Minas Gerais lidera em áreas urbanizadas em alta declividade, ou seja, construções situadas em encostas íngremes que representam um perigo considerável para seus moradores. Este dado alarmante foi divulgado pelo MapBiomas na última quarta-feira, 4 de março de 2026, como parte do Mapeamento Anual das Áreas Urbanizadas no Brasil, que oferece um panorama da ocupação do solo nacional. A pesquisa revela um crescimento acelerado da urbanização em terrenos com alto risco geológico, intensificando a vulnerabilidade das populações.
A situação no estado é particularmente crítica, com quase 14,5 mil hectares de áreas ocupadas por pessoas vivendo em condições de risco, em meio a locais de inclinação acentuada. Essa extensão é significativamente vasta, superando a área de diversos campos de futebol profissionais, uma vez que cada hectare equivale a 10 mil metros quadrados. Tal cenário é especialmente preocupante à luz de eventos recentes, como as fortes chuvas que, na semana anterior à divulgação do estudo, ceifaram a vida de 72 pessoas e deixaram um desaparecido em diversas localidades de Minas Gerais, evidenciando a fragilidade das construções em áreas de risco.
Minas Gerais Lidera em Áreas Urbanas de Encostas Íngremes
Além de Minas Gerais, outros estados brasileiros também exibem vastas regiões urbanizadas em terrenos inclinados. O Rio de Janeiro, por exemplo, conta com mais de 8,5 mil hectares sob essa condição. São Paulo apresenta cerca de 8,1 mil hectares, e Santa Catarina totaliza aproximadamente 3,7 mil hectares. Estes números reforçam a tese de que a ocupação desordenada de encostas íngremes é um problema de dimensão nacional, demandando atenção e planejamento urbano emergenciais em várias regiões do país.
No âmbito municipal, a cidade de Juiz de Fora, localizada na Zona da Mata mineira e severamente afetada pelas chuvas recentes com 65 óbitos, ocupa a terceira posição nacional em área urbanizada em declive. Em 2024, a cidade possuía 1.256 hectares construídos em locais onde a inclinação do terreno amplifica o perigo de deslizamentos. As duas primeiras posições são ocupadas por capitais: o Rio de Janeiro lidera com 1,7 mil hectares, seguido por São Paulo, com 1,5 mil hectares, evidenciando que os grandes centros urbanos também enfrentam desafios significativos nesse quesito.
Crescimento Acelerado do Risco Urbano
O estudo do MapBiomas, que abrange dados dos últimos 40 anos de ocupação das cidades, aponta para uma tendência alarmante: a expansão de áreas de risco tem ocorrido em um ritmo substancialmente mais rápido do que a urbanização geral no Brasil. Enquanto a área urbana total do país cresceu 2,5 vezes no período analisado, a ocupação de terrenos inclinados, propícios a desastres, mais que triplicou. Isso sublinha uma prioridade que deveria ser foco da agenda pública.
Especificamente, entre 1985 e 2024, a área urbanizada no Brasil saltou de 1,8 milhão de hectares para 4,5 milhões de hectares. Esse crescimento equivale a cerca de 70 mil hectares anualmente, dimensão comparável à de uma cidade de porte médio sendo adicionada ao mapa urbano a cada ano. Simultaneamente, as áreas construídas em regiões com acentuada declividade e suscetibilidade a erosões e deslizamentos aumentaram de 14 mil hectares em 1985 para 43,4 mil hectares em 2024, ilustrando o intensificado risco que milhões de brasileiros enfrentam diariamente. Para mais detalhes sobre os dados e metodologias, consulte os relatórios oficiais do MapBiomas.
Mayumi Hirye, coordenadora do estudo do MapBiomas, enfatiza que o contexto das mudanças climáticas e a frequência crescente de episódios extremos são fatores inadiáveis a serem incorporados no planejamento da expansão urbana. “Essas mudanças impactam a todos, mas atingem de maneira mais severa as áreas sensíveis e vulneráveis, cuja ocupação tem progredido em ritmo mais acelerado do que o da urbanização como um todo”, alerta a especialista, sublinhando a urgência de uma abordagem estratégica e sustentável para o desenvolvimento urbano no Brasil.

Imagem: Tânia Rego via agenciabrasil.ebc.com.br
Ameaça Próxima a Rios e Córregos
Além das encostas íngremes, a pesquisa também destaca outro fator de exposição a desastres naturais: a proximidade de rios e córregos, regiões que historicamente servem como drenagem natural das cidades. Em 2024, os pesquisadores identificaram 1,2 milhão de hectares de áreas urbanas brasileiras que exibem maior probabilidade de inundações devido a essa característica geográfica. A relação das cidades com seus recursos hídricos é vital, mas se transforma em risco extremo com a ocupação inadequada das várzeas e margens.
O estado do Rio de Janeiro se destacou novamente, liderando em 2024 a lista de territórios urbanos com risco acentuado pela proximidade a áreas de drenagem natural, totalizando 108,2 mil hectares nessa condição. No período de 40 anos, a ocupação de áreas com essa particularidade no território fluminense praticamente dobrou, demonstrando uma tendência de agravamento da situação. Rondônia também apresentou um crescimento expressivo: as construções em áreas adjacentes à drenagem natural mais que duplicaram, passando de 7,3 mil hectares em 1985 para 18,8 mil hectares em 2024.
O engenheiro ambiental Edmilson Rodrigues, também do MapBiomas, aponta que “historicamente, as cidades foram estabelecidas junto a corpos d’água”. Contudo, ele ressalta que “as mudanças climáticas amplificam os riscos associados a essa proximidade”. Ele conclui alertando: “Diante do aumento dos eventos extremos e da multiplicidade de funções exercidas por áreas de várzea e planícies alagáveis, é imprescindível monitorar a expansão das áreas urbanizadas nas margens fluviais, visando a preservação ambiental e a garantia da qualidade de vida para a população”.
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Os dados apresentados pelo MapBiomas sublinham a urgente necessidade de revisão das políticas de uso e ocupação do solo, com foco na resiliência e na adaptação às mudanças climáticas. O cenário revelado para Minas Gerais e para o Brasil como um todo exige ações coordenadas para proteger vidas e garantir um desenvolvimento urbano mais seguro e sustentável. Continue acompanhando a cobertura completa em nossa editoria de Cidades para ficar por dentro dos desdobramentos sobre planejamento urbano, meio ambiente e as estratégias para mitigar os riscos em nosso território.
Crédito da imagem: Tania Rego/ Agência Brasil; Rovena Rosa/Agência Brasil

