90% dos Cuidadores Informais no Brasil São Mulheres

Educação

A preponderância feminina no trabalho do cuidado não remunerado é um fenômeno social profundamente enraizado, e um recente estudo demonstra que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres. Esta realidade, que se estende por todo o globo, coloca em evidência a sobrecarga desproporcional imposta ao gênero feminino, conforme pesquisa realizada por acadêmicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já indicavam que as mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais adicionais em relação aos homens em atividades domésticas e de cuidado. Isso se traduz em mais de mil horas anuais de um trabalho essencial para a manutenção da sociedade, porém, majoritariamente invisível e desvalorizado, conforme análise da pesquisadora Valquiria Elita Renk.

90% dos Cuidadores Informais no Brasil São Mulheres: A Realidade e seus Impactos

O estudo da PUCPR revela que, entre os cuidadores informais, filhas, cônjuges e netas compõem a maior parte, com uma idade média de 48 anos. A pesquisadora Valquiria Elita Renk, professora do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da PUCPR e coautora do trabalho, enfatiza que esta realidade tem um impacto direto e negativo na vida profissional e acadêmica de mulheres e meninas. Muitas abrem mão dos estudos ou de suas carreiras para se dedicarem a esta tarefa contínua, que raramente tem um fim. Renk argumenta que o trabalho do cuidado possui um forte viés cultural no Brasil, naturalizando a atribuição dessas responsabilidades às mulheres.

A Sobrecarga do Cuidado: Um Trabalho Sem Fim

Valquiria Renk destaca que o cuidado vai muito além da administração de medicamentos, alimentos ou higiene. Ele envolve uma complexa teia de relações afetivas, sendo um trabalho exaustivo e “full time”, por vezes 24 horas por dia, que não tem fim. A pesquisadora ressalta a urgência do reconhecimento social e da compensação financeira para essas mulheres, garantindo que o período dedicado ao cuidado seja contabilizado para a aposentadoria, mitigando a profunda sobrecarga que vivenciam.

O panorama que emerge para as mulheres cuidadoras é de cansaço crônico, solidão e desamparo. O estudo da PUCPR mostrou que as cuidadoras, muitas vezes, sentem-se sozinhas, exaustas e até depressivas, com pouco ou nenhum tempo para autocuidado, priorizando sempre as necessidades alheias. Esta “ética da responsabilidade” internalizada perpetua a ideia de que a mulher deve, prioritariamente, cuidar do outro. É um trabalho vital que ninguém quer fazer, e que as mulheres executam “no silêncio de suas casas”, como descreve Renk, mantendo “a engrenagem social funcionando”. As donas de casa, por exemplo, são constantemente cuidadoras, garantindo o bem-estar da família. Para mais informações sobre o panorama do trabalho não remunerado, consulte dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Perfil das Cuidadoras Informais e a “Geração Sanduíche”

A pesquisa envolveu a realização de 18 entrevistas com mulheres residentes em áreas urbanas e rurais dos estados do Paraná e Santa Catarina. As participantes dedicam seu tempo ao cuidado de familiares idosos, doentes ou com deficiência. Os resultados delinearam um perfil de mulheres que sacrificam seu descanso e lazer. Quando questionadas sobre o motivo de sua dedicação ininterrupta, a resposta recorrente era a de que “é minha obrigação”.

A análise da relação de parentesco entre as participantes e as pessoas cuidadas revelou que a maioria são filhas (68%), esposas (21%), ou netas e irmãs (5%). Em termos de faixa etária, a predominância é de adultas entre 41 e 60 anos (43%), seguidas por idosas com mais de 60 anos (37%) e jovens adultas, com idade entre 21 e 30 anos (22%). O nível de escolaridade das entrevistadas apresenta diversidade: 58% cursaram o ensino fundamental, 30% possuem curso superior e 11% completaram o ensino médio.

Quanto às profissões, observou-se uma variação: 32% são agricultoras, 26% atuam no mercado de trabalho formal (como funcionária pública, administradora, cabeleireira, entre outras), 26% são aposentadas, 11% se dedicam exclusivamente ao lar e 5% são estudantes. Deste grupo, um número expressivo de 61% afirmou ter interrompido suas atividades laborais para se dedicarem integralmente ao cuidado de um familiar, sendo essa uma realidade para todas as agricultoras que participaram do estudo. As conclusões reforçam a profunda dedicação exigida no contexto do trabalho de cuidado e como ele interfere diretamente na trajetória profissional dessas mulheres.

A sobrecarga é ainda mais severa para a chamada “Geração Sanduíche”: mulheres que precisam equilibrar, simultaneamente, o trabalho formal remunerado, a gestão doméstica e o cuidado com filhos, marido e pais idosos. A Dra. Renk questiona: “Onde essa mulher vai se ancorar?” Esta múltipla jornada de trabalho, por vezes consistindo em duas de quase cinco horas cada, é um desafio complexo e angustiante para as cuidadores informais mulheres, deixando-as com pouco ou nenhum suporte.

Ações e Políticas Públicas de Apoio: Comparativos e Projeções

Enquanto a questão do cuidado informal permanece em grande parte negligenciada no Brasil – onde a Política Nacional do Cuidado foi instituída apenas no final de 2024 e ainda está em fase de implementação, classificada como “tímida” pela pesquisadora – outros países já avançaram na criação de mecanismos de suporte robustos para as mulheres cuidadoras. Na Finlândia e Dinamarca, por exemplo, a municipalidade custeia assistentes domésticos. França, Áustria, Alemanha e Holanda também subsidiam certos serviços de assistência.

No Reino Unido e Irlanda, o Estado compensa a perda de renda das pessoas que prestam assistência a um familiar. A Espanha possui a Lei de Promoção da Autonomia Pessoal e Atenção às pessoas em situação de dependência, que contempla a compensação econômica para cuidadores familiares. Na América do Sul, o Uruguai inovou com uma legislação que permite aposentadoria precoce para mulheres que atendem a um número limite de filhos, um reconhecimento implícito do extenso trabalho de cuidado parental que é historicamente desempenhado.

No contexto jurídico brasileiro, Valquiria Renk vislumbra uma “luzinha no fim do túnel” com recentes decisões de divórcio e separação onde juízes determinam que ex-maridos paguem pelo tempo que as ex-mulheres dedicaram ou dedicarão ao cuidado dos filhos. Este é um pequeno, mas significativo passo rumo ao reconhecimento da dimensão econômica e social do trabalho de cuidado, abrindo precedentes importantes para as futuras políticas.

Educação e Mudança Cultural: O Caminho para a Equidade

As coautoras do estudo, Ana Silvia Juliatto Bordini e Sabrina P. Buziquia, reforçam que o trabalho do cuidador é vital, mas sua naturalização excessiva transfere toda a responsabilidade às mulheres. O estudo sugere que é fundamental um esforço educacional e de conscientização, direcionado a meninos e meninas desde cedo, para que a divisão das tarefas domésticas e de cuidado seja equitativa nas famílias. Esta nova geração, conscientizada sobre a responsabilidade mútua, poderá promover uma profunda mudança cultural.

A educação, vista como um processo humanitário e de transformação social, pode ser a chave para evitar que a sobrecarga do cuidado continue recaindo predominantemente sobre as mulheres. É preciso que a sociedade e as próprias famílias assumam a responsabilidade compartilhada, compreendendo que o cuidado exaustivo de filhos, cônjuges ou idosos é um papel social fundamental que merece ser dividido por todos os seus membros.

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A pauta da mulher cuidadora informal, seu reconhecimento social e o apoio via políticas públicas, permanece crucial para a construção de uma sociedade mais justa e equilibrada. Compreender e endereçar a sobrecarga dessas mulheres é um imperativo social. Para aprofundar-se em questões relevantes sobre política e impacto social no Brasil, continue explorando nossas análises e reportagens na editoria de Política.

Crédito da imagem: Frame/TV Brasil

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