A recente decisão do Ministério da Educação (MEC) de revogar o edital que visava à criação de novos cursos de medicina por instituições privadas de ensino superior marca um ponto crucial no cenário da formação médica brasileira. A medida, divulgada na noite da última terça-feira, 10 de fevereiro, por meio de uma portaria publicada em edição extra do Diário Oficial da União, encerra um processo que se iniciou em outubro de 2023, quando a pasta autorizou a abertura de até 95 novos cursos em municípios pré-selecionados, com foco na interiorização e na redução de desigualdades regionais.
Inicialmente, a iniciativa estava alinhada à retomada do programa Mais Médicos, um pilar estratégico do governo federal para fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo a descentralização da oferta de cursos e a elevação da qualidade na formação profissional. No entanto, o cronograma original do edital enfrentou inúmeros adiamentos, motivados principalmente pelo volume de propostas recebidas e por diversas ações judiciais apresentadas por parte dos interessados. Em outubro do ano passado, o MEC já havia optado pela suspensão do edital por um período de 120 dias, culminando agora na decisão final de revogação após a expiração desse prazo.
MEC Revoga Edital para Cursos Particulares de Medicina
Em comunicado oficial, o MEC esclareceu que a determinação possui caráter estritamente técnico. A pasta apontou que uma série de eventos recentes alterou de forma substancial o cenário original que serviu como base para a formulação do edital de funcionamento dos novos cursos de medicina. Entre os fatores citados, destacam-se a expansão acelerada de vagas, em grande parte impulsionada pela judicialização de pedidos de autorização para novos cursos, pela ampliação da oferta de cursos em sistemas estaduais e distritais de ensino, e pela finalização de processos administrativos relacionados ao aumento de vagas em cursos já em operação.
Nesse panorama dinâmico, o MEC argumentou que a manutenção do edital original comprometeria os objetivos de ordenação da oferta educacional, redução das desigualdades regionais e garantia de padrões de qualidade, que são premissas fundamentais do Programa Mais Médicos. Para aprofundar no contexto do Mais Médicos, uma iniciativa que busca suprir a carência de médicos em áreas remotas e de alta vulnerabilidade no Brasil, você pode consultar o site oficial do Ministério da Saúde, que oferece mais detalhes sobre o programa.
É crucial relembrar o contexto regulatório anterior para entender a magnitude da judicialização. A partir de abril de 2018, uma portaria do Ministério da Educação impôs a proibição da abertura de novas vagas em cursos de medicina, com uma validade inicial de cinco anos. Essa medida tinha como propósito controlar a qualidade e a distribuição estratégica dos cursos. Após o término desse prazo, em 2023, o governo atual liberou a abertura de novas formações em áreas do país que enfrentam escassez de profissionais médicos. O objetivo declarado do edital recém-revogado era precisamente restabelecer a centralidade do Estado na coordenação dessa expansão de vagas, evitando o crescimento desordenado.
No entanto, o período de proibição de abertura de vagas (2018-2023), ao invés de frear a expansão, deu lugar a uma onda de judicialização. O MEC reportou o recebimento de mais de 360 liminares judiciais contra a União, as quais obrigaram o ministério a aceitar e processar pedidos de autorização para novos cursos de medicina, bem como solicitações de aumento de vagas em instituições já estabelecidas. Essa ação massiva na justiça resultou em pedidos que somavam aproximadamente 60 mil novas vagas de medicina, desregulando o controle que o MEC pretendia exercer.
Conforme apontado em uma nota técnica da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres), responsável pela suspensão do edital em 2023, a vedação à abertura de novos cursos e ao aumento de vagas em medicina não estagnou a oferta de ensino no país. Pelo contrário, gerou um cenário em que novos cursos foram abertos sem se submeter aos rigorosos processos regulatórios e avaliativos estabelecidos, minando o controle de qualidade e ordenamento que a pasta almejava. Tal situação contribuiu diretamente para as alterações no cenário que fundamentaram a revogação.
Os dados do Censo da Educação Superior corroboram a tese da expansão desordenada. Em 2018, o Brasil contava com 322 cursos de medicina, oferecendo 45.896 vagas. Já em 2023, esse número ascendeu para 407 cursos e um total de 60.555 vagas. A Seres ainda destacou que a maior parte dos processos judiciais foi decidida apenas após 2023, o que significa que a expansão provocada pelas decisões liminares não se limitou ao período de sua vigão, perpetuando o crescimento acelerado.

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Adicionalmente à expansão no sistema federal, o MEC apontou um significativo aumento de cursos de medicina através de conselhos estaduais de Educação, que hoje totalizam 77 cursos em suas redes de ensino. Apesar dessa robusta ampliação na oferta, a secretaria reiterou que as desigualdades regionais na área da saúde persistem. Estados como Acre, Amazonas, Maranhão e Pará continuam a apresentar uma proporção de médicos por habitantes muito inferior à média nacional, demonstrando que a expansão nem sempre ocorre de forma equilibrada ou eficaz.
A preocupação com a qualidade da formação médica no Brasil também é um ponto central na decisão de revogação. O cenário atual da oferta de vagas é somado a novas iniciativas e discussões, como a implementação do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), a atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para os cursos de medicina e o intenso debate público sobre a instauração de um exame de proficiência para os egressos desses cursos. Esses elementos, que emergiram ou se fortaleceram após a elaboração do edital, fornecem um novo pano de fundo para a política de formação médica.
A primeira edição do Enamed, em particular, acendeu um alerta para a má qualidade da formação médica em determinadas instituições. Os resultados revelaram que cerca de 30% dos cursos obtiveram desempenho insatisfatório, com menos de 60% dos estudantes atingindo a nota mínima de proficiência. A maioria dessas instituições com desempenho deficitário são municipais ou privadas com fins lucrativos. O MEC ressalta que, embora esses dados não se reflitam diretamente nos procedimentos de autorização de novos cursos, eles indicam uma alteração significativa no contexto fático, social e regulatório. Esse panorama reforça a urgência em priorizar a qualidade da oferta e a adequação da formação às necessidades intrínsecas do SUS, um dos principais propósitos da política educacional na área da saúde.
Até o momento, o MEC não estabeleceu um prazo para o lançamento de um novo chamamento. No entanto, a pasta assegurou que a revogação do edital vigente não implica na interrupção da política pública de expansão da formação médica. Em coordenação contínua com o Ministério da Saúde e outros órgãos pertinentes, o MEC promete continuar atuando de forma estratégica para consolidar um diagnóstico atualizado sobre a oferta de cursos e vagas. Esse levantamento visa compreender profundamente os impactos da expansão na qualidade da formação médica e, sobretudo, no atendimento à população através do Sistema Único de Saúde, garantindo que as futuras ações sejam baseadas em evidências e planejamento rigoroso.
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A decisão de revogação do edital pelo MEC reflete um cenário complexo e a necessidade de reajustar as estratégias de formação médica no Brasil, em meio a desafios como a judicialização e a garantia de qualidade. Para se manter informado sobre as últimas discussões e desenvolvimentos na esfera da educação e políticas públicas, continue acompanhando a editoria de Política em nosso blog.
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