A **Ilha do Ferro**, um encantador povoado ribeirinho em Alagoas, consolidou-se como um efervescente polo de arte popular, atraindo olhares de colecionadores, curadores e entusiastas da cultura. Situado às margens do Rio São Francisco, este lugar de aproximadamente 500 habitantes, integrante do município de Pão de Açúcar, é um testemunho vivo da criatividade e talento local, onde a arte floresce em praticamente todas as residências.
Distante cerca de 250 km de Maceió, a paisagem da caatinga ganha novas cores e narrativas graças à atuação de artistas autodidatas, cujas obras capturam a essência da vida ribeirinha com sagacidade e humor. A fama do local, que cresce de boca em boca, destaca não apenas as peças individuais, mas também um conjunto arquitetônico peculiar, marcado por fachadas com platibandas de meados do século XX e vibrantes placas pintadas.
Ilha do Ferro: De Povoado Simples a Polo de Arte Popular
Entre os nomes que projetaram a Ilha do Ferro no cenário artístico nacional está Roxinha Lisboa, uma pintora de 72 anos cuja arte transcendeu as fronteiras alagoanas. Conhecida por suas telas e murais que exibem cenas cotidianas e flertes reminiscentes de telenovelas, Roxinha iniciou sua jornada artística após uma vida dedicada à agricultura e ao serviço como gari por quase duas décadas. Suas obras, acompanhadas de frases curtas e diretas, revelam um poder de síntese e uma perspicácia que cativam. Em 2012, ela e o marido, Domingos, carinhosamente chamado de Binga, também artista, começaram a desenhar juntos como forma de amenizar a saudade dos filhos que haviam se mudado para o Sudeste, impulsionando a nova carreira.
Roxinha Lisboa teve seu trabalho em destaque na recente exposição da Caixa Cultural, lançada em Recife no ano passado, com itinerância confirmada para outras seis capitais brasileiras nos próximos meses: Fortaleza (10 de março), Salvador (25 de agosto), Brasília (8 de dezembro), Curitiba (9 de março de 2027), São Paulo (22 de junho de 2027) e Rio de Janeiro (28 de setembro de 2027). A artista demonstra sua versatilidade ao usar os mais variados suportes para suas pinceladas, desde as paredes de sua casa-ateliê até objetos inusitados como pedras e tampas de vaso sanitário, transformando cada item em uma peça de arte única.
A Ilha do Ferro é um caldeirão de talentos, onde a prática artística é quase universal entre os moradores. Outro artesão com reconhecimento nacional é Yang da Paz, cujo trabalho foi tema de uma questão na prova de linguagens do Enem aplicada em novembro. Zé Crente, ex-coveiro e agricultor de cana-de-açúcar que enfrentou acidentes, encontrou na escultura de imagens religiosas um novo propósito após abandonar a boemia. Suas máscaras de madeira, inspiradas em animais como onças e raposas, são hoje comercializadas em diversas lojas de decoração pelo país, exemplificando a riqueza da arte produzida na Ilha do Ferro.
A eclosão do povoado como um polo de arte popular deve muito à influência de mestres pioneiros. Fernando Rodrigues, ao lado de Aberaldo e Vieira, destacou-se na arte da escultura em madeira. Filho de um construtor de barcos que esculpia pequenas peças em cedro, Seu Fernando começou a transformar troncos simples em peças de mobiliário quando tinha 70 anos. Sua atuação foi crucial para a notoriedade da Ilha do Ferro, especialmente após a visita do fotógrafo alagoano Celso Brandão em 1985. Brandão, que inicialmente estava no local para registrar o bordado “Boa-Noite” (batizado em homenagem a uma flor típica), identificou elementos de design nas peças de Seu Fernando, consolidando o potencial artístico da comunidade.
A curadora Adélia Borges, amiga de Celso Brandão, levou os bancos de Seu Fernando para a exposição “Uma História do Sentar”, em 2002, ao lado de obras dos renomados irmãos Campana, na inauguração do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. O casal Maria Amélia Vieira e Dalton Costa, proprietários da galeria Karandash, especializada em arte popular em Maceió, também tiveram um papel fundamental. Nos anos 1990, o bordado Boa-Noite era a maior atração local; o trabalho com madeira, apesar de presente devido à construção de barcos, ainda era pouco conhecido, segundo Maria Amélia.
Maria Amélia Vieira, artista plástica, colecionadora e consultora de arte e design, prestou consultoria pelo Sebrae a diversos artesãos da Ilha do Ferro. Um dos beneficiados foi Vavan, que, antes de sua intervenção, produzia apenas pequenas peças. Com a orientação, Vavan passou a utilizar madeiras típicas da caatinga, como barriguda, craibeira e mulungu, para criar obras de grande formato. Hoje, ele vende para todo o Brasil de forma independente e está construindo uma pousada, com previsão de inauguração até agosto, decorada inteiramente com móveis de sua autoria. Serão oito bangalôs equipados com dormitório, banheiro, closet, varanda com jacuzzi, e café da manhã servido à beira do rio, a tempo da Festa de Santo Antônio, padroeiro da Ilha, celebrada com uma icônica corrida de canoas a vela.
A infraestrutura local acompanha o crescente fluxo de visitantes interessados em vivenciar a cultura da Ilha do Ferro. O casal Maria Amélia e Dalton expandiu seus investimentos no povoado, oferecendo cinco casas para aluguel por temporada. Essas casas respeitam a arquitetura original e são decoradas com peças dos artesãos locais, desde mesas e cadeiras até bancos e esculturas, proporcionando uma imersão completa na identidade artística da região. “O mais importante era que as casas dialogassem com o povoado”, ressalta Maria Amélia.

Imagem: valor.globo.com
Além das opções de hospedagem, Maria Amélia e Dalton encabeçam a Trilha da Cachoeira, um projeto apoiado pelo Rumos Itaú Cultural 2023/2024. Neste percurso a céu aberto, os visitantes caminham por um cenário de mandacarus, palmas e facheiros, encontrando obras de arte de 15 artistas alagoanos integradas à paisagem. A recompensa do trajeto, além da contemplação das obras no contexto da caatinga, é a vista panorâmica do Rio São Francisco.
O encanto do Velho Chico também seduziu o arquiteto e colecionador alagoano Lúcio Moura, que idealizou o espaço Encarnado. Ele reformou um antigo galpão, que serviu como igreja e mercado, para transformá-lo em uma galeria de arte popular, bar e restaurante, com um terraço que oferece um espetacular pôr do sol. Lúcio Moura descreve o tartar de piranha como símbolo do conceito do lugar, que inicialmente nasceu como galeria, mas incorporou a gastronomia para suprir uma necessidade na região. “É leve, bonito de se ver, saboroso e sem floreios”, diz ele sobre o prato.
A culinária local, apesar da escassez de restaurantes (com apenas dois ou três estabelecimentos no máximo), compensa pela qualidade dos peixes de água doce. Uma sugestão é o ceviche de piranha preparado pela cozinheira Lucia de Souza e Silva, entregue por WhatsApp, acompanhado de macaxeira macia. Outra excelente opção é o almoço na Pousada da Vana, que abriga o ateliê do mestre Aberaldo; basta reservar um horário para saborear a refeição no jardim, entre borboletas, passarinhos e, é claro, obras de arte do mestre.
Explorar a Ilha do Ferro e seus arredores vai além da arte e gastronomia. Passeios de barco pelas comunidades ribeirinhas adjacentes, como Ilha dos Anjos, Mata da Onça (onde se encontram ateliês de bordadeiras e a casa dos irmãos Amilton e Clemilton) e Curralinho (cenário da novela Velho Chico, com a oportunidade de almoçar um piau fresco com farofa e vinagrete), complementam a experiência cultural e turística na região. Para finalizar o dia, o bar e espaço cultural de André Dantas, conhecido como Macumba, é o ponto de encontro de turistas e locais, onde se mesclam obras de arte, artesanato e peças garimpadas globalmente, muitas vezes ao som de um animado forró ao vivo de Joaci do Pandeiro, mais um patrimônio vivo desta ilha que não é de ferro, mas de arte e gente acolhedora. Para saber mais sobre destinos culturais e experiências únicas no Nordeste brasileiro, uma referência confiável pode ser o portal oficial de turismo de Alagoas, um estado rico em beleza e história.
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A Ilha do Ferro é um exemplo notável de como a arte popular pode transformar um pequeno povoado em um epicentro cultural e turístico, unindo talento, história e hospitalidade. De Roxinha Lisboa a Seu Fernando, os artesãos da Ilha do Ferro tecem uma rica tapeçaria cultural que continua a fascinar. Continue explorando nosso blog para mais notícias sobre cultura, destinos e o universo do artesanato em diferentes regiões do Brasil.
Crédito da imagem: Foto: Rogério Maranhão

