Crescimento de Favelas: Áreas Quase Triplicam em 40 Anos

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Um levantamento abrangente conduzido pelo Mapeamento Anual das Áreas Urbanizadas no Brasil, realizado pelo MapBiomas e divulgado nesta quarta-feira (4), revelou um panorama preocupante sobre o avanço de assentamentos informais. Os dados indicam que o crescimento de favelas no território nacional foi significativamente maior que o de áreas urbanas de modo geral ao longo das últimas quatro décadas, sinalizando uma transformação estrutural no perfil das cidades brasileiras e na forma como o espaço é ocupado pela população.

De acordo com os achados do estudo, essas áreas ocupam atualmente uma extensão de 92,3 mil hectares, um indicativo claro da intensificação da urbanização desordenada. Em uma análise comparativa, as favelas do Brasil registraram uma expansão notável no período avaliado, expandindo-se para se tornarem 2,75 vezes maiores do que eram em seu ponto de partida. Esse ritmo contrasta com o crescimento das cidades como um todo, que aumentaram sua extensão em 2,5 vezes no mesmo intervalo.

Crescimento de Favelas: Áreas Quase Triplicam em 40 Anos

A pesquisa detalha que o aumento da área ocupada por favelas ocorreu entre 1985 e 2024. Nesse intervalo de quase 40 anos, a área urbana de favelas saltou de aproximadamente 53,7 mil hectares para impressionantes 146 mil hectares. Esse incremento volumoso sublinha a magnitude do desafio habitacional e de infraestrutura que muitas localidades enfrentam. É uma expansão que vai além do mero adensamento populacional, mas reflete uma profunda transformação socioespacial nas periferias das grandes cidades e, em muitos casos, nas áreas centrais.

No que tange à regionalização desse crescimento, a cidade de Manaus se destacou como a capital brasileira onde a proliferação das favelas foi mais acentuada em relação a outras porções de seu território urbano. A área destinada a essas habitações informais na capital do Amazonas apresentou uma ampliação de 2,6 vezes no período. Tal concentração sugere pressões específicas na região metropolitana de Manaus, relacionadas ao fluxo migratório e à capacidade de absorção formal do crescimento demográfico.

O estudo do MapBiomas ressaltou também que a dinâmica de expansão de assentamentos precários foi mais vigorosa nas regiões metropolitanas do país. Até 2024, esses grandes conglomerados urbanos abrigavam a maior parte, precisamente 82%, das áreas urbanizadas classificadas como favelas. Isso reforça a tese de que os centros urbanos mais dinâmicos, que atraem população em busca de oportunidades, são também os locais onde as desigualdades sociais e os desafios de moradia se manifestam de forma mais intensa.

Júlio Pedrassoli, geógrafo e coordenador do Mapiomas, comentou sobre os dados alarmantes. Segundo ele, a taxa de crescimento das favelas, que superou a média nacional de expansão urbana, combinada com a concentração desses assentamentos em regiões metropolitanas, aponta para uma “tendência conhecida e preocupante”. Pedrassoli complementa que, embora as metrópoles concentrem significativa riqueza e gerem oportunidades, elas igualmente intensificam “problemas estruturais”, criando um desequilíbrio social visível no desenvolvimento urbano. Acompanhe mais análises do MapBiomas e seus mapeamentos em MapBiomas Brasil, fonte essencial para a compreensão da transformação do uso da terra no país.

Em um cenário de “mudanças climáticas em curso”, como enfatizado por Pedrassoli, a questão assume uma criticidade ainda maior. As favelas, frequentemente localizadas em áreas de risco como encostas, margens de rios e regiões alagadiças, são particularmente vulneráveis a eventos extremos, como inundações e deslizamentos, com impactos diretos sobre a vida e a segurança de milhões de pessoas. A ausência de planejamento urbano adequado e a ocupação irregular agravam cenários de crise, exigindo ações urgentes por parte do poder público e da sociedade civil organizada.

Dentre as regiões metropolitanas que abrigam as maiores extensões de áreas urbanizadas em favelas, destacam-se São Paulo (SP), com aproximadamente 11,8 mil hectares; Manaus (AM), que totaliza 11,4 mil hectares; e Belém (PA), registrando cerca de 11,3 mil hectares. Esses números colocam essas metrópoles no epicentro da discussão sobre a urbanização e o direito à moradia digna. As particularidades de cada uma dessas regiões geográficas demonstram a diversidade de contextos nos quais o crescimento de favelas ocorre, desde cidades com vastas florestas circundantes a megalópoles industrializadas.

Crescimento de Favelas: Áreas Quase Triplicam em 40 Anos - Imagem do artigo original

Imagem: Tânia Rêgo via agenciabrasil.ebc.com.br

No detalhamento por favela específica, o Distrito Federal abriga os assentamentos que mais cresceram entre 1985 e 2024. Esse aumento posicionou duas comunidades da região, Sol Nascente e 26 de Setembro, como a primeira e segunda maiores favelas do Brasil. A Sol Nascente atinge uma área de 599 hectares, enquanto a 26 de Setembro ocupa 577 hectares. O crescimento desses complexos em um polo político e econômico como o Distrito Federal evidencia que o fenômeno da favelização transcende especificidades econômicas regionais, representando um desafio transversal no planejamento territorial.

Desafios na Segurança Hídrica das Cidades Brasileiras

O Mapeamento Anual das Áreas Urbanizadas no Brasil, do MapBiomas, também trouxe à luz questões críticas relacionadas à segurança hídrica das cidades. Além do notável crescimento de favelas, o estudo indicou que uma parcela significativa das áreas urbanizadas no país expandiu-se sobre territórios vulneráveis em relação à capacidade de abastecimento de água. Mais especificamente, 25% das áreas naturais convertidas em espaço urbano estão localizadas em regiões onde a disponibilidade hídrica para as populações já é considerada crítica. Este fato revela um preocupante descompasso entre a expansão urbana e o planejamento dos recursos essenciais para a sobrevivência das cidades.

O montante total dessas áreas críticas urbanizadas alcança a marca de cerca de 167,5 mil hectares, englobando territórios em impressionantes 1.325 municípios brasileiros. Tal amplitude demonstra que a problemática não se restringe a localidades específicas, mas é um desafio de alcance nacional que impacta inúmeras comunidades. A metrópole do Rio de Janeiro é a que concentra a maior área urbanizada em condições mínimas de segurança hídrica. Na capital fluminense, 7,6 mil hectares adicionais foram urbanizados em áreas nessas condições ao longo dos mesmos 40 anos avaliados, tornando a situação ainda mais complexa em uma cidade que já lida com extensas favelas.

A conclusão de Pedrassoli sobre a questão da água é enfática: existe um claro descompasso entre a velocidade do crescimento urbano e a disponibilidade de recursos hídricos. Para ele, a presença de 1.325 municípios que viram sua mancha urbana expandir-se nessas condições de fragilidade hídrica demonstra que a questão é profundamente “estrutural e nacional”, indo muito além de uma simples gestão de risco. A integração entre políticas de uso e ocupação do solo e estratégias de gestão de recursos hídricos é, portanto, indispensável para garantir o futuro e a sustentabilidade das cidades brasileiras frente a esse quadro complexo.

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Em síntese, o levantamento do MapBiomas oferece um panorama detalhado e alarmante da transformação urbana do Brasil, com um expressivo crescimento de favelas e graves desafios na gestão da água. Para continuar a explorar temas relacionados à urbanização, desigualdade e planejamento territorial, visite nosso portal e confira outros artigos sobre os desafios da urbanização brasileira. Aprofunde-se na cobertura sobre Cidades e acompanhe as análises mais recentes.

Crédito da imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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