Orquestra da USP: Pré-Temporada com Repertório Plural em 2026

Últimas Notícias

A Orquestra da USP: Pré-Temporada com Repertório Plural em 2026 promete enriquecer o cenário cultural com uma série de concertos inovadores. A Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (OCAM da ECA-USP) iniciará sua pré-temporada de 2026 nesta terça-feira (10), continuando na quarta-feira seguinte (11) e finalizando na quinta-feira (12) do mesmo mês.

As apresentações, que são totalmente gratuitas, ocorrerão em dois locais de prestígio: o Instituto Tomie Ohtake e o Centro Cultural Camargo Guarnieri. A programação cuidadosamente elaborada abrange um vasto leque musical, mesclando sonoridades contemporâneas, obras clássicas consagradas e ritmos populares que buscam engajar um público diversificado.

Orquestra da USP: Pré-Temporada com Repertório Plural em 2026

As iniciativas se estruturam em três segmentos distintos para a execução musical: Cordas, dedicado às peças clássicas e modernas interpretadas por instrumentos de corda; Sopros e Percussão, que realça a sonoridade vibrante e rítmica desses instrumentos; e Ensemble, uma formação flexível que permite a experimentação com diferentes combinações instrumentais e explora diversas linguagens artísticas, promovendo a interação e a criatividade musical. Este formato sublinha o compromisso da Escola de Comunicações e Artes da USP em oferecer uma experiência cultural rica e multifacetada ao público paulistano.

Destaques Musicais da Pré-Temporada

No programa focado em sopros e percussão, sob a condução do maestro André Bachur, a OCAM convidou a renomada multiartista Jéssica Gaspar. Ela apresentará uma performance única de sua autoria, a canção “Deus é uma Mulher Preta”, que se tornou o enredo do Bloco Ókánbí no Carnaval de Salvador em 2020. A atuação de Jéssica Gaspar se aprofunda na música afro-brasileira, utilizando suas composições para narrar as vivências e desafios da população negra.

A artista esclareceu o profundo significado por trás de sua obra. Ela explicou que a intenção da música não era meramente idealizar a figura de Deus, mas sim ressignificar a memória e a imagem de Cláudia Ferreira da Silva, uma mulher que teve seu corpo brutalmente arrastado e filmado pela polícia do Rio de Janeiro. Jéssica considerou devastador que a memória de Cláudia fosse associada à violência e, por isso, propôs: “por que não associar o corpo de uma mulher negra à figura do divino?”. Sua música busca uma reflexão profunda sobre representatividade e valorização.

Outro ponto alto da agenda musical é a reverência ao célebre Hermeto Pascoal, um verdadeiro ícone da música popular brasileira e referência incontestável do gênero swing. A homenagem incluirá a estreia da composição “Bruxo Campeão”, criada por Carlos dos Santos. Este é um nome familiar à OCAM, pois ele é ex-aluno da orquestra e, atualmente, docente na Universidade Federal da Paraíba. A peça é aguardada como uma fusão entre a inovação contemporânea e o legado duradouro de Hermeto Pascoal.

Para o segmento de cordas, o público será brindado com a interpretação de obras clássicas de compositores renomados do século XX, como Aaron Copland e Benjamin Britten. A orquestração estará a cargo da experiente harpista russa Liúba Klevtsova, prometendo profundidade e maestria nas execuções. A atração principal deste programa será a execução de “Danças Sacra e Profana para Harpa e Cordas” (1904), do influente Claude Debussy. A regência desta parte do programa ficará por conta da maestra Claudia Feres.

Finalizando as categorias, o grupo de Ensemble apresentará o “Mosaico Contemporâneo”, que tem como proposta trabalhar com uma vasta gama de composições. Com a regência de Ricardo Bologna, a orquestra prestará uma homenagem à trajetória de Olivier Toni, um dos fundadores da OCAM e notável compositor, executando sua peça “Improviso para Violoncelo Solo” (2010). O repertório ainda abraçará influências internacionais, com a inclusão de composições de origem japonesa, tais como “Kojo No Tsuki” (A Lua Sobre o Castelo em Ruínas) de 1901 e as “Três Baladas para Hida” (1977), apresentando o arranjo feito por Yuri Behr. Esta pluralidade exemplifica o espírito de intercâmbio cultural promovido pela OCAM.

Orquestra da USP: Pré-Temporada com Repertório Plural em 2026 - Imagem do artigo original

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

Ampliação do Repertório e Diversidade Acadêmica

Na sua pré-temporada de concertos, a Orquestra de Câmara da USP não se limita aos padrões convencionais, exibindo um repertório musical que ultrapassa as fronteiras dos clássicos eruditos. Essa abordagem representava um desafio em épocas anteriores. Ricardo Bologna, que é professor do departamento de música da ECA-USP e maestro da OCAM, destaca que, há cerca de três décadas, o panorama acadêmico musical no Brasil se restringia quase exclusivamente ao estudo da música europeia e norte-americana, relegando a um plano secundário as sonoridades de origem latina, africana e asiática.

Entretanto, conforme aponta Bologna, o cenário atual da pesquisa musical é significativamente diferente. Atualmente, há uma quantidade maior de publicações, tanto livros quanto artigos, que exploram a música não europeia. Além disso, inúmeros congressos realizados no Brasil têm se dedicado a discussões sobre a diversidade na produção musical nacional. O maestro enfatiza que a pesquisa tem se expandido para além da música clássica brasileira, englobando também o estudo da música folclórica e popular. Ele observa que os temas predominantes nos congressos de música no Brasil frequentemente abordam questões relacionadas à produção musical de compositores brasileiros que divergem da denominada tradição europeia.

A artista Jéssica Gaspar identifica que a transformação crucial resultou da inserção de indivíduos, especialistas nessas linhas de pesquisa, nas universidades. Para ela, a inovação está neste movimento de convidar mestres que possuem um profundo entendimento da arquitetura musical e da engenharia poética de suas criações, e que compartilham suas próprias narrativas. Gaspar associa essa mudança à crescente presença de “corpos [não-brancos]” dentro do ambiente universitário, indicando um avanço na representatividade e na diversidade do saber acadêmico musical. Contudo, ela expressa uma crítica construtiva: as graduações ainda tendem a confinar a música não europeia a um espaço “étnico” à parte, enquanto continuam a dar prioridade ao estudo dos clássicos e eruditos. “Essa ideia do clássico engessa toda uma célula, um povo, uma linguagem. O que é clássico agora?”, questiona ela, argumentando que talvez seja o momento de repensar as referências bibliográficas e a estrutura curricular dos cursos de música. Ela indaga provocativamente: “O que vamos ensinar sobre música para quem chega agora?”.

Confira também: Imoveis em Rio das Ostras

A pré-temporada da OCAM da ECA-USP em 2026 representa um marco na valorização da pluralidade musical, unindo a tradição acadêmica a expressões contemporâneas e globais. Através de um repertório que abrange de Bachur a Pascoal, e de clássicos eruditos a canções que provocam reflexão social, a orquestra reafirma seu papel de catalisador cultural e fomentador do diálogo. Para ficar por dentro de outros eventos e análises do cenário cultural e universitário, continue explorando nossa editoria de Cultura e Notícias.

Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil

Deixe um comentário