúncias são mantidos, e indicadores ambientais e sociais são acompanhados e divulgados anualmente no Relatório de Sustentabilidade, disponível no site do complexo, que pode ser acessado em fontes governamentais que publicam dados de inventários de emissões de GEE.

Feiras de Negócios: Otimizando Resíduos e Promovendo a Economia Circular

As feiras de negócios representam outro segmento vibrante no cenário de eventos do Brasil. A Wine South America (WSA), que ocorreu em Bento Gonçalves (RS) de 12 a 14 de maio, exemplifica essa tendência ao estruturar sua agenda ESG com foco prioritário na gestão de resíduos, na compensação de carbono e em ações concretas de inclusão social, desde o planejamento até a execução. Em sua edição de 2025, a WSA reuniu mais de 7 mil compradores, expôs marcas de mais de 20 países e gerou mais de R$ 100 milhões em volume de negócios. Segundo os organizadores, a gestão de resíduos constitui a frente mais consolidada da estratégia ESG do evento. Todo o material descartado foi meticulosamente destinado à reciclagem ou à reutilização, abrangendo vidro, papelão, plástico, madeira, alumínio e resíduos orgânicos, o que resultou na impressionante prevenção de aproximadamente 26 toneladas de CO₂. Além disso, a feira implementou a logística reversa para lonas e materiais gráficos, que foram doados para reaproveitamento em projetos sociais. A organização da WSA destaca que, além da destinação final adequada, houve aprimoramento na sinalização, nos fluxos logísticos e na orientação aos expositores, tudo para maximizar as taxas de reciclagem e minimizar o uso de descartáveis. “A sustentabilidade é um pilar essencial na estratégia de eventos de negócios, especialmente em setores intrinsecamente ligados ao equilíbrio ambiental, como o vitivinícola. Nosso compromisso é com a evolução contínua, assumindo responsabilidades que vão muito além da realização da feira”, afirma Marcos Milanez, diretor da Wine South America.

O maior desafio identificado pela feira reside nas emissões indiretas, notadamente o deslocamento dos visitantes, um tema que passou a ser formalmente incorporado ao planejamento das próximas edições. O principal aprendizado, de acordo com a organização, é que a sustentabilidade em eventos exige um planejamento meticuloso e antecipado, um engajamento contínuo de toda a cadeia de valor e um processo de melhoria constante. No plano social, a WSA ampliou suas ações de inclusão com a contratação de profissionais com deficiência e reforçou o diálogo com seus fornecedores sobre as condições de trabalho e as melhores práticas, reconhecendo que a terceirização de mão de obra pode ser um ponto sensível em eventos de grande porte.

Esporte: Da Corrida Centenária à Vitrine de Consciência Global

As corridas de rua vivenciaram em 2025 um dos mais acelerados ciclos de expansão esportiva no Brasil. Um levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO) revelou que o número de provas aumentou de 2.827 em 2024 para 5.241 no ano passado, representando uma alta de 85% e o segundo ano consecutivo de mapeamento nacional. No mesmo período, o número de clubes de corrida cresceu 109%, quase o dobro da média mundial de 59%, solidificando a modalidade como uma das mais dinâmicas do país e reforçando seu papel não apenas como competição, mas como estilo de vida e experiência coletiva que atrai desde atletas profissionais até praticantes ocasionais. No entanto, esse crescimento exponencial também amplifica a responsabilidade ambiental dos organizadores, exigindo uma maior dedicação à sustentabilidade em eventos esportivos.

A 100ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre, por exemplo, uma das maiores e mais tradicionais provas de rua do Brasil, priorizou a agenda ambiental em 2025. Pela primeira vez, a corrida estruturou um processo formal de inventário e compensação de emissões em larga escala, com o apoio da assessoria Green CO2 Projetos Ambientais. Realizada no último dia de 2025, a edição histórica registrou a emissão e a compensação de 5.122 toneladas de carbono, por meio de uma parceria estratégica entre a Vega Sports, que assumiu a organização do evento em 2024, a Solví, responsável pela gestão de resíduos, e a Fundação Cásper Líbero, proprietária da corrida. Segundo os organizadores, essa ação configura-se como um dos maiores eventos já compensados pela Solví. A neutralização das emissões de gás carbônico foi realizada através do plantio de árvores na Amazônia, um esforço que, apesar de uma ação de compensação prévia em 2012 com plantio de árvores, desta vez alcançou um novo patamar de estrutura técnica e certificação. Além das emissões de GEE, a prova gerou 6.740 quilos de resíduos, dos quais 100% foram reciclados, com 5.370 quilos transformados em novos materiais. Contudo, desafios persistiram na cadeia de produção do evento, como o fato de a medalha entregue aos corredores ainda não ser fabricada com conteúdo de material reciclável.

No universo esportivo, o tradicional Tour da Taça da Copa do Mundo da FIFA, apresentado pela Coca-Cola no Brasil, emprega sua plataforma global para gerar um impacto social positivo nos territórios visitados. A gigante de bebidas anunciou ações estratégicas focadas na inclusão produtiva e na geração de renda, em parceria com a Aliança Empreendedora. Katielle Haffner, diretora de Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, afirmou que o uso da plataforma global para fortalecer microempreendedores e fomentar a inclusão produtiva está alinhado ao compromisso de longo prazo da empresa com o país. Esse posicionamento integra-se a programas já existentes, como o Coca-Cola Dá um Gás no Seu Negócio, que, de acordo com a empresa, já capacitou mais de 245 mil microempreendedores. Atualmente, aproximadamente 60% dos mais de um milhão de pontos de venda do Sistema Coca-Cola Brasil são liderados por mulheres. O Instituto Coca-Cola Brasil também contribui com a iniciativa por meio da dinâmica “Jogo Coletivo – O gol é o primeiro emprego”, que estabelece uma ponte entre o universo do futebol e a empregabilidade jovem. O Tour da Taça da Copa do Mundo da FIFA da Coca-Cola visitará 30 países-membros da FIFA, com 75 paradas em todo o mundo, consolidando a marca como promotora de sustentabilidade em eventos internacionais.

A atividade, conduzida pelo influenciador PH Cortês, reúne jovens do Coletivo Coca-Cola Jovem e representantes do mercado empregador para debater os obstáculos iniciais da trajetória profissional. “Levar o tema da empregabilidade para esse ambiente simbólico reforça nosso compromisso em apoiar jovens, especialmente aqueles que enfrentam maiores desafios sociais, para que possam dar o primeiro passo no mundo do trabalho”, comenta Daniela Redondo, diretora-executiva do Instituto Coca-Cola Brasil. Na esfera ambiental, o Tour da Taça implementa práticas como o uso de geradores movidos a biodiesel e a compensação certificada das emissões geradas durante todas as fases do evento: montagem, operação, logística e deslocamentos. As emissões são cuidadosamente quantificadas e compensadas por meio do programa Evento Neutro, que apoia projetos socioambientais brasileiros voltados para energia renovável, preservação florestal e agricultura regenerativa. O público é ativamente incentivado a participar de ações de educação ambiental, como o descarte consciente de latas em máquinas interativas instaladas nas cidades visitadas. Como um estímulo adicional, cada participante recebe uma garrafa reutilizável, amplificando a mensagem de redução de resíduos plásticos e o consumo responsável. Tais iniciativas demonstram a evolução das ações de sustentabilidade em eventos de grande envergadura.

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Ao integrar inventários de carbono robustos, estabelecer metas claras de desvio de resíduos, aplicar exigências contratuais rigorosas a fornecedores e implementar programas consistentes de inclusão, os grandes eventos transformaram-se em verdadeiras plataformas de impacto – não meras vitrines de marcas. Embora a escala inerente continue a gerar uma pressão ambiental relevante, principalmente no transporte e na demanda energética, o cenário indica uma clara tendência: as métricas, certificações e compromissos públicos de sustentabilidade em eventos deixarão de ser meros diferenciais reputacionais para se tornarem, progressivamente, uma condição básica e indispensável para operar no setor. Para mais análises sobre como as cidades e grandes eventos se adaptam a estas exigências, continue acompanhando nossa editoria de Cidades.

Crédito da imagem: Divulgação/Rock in Rio

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