O renomado cientista da computação e pioneiro no campo da inteligência artificial, Yann LeCun, lançou um alerta severo sobre o desenvolvimento atual da tecnologia. Segundo LeCun, uma tendência que ele descreve como um “efeito manada” tem empurrado a indústria de IA, especialmente o Vale do Silício, para um “beco sem saída”, concentrando esforços excessivos em modelos de linguagem grandes (LLMs) em detrimento de abordagens mais promissoras a longo prazo.
Com quatro décadas de experiência profissional, LeCun é uma autoridade global em IA. Sua trajetória notável inclui o recebimento do Prêmio Turing em 2018 – honraria frequentemente referida como o Nobel da computação – concedido por suas contribuições fundamentais que pavimentaram o caminho para a inteligência artificial moderna. Por mais de uma década, ele também desempenhou a função de cientista-chefe de IA na Meta, holding controladora de plataformas como Facebook e Instagram, período durante o qual consolidou sua reputação como um pesquisador proeminente e também como uma voz franca no cenário tecnológico.
Yann LeCun: IA Ruma a Beco Sem Saída por “Efeito Manada”
Desde sua saída da Meta, em novembro, as críticas de LeCun tornaram-se mais contundentes e frequentes. Ele tem questionado abertamente o que percebe como uma obsessão singular do Vale do Silício por uma metodologia específica para criar sistemas inteligentes. Em sua perspectiva, a indústria de tecnologia global, após anos de extensa pesquisa e centenas de bilhões de dólares em investimentos, está equivocando-se ao focar em projetos que não a conduzirão ao objetivo final de desenvolver computadores com inteligência similar ou superior à humana. As observações de LeCun, frequentemente provocativas, inclusive apontam que empresas chinesas, por demonstrarem maior abertura a experimentações com abordagens diversas, poderiam atingir esse marco de inteligência antes de seus pares ocidentais.
O cerne do argumento de LeCun, que ele sustenta há muitos anos, é que os modelos de linguagem grandes, como os que fundamentam ferramentas de popularidade crescente como o ChatGPT, possuem limites inerentes à sua capacidade de evolução. Apesar dessa limitação que ele enfatiza, o cenário industrial aponta para um investimento massivo e quase exclusivo nessas tecnologias, ignorando caminhos alternativos. “Há um ‘efeito manada’ em que todos no Vale do Silício sentem a necessidade de trabalhar na mesma coisa”, afirmou LeCun em uma recente entrevista concedida de sua residência em Paris. “Isso reduz o espaço para outras abordagens, que poderiam se mostrar significativamente mais frutíferas no longo prazo.”
A Trajetória de um Pioneiro da Inteligência Artificial
A visão de LeCun intensifica um debate já fervoroso no setor de tecnologia, impulsionado pela popularização da inteligência artificial desde 2022, quando a OpenAI lançou o ChatGPT. Questões como a viabilidade da inteligência artificial geral (IAG), que seria uma IA comparável à mente humana, ou até mesmo uma superinteligência mais potente, e se as tecnologias e conceitos atualmente em foco são capazes de atingir esses patamares, permanecem centrais. Poucos pesquisadores têm um histórico tão intrincado com este tema quanto LeCun, agora com 65 anos, cujo trabalho atual se apoia em uma ideia que ele vem desenvolvendo desde a década de 1970.
Enquanto ainda era um estudante de engenharia em Paris, LeCun adotou com convicção o conceito de redes neurais, uma área que a maioria dos cientistas da época considerava uma empreitada sem futuro. Redes neurais, para contextualizar, são sistemas matemáticos projetados para aprender tarefas complexas a partir da análise de vastas quantidades de dados. Naquele período inicial, faltava uma aplicação prática clara para esses sistemas. No entanto, aproximadamente uma década depois, LeCun e seus colaboradores nos Bell Labs conseguiram demonstrar o potencial dessas redes ao treiná-las para ler caligrafias em envelopes e cheques, validando sua eficácia e viabilidade. Para aprofundar-se nos fundamentos das redes neurais, que revolucionaram o campo da computação, consulte a definição de Rede Neural Artificial na Wikipedia.
No início dos anos 2010, os pesquisadores começaram a comprovar de forma consistente que as redes neurais podiam ser o motor para uma vasta gama de tecnologias avançadas, desde sistemas de reconhecimento facial e assistentes digitais até carros autônomos. À medida que gigantes tecnológicos como Google, Microsoft e outros investiam mais pesadamente neste campo promissor, o Facebook (atual Meta) contratou LeCun com o propósito de estabelecer e liderar um laboratório de pesquisa em inteligência artificial.
O Debate Sobre Perigos e Código Aberto
Logo após a chegada do ChatGPT ao mercado, os outros dois cientistas que compartilharam o Prêmio Turing com LeCun em 2018 começaram a alertar sobre a crescente e talvez excessiva força da inteligência artificial, chegando a sugerir que essa evolução poderia ameaçar o futuro da humanidade. LeCun, no entanto, sempre considerou essa perspectiva alarmista um exagero. “Havia muito barulho em torno da ideia de que os sistemas de IA eram intrinsecamente perigosos e que permitir seu acesso generalizado seria um erro”, recordou LeCun. “Eu nunca partilhei dessa crença.”
Ele também foi uma das vozes mais influentes a defender que a Meta e outras empresas deveriam adotar uma postura de maior transparência em suas pesquisas, divulgando amplamente artigos científicos e disponibilizando tecnologias em código aberto. Com o aumento do discurso sobre os riscos que a IA poderia representar para a humanidade, muitas companhias passaram a frear suas iniciativas de código aberto. A Meta, contudo, inicialmente manteve essa estratégia. A defesa de LeCun era sempre a mesma: a abertura do código é o caminho mais seguro e eficaz, pois evita a concentração de controle da tecnologia em uma única entidade e permite que um maior número de participantes colabore na identificação e mitigação de potenciais riscos. Essa colaboração coletiva é vista por ele como essencial para um desenvolvimento robusto e seguro da IA.

Imagem: infomoney.com.br
A Saída da Meta e a Nova Fronteira de Pesquisa
Atualmente, observa-se um movimento de algumas empresas, incluindo a própria Meta, em direção a um recuo na postura de código aberto. Essa mudança, motivada pela busca por vantagem competitiva e pela preocupação com usos maliciosos da tecnologia, gera um novo alerta em LeCun. Ele teme que as empresas americanas possam perder terreno para suas rivais chinesas, que persistem no caminho do código aberto. “Isso é um desastre”, afirma o cientista. “Se todos adotarem a abertura, o campo da IA como um todo avançará de forma mais acelerada e eficiente.”
No último ano, o trabalho de inteligência artificial da Meta enfrentou consideráveis desafios. Após críticas de pesquisadores externos ao Llama 4, a nova geração da tecnologia da empresa, acusada de superestimar a capacidade do sistema, o CEO Mark Zuckerberg tomou a decisão estratégica de investir bilhões na criação de um novo laboratório. Este novo centro seria dedicado exclusivamente à busca da superinteligência, um tipo hipotético de inteligência artificial que transcenderia a capacidade do cérebro humano. Seis meses após a fundação deste laboratório, LeCun optou por deixar a empresa para estabelecer sua própria startup, a Advanced Machine Intelligence Labs, ou AMI Labs.
Embora seus estudos tenham sido cruciais para pavimentar o caminho para os Modelos de Linguagem Grandes (LLMs), LeCun insiste veementemente que eles não representam o estágio final da evolução da inteligência artificial. Para ele, a principal falha dos sistemas atuais reside na sua incapacidade de planejar antecipadamente. Treinados exclusivamente com dados digitais, esses sistemas não possuem uma compreensão sólida e robusta da complexidade do mundo físico. “LLMs não são um caminho para a superinteligência, nem para uma inteligência em nível humano. Eu afirmo isso desde o princípio”, declarou LeCun, cunhando a expressão de que “toda a indústria ficou LLM-pilled”, uma referência à ideia de que o setor teria sido doutrinado ou se tornou dependente exclusivamente dos LLMs.
Visões Contrastantes e o Cenário Global
Nos últimos anos de sua passagem pela Meta, LeCun concentrou-se no desenvolvimento de tecnologias que buscassem prever os resultados das próprias ações da máquina. De acordo com ele, essa abordagem diferenciada tem o potencial de impulsionar a IA para além do patamar tecnológico atual. A AMI Labs, sua nova startup, pretende aprofundar justamente essa linha de pesquisa inovadora. “Esse tipo de sistema consegue planejar o que vai fazer”, explica LeCun. “Os sistemas atuais, os LLMs, simplesmente não conseguem realizar essa função crucial.”
Subbarao Kambhampati, professor da Universidade Estadual do Arizona e pesquisador de IA com um tempo de atuação quase tão extenso quanto o de LeCun, converge em um ponto crucial: as tecnologias de IA contemporâneas não apontam, por si só, para o desenvolvimento de uma inteligência genuinamente comparável à humana. Contudo, Kambhampati destaca que essas mesmas tecnologias têm se revelado extremamente eficazes e úteis em áreas altamente lucrativas, como na programação de software. Ele ressalva, entretanto, que os métodos mais recentes defendidos por LeCun ainda necessitam de comprovação prática robusta para validar sua eficácia e aplicabilidade em larga escala. Para LeCun, é exatamente neste ponto que reside a relevância de sua recém-fundada empresa.
O pioneiro da IA adverte que as últimas décadas foram repletas de projetos de inteligência artificial que, embora parecessem promissores em seu início, perderam força e foram abandonados no decorrer do processo. Em sua análise, não há garantia de que o Vale do Silício sairá vitorioso nesta corrida tecnológica global em andamento. “As boas ideias estão surgindo da China”, ele enfatiza. “No entanto, o Vale do Silício cultiva um certo complexo de superioridade e frequentemente não consegue conceber que soluções inovadoras e ideias valiosas possam surgir de outras regiões do mundo, perpetuando uma visão eurocêntrica do progresso tecnológico.”
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Em suma, as ponderações de Yann LeCun servem como um importante chamado à reflexão dentro da comunidade de inteligência artificial, desafiando a conformidade e encorajando a diversificação de abordagens. Suas críticas ao “efeito manada” e sua insistência em explorar caminhos que transcendam as limitações dos LLMs podem, de fato, guiar a IA para uma nova era de desenvolvimento. Continue acompanhando as análises e notícias sobre os avanços tecnológicos no Brasil e o impacto da inteligência artificial em nosso cotidiano em nossa editoria de Tecnologia.
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