Rede de Cooperação na Alfabetização na Idade Certa

Educação

Um encontro internacional sediado em Brasília nos dias 23 e 24 de fevereiro reuniu autoridades governamentais, representantes de organizações da sociedade civil e acadêmicos para discutir a criação de uma **rede de cooperação técnica latino-americana voltada à alfabetização na idade certa**, especificamente até os 7 anos. O objetivo principal do evento foi fortalecer os laços entre os países do continente e promover uma abordagem colaborativa para enfrentar os desafios educacionais.

A iniciativa visa estabelecer uma estrutura permanente para a troca de conhecimentos e experiências que impulsionem a alfabetização, um pilar fundamental para o desenvolvimento social e econômico. A cooperação entre as nações é vista como um catalisador para a melhoria da qualidade da educação primária na América Latina.

Rede de Cooperação na Alfabetização na Idade Certa

Na cerimônia de abertura do evento, intitulado “Encontro Internacional Alfabetização, Equidade e Futuro”, Leonardo Barchini, que atuava como ministro interino da Educação no Brasil e secretário-executivo da pasta, sublinhou a urgência da alfabetização. Barchini descreveu-a como uma ferramenta essencial para erradicar as “cicatrizes profundas da história da colonização” e para libertar o futuro das amarras do analfabetismo que persistiram do passado.

O direito à alfabetização foi destacado como um alicerce para o desenvolvimento integral de cada criança latino-americana. Além disso, foi reconhecido como um motor para o crescimento social e econômico sustentável, contribuindo para a construção de um futuro mais próspero, justo, equitativo e soberano para toda a região. A relevância do tema transcende as salas de aula, impactando diretamente o bem-estar e as oportunidades das futuras gerações.

David Saad, diretor-presidente do Instituto Natura, um dos apoiadores do encontro, reforçou a importância do evento como uma oportunidade crucial para que a América Latina avance significativamente nesta área. Saad enfatizou que resolver a questão da alfabetização na idade certa pode destrancar múltiplos problemas, desde a trajetória escolar dos estudantes até o progresso econômico e social dos países.

De acordo com Saad, manter um alto nível de atenção e prioridade a este tema regionalmente, pelos próximos cinco a sete anos, tem o potencial de solucionar um dos entraves mais sérios da educação. Isso implicaria desbloquear os resultados de todo o percurso escolar, com um impacto transformador no desenvolvimento das nações.

O Modelo Brasileiro e Seus Avanços

Durante sua fala, o ministro interino Leonardo Barchini detalhou o enfoque do Brasil no combate às elevadas taxas de analfabetismo infantil. Ele ressaltou a existência do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), uma iniciativa conjunta que engaja a União, estados e municípios brasileiros na garantia do direito à alfabetização das crianças até o final do 2º ano do Ensino Fundamental. O programa estabelece metas claras para cada esfera federativa, buscando assegurar que todas as crianças sejam alfabetizadas no tempo adequado.

O índice nacional de alfabetização de crianças demonstrou avanços em 2024, alcançando 59,2% dos alunos ao término desta etapa de ensino. Embora esse número esteja ligeiramente abaixo da meta de 60% estabelecida pelo CNCA para o ano, representa um progresso considerável. A projeção para 2030 é ainda mais ambiciosa, com o objetivo de ter, no mínimo, 80% dos estudantes alfabetizados até o encerramento do 2º ano do Ensino Fundamental.

Barchini também fez menção ao Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), um instrumento crucial que possibilita a mensuração precisa dos níveis de alfabetização em todo o território nacional. Conforme o ministro, avaliações como o Saeb permitem mapear o panorama da alfabetização no país de forma detalhada, revelando não apenas os resultados gerais, mas também as nuances por região.

“Podemos observar com exatidão onde se manifestam as desigualdades, as deficiências e as fragilidades”, explicou Barchini. Ele acrescentou que é possível identificar diferenças por escola, município, região, e até mesmo segmentar os dados por etnia, raça, educação quilombola e educação indígena, fornecendo um mapeamento compreensivo das necessidades educacionais. Mais informações sobre os compromissos com a alfabetização podem ser encontradas em fontes oficiais, como o Ministério da Educação.

Desafios Persistentes na Alfabetização

Apesar do acesso à escola no Brasil ser quase universal, Leonardo Barchini alertou que o país ainda enfrenta consideráveis obstáculos na elevação da qualidade do aprendizado. As dificuldades estão ligadas a diversos aspectos estruturais e pedagógicos que necessitam de atenção e investimento para serem superados. Ações coordenadas são essenciais para transformar o cenário educacional.

Rede de Cooperação na Alfabetização na Idade Certa - Imagem do artigo original

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

No que tange à infraestrutura, muitas escolas ainda carecem de recursos básicos, como bibliotecas, essenciais para o fomento do hábito de leitura e escrita desde cedo. A necessidade de mais creches também foi enfatizada como um desafio prioritário, visto que a educação infantil desempenha um papel fundamental no desenvolvimento inicial das crianças. Adicionalmente, o grande desafio reside em proporcionar uma formação adequada e contínua para os professores alfabetizadores, capacitando-os a aprimorar suas metodologias diariamente e garantir um ensino de maior qualidade.

O ministro interino reiterou aos presentes a importância de uma trajetória escolar qualificada. Ele afirmou que essa formação amplifica as chances de uma vida adulta mais digna, saudável e produtiva. A alfabetização na idade certa foi descrita como um instrumento potente para a superação das desigualdades sociais e para o fortalecimento dos regimes democráticos. Cidadãos que leem, escrevem e interpretam o mundo de forma plena são mais propensos a participar ativamente da vida social, econômica e política de suas respectivas nações.

O Movimento Continental pela Educação

O encontro em Brasília não apenas discutiu os desafios brasileiros, mas também serviu como palco para a apresentação de diversas experiências bem-sucedidas em outros países da América Latina, que demonstram avanços significativos na promoção da alfabetização na idade adequada.

Experiências na Argentina, México, Peru e Uruguai

  • Argentina: Sofia Naidenoff, ministra da educação da província de Chaco, no Norte da Argentina, compartilhou o impacto do Plano da Jurisdição da Alfabetização. Segundo Naidenoff, a região de Chaco enfrentava uma situação educacional alarmante, com “gerações inteiras que não sabiam ler”. A ministra relatou as transformações implementadas: a provisão de “um livro para cada aluno; um manual por escola, do primeiro ao terceiro grau; e dias de trabalho com livros, inclusive para o lar.” Essas medidas impactaram positivamente a realidade de aproximadamente 77 mil crianças em 1.283 escolas, entre o primeiro e o terceiro ano.
  • México: As práticas pedagógicas do México, com destaque para a Nova Escola Mexicana, foram apresentadas por Xóchitl Leticia Moreno Fernández, diretora-geral de Desenvolvimento Curricular e Política de Educação Inicial. O Plano de Estudos de 2022 colocou a comunidade no centro das soluções educacionais, valorizando a diversidade de línguas indígenas. O México, com cerca de 68 línguas indígenas e originárias, prioriza processos de alfabetização que consideram a língua materna das crianças, produzindo materiais didáticos adaptados a essa riqueza cultural e linguística.
  • Peru: No Peru, os progressos em alfabetização derivam da aplicação de avaliações censitárias e de um foco estratégico na resolução de questões de saúde e violência no ambiente escolar. Luis Guillermo Lescano Sáenz, integrante do Conselho Nacional de Educação do Peru, enfatizou que a educação precisa ser uma política de Estado. Ele argumentou que essa política deve transcender a rotatividade de ministros, um desafio para o país que teve 26 ministros da educação na última década. Segundo Lescano Sáenz, a frequente mudança de lideranças no setor gera “brechas instaladas há muito tempo” e impacta negativamente a implementação e continuidade das políticas educacionais, apesar do direito à educação ser universal.
  • Uruguai: Sebastián Valdez, secretário técnico do Ministério de Educação e Cultura do Uruguai, mencionou a meta de aprimorar as políticas e práticas educacionais em seu país. Valdez recordou que, no início do século XX, o Uruguai estabeleceu um acordo social para oferecer educação a todas as crianças em território nacional. Embora reconheça as dificuldades orçamentárias de um país pequeno, o esforço em estender a educação a todos os cantos permanece, visando à contínua melhoria educacional.

A Inserção das Novas Tecnologias na Alfabetização

O ministro interino Leonardo Barchini também abordou a necessidade de incorporar a alfabetização digital no processo educacional da América Latina. Ele destacou que um dos desafios prementes para a região é complementar a alfabetização tradicional das crianças com o incremento da alfabetização digital, tanto para estudantes quanto para educadores. Isso é crucial em um mundo cada vez mais conectado.

Barchini observou que a alfabetização digital se revela um processo de aprendizado contínuo, que deve estender-se ao longo da vida, e não ser restrita apenas aos primeiros anos escolares. “Por essa razão, acreditamos que a alfabetização digital precisa ser integrada à alfabetização convencional”, enfatizou, ressaltando a importância de preparar os indivíduos para as demandas da sociedade moderna.

Encerramento do Evento Internacional

O Encontro Internacional Alfabetização, Equidade e Futuro foi encerrado em 24 de fevereiro, tendo oferecido sessões com transmissão ao vivo no canal oficial do MEC no YouTube. O evento também contou com tradução simultânea em português, espanhol e Língua Brasileira de Sinais (Libras), garantindo acessibilidade e abrangência a um público diversificado.

A programação detalhada e outras informações pertinentes sobre o encontro estavam previamente disponíveis online, permitindo que interessados pudessem acompanhar os debates e propostas apresentadas para impulsionar a alfabetização em toda a região.

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O compromisso com a alfabetização na idade certa é um passo essencial para um futuro mais equitativo na América Latina, e as discussões em Brasília reforçaram a necessidade de uma colaboração contínua. Para saber mais sobre educação e os avanços em políticas públicas no Brasil e no mundo, continue acompanhando a editoria de Educação em HoradeComeçar.com.br/blog.

Crédito da imagem: Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília

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