Crise Imobiliária China: Cidades Ofertam Subsídios para Casas

Economia

Para enfrentar a profunda e persistente crise imobiliária China, governos locais do gigante asiático estão expandindo as ações de incentivo à aquisição de imóveis, por meio de subsídios diretos e juros bonificados para financiamentos habitacionais. As medidas surgem em um cenário de expectativas de prolongada desaceleração do setor. Essa iniciativa reforça o compromisso de Pequim em estabilizar seu mercado de propriedades, que é um pilar crucial da economia nacional e uma das principais preocupações entre a população.

A ofensiva governamental em nível local é uma resposta direta às previsões de que o mercado imobiliário chinês manterá seu ritmo lento ao longo deste ano e nos próximos. Em 2023, as vendas registradas pelas cem maiores incorporadoras do país totalizaram 1,61 trilhão de yuans (aproximadamente US$ 231,2 bilhões), um declínio de 20% em comparação com o ano anterior. Este valor representa uma drástica queda de 60% se confrontado com o auge alcançado pelo setor em 2021, segundo dados fornecidos pela renomada empresa de pesquisa chinesa Wind.

Crise Imobiliária China: Cidades Ofertam Subsídios para Casas

Diversas localidades na China já implementam estratégias detalhadas para estimular o consumo e aliviar o peso financeiro sobre os potenciais compradores. Changzhou, situada na província de Jiangsu, é um exemplo proeminente ao ampliar os subsídios destinados à compra de apartamentos. O programa, inicialmente lançado em abril do ano anterior e focado em incentivos para a aquisição de imóveis remanescentes, agora abrange tanto propriedades novas quanto usadas a partir deste ano.

Os benefícios oferecidos em Changzhou são consideráveis, podendo atingir um máximo de 200 mil yuans para cobrir até 15% do custo de uma casa nova, ou até 180 mil yuans para custear 15% de uma propriedade já existente. Conforme informações do governo municipal, cerca de 4,8 mil famílias se beneficiaram desses subsídios para adquirir imóveis remanescentes até o final de novembro, gerando um “impacto econômico de 6,9 bilhões de yuans”, conforme reportado pela mídia local, sublinhando o potencial de recuperação que tais programas podem catalisar na economia regional.

Iniciativas Locais e Variedade de Programas

Além dos subsídios diretos, outras abordagens estão sendo exploradas para impulsionar o mercado. Em Wuhan, capital da província de Hubei, a prefeitura disponibilizou subsídios de juros em financiamentos imobiliários dentro de uma área específica, durante o período de outubro a dezembro. Esses incentivos podem cobrir até 1% do valor principal do empréstimo, com um limite de 20 mil yuans, ao longo dos dois anos seguintes à concessão.

Medidas de apoio a juros similares também foram adotadas em outras cidades importantes, como Nanjing, na província de Jiangsu, e Hangzhou, em Zhejiang, demonstrando uma coordenação nas políticas locais. Algumas dessas estratégias são meticulosamente desenhadas para atrair profissionais qualificados, focando em compradores de imóveis com formação universitária. Yuncheng, na província de Shanxi, exemplifica essa tendência, oferecendo empréstimos de 300 mil yuans, com prazo de 15 anos e taxas de juros baixas, onde a prefeitura subsidia metade dos juros para estudantes de doutorado. Indivíduos já titulados como doutores podem obter um empréstimo de 200 mil yuans com um prazo de 11 anos e 40% dos juros subsidiados, visando reter talentos e estimular o desenvolvimento regional.

Desafios Financeiros Regionais

A capacidade de cada governo local em implementar tais programas de incentivo à aquisição de imóveis está intrinsecamente ligada à sua saúde fiscal. Cidades como Changzhou e Wuhan demonstram possuir recursos financeiros robustos, derivados de uma base industrial sólida. Em 2025, a receita tributária de Changzhou representou impressionantes 86% de sua renda total, a maior da província, impulsionada por grandes fábricas, incluindo uma unidade da renomada montadora BYD, garantindo uma fonte estável de arrecadação corporativa do setor manufatureiro. De maneira semelhante, Wuhan abriga corporações de peso nos setores automotivo e eletrônico, o que lhe confere maior margem para intervenções econômicas.

Contudo, a realidade é mais dura para governos com orçamentos mais restritos. Tangshan, na província de Hebei, enfrenta uma situação desafiadora, com os preços médios de imóveis residenciais caindo 7% para novas construções e 10% para unidades usadas entre janeiro e novembro do último ano, segundo dados do Departamento Nacional de Estatísticas da China. A cidade, um centro de instalações relacionadas à indústria siderúrgica, sofre com o excesso de oferta no setor, resultando em uma “guerra de desgaste” entre as empresas e uma consequente diminuição na arrecadação de impostos. Essa escassez de recursos impede Tangshan de remediar eficazmente sua crise imobiliária, aprofundando a espiral descendente e a queda nas vendas de propriedades.

Panorama da Propriedade e Inovação em Habitação Popular

A estrutura de propriedade fundiária na China, onde a propriedade privada de terras não é permitida, tem sido um fator crucial na receita dos governos regionais. Tradicionalmente, esses governos arrecadavam somas consideráveis através da venda dos direitos de uso da terra a empresas imobiliárias. No cenário atual de desaceleração do mercado, muitos deles agora lutam para encontrar compradores para esses direitos, agravando suas dificuldades financeiras e reduzindo uma fonte vital de renda pública.

Diante desse cenário, desde 2024, os governos regionais chineses têm lançado programas de habitação popular, nos quais adquirem propriedades disponíveis no mercado para oferecer como aluguel a famílias de baixa e média renda. Esta iniciativa busca tanto fornecer moradia acessível quanto absorver parte do excedente de imóveis no mercado. No entanto, a implementação desses sistemas tem sido lenta em muitas regiões, devido às contínuas dificuldades financeiras que impedem os governos de mobilizar os recursos necessários para a compra desses imóveis e sua gestão eficiente.

Intervenção Governamental e Futuro do Setor Imobiliário

Analistas do setor indicam que o futuro da crise imobiliária China dependerá tanto de ajustes locais quanto de possíveis intervenções nacionais mais robustas. Yusuke Miura, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa NLI, no Japão, observa que “a partir de 2026, as políticas imobiliárias continuarão focadas em ajustes menores, como a compra de imóveis disponíveis e o apoio a novas aquisições”. Contudo, Miura adverte que “com a persistência da estagnação do mercado, agora existe uma possibilidade maior de o governo nacional intervir de forma mais significativa”, sinalizando que as medidas isoladas talvez não sejam suficientes para reverter o quadro.

As perspectivas de longo prazo para as empresas imobiliárias chinesas também se mostram desafiadoras. Projeções da Beijing Zhong Zhi Hong Yuan Data Information Technology estimam que a área total de imóveis residenciais comercializados no mercado interno cairá para um patamar entre 700 milhões e 800 milhões de metros quadrados anualmente. Esta queda está prevista para ocorrer dentro do período do plano quinquenal do governo chinês, que se estende até 2030, o que representa quase a metade do pico registrado em 2021.

Situação das Construtoras e o Impacto no Setor

Neste ambiente de negócios crescentemente adverso, diversas incorporadoras enfrentam pressões financeiras extremas. A China Vanke, outrora uma das líderes de vendas no mercado doméstico e de propriedade estatal, atingiu o limite de sua capacidade de endividamento e tem enfrentado atrasos recorrentes no pagamento a seus credores. Tal situação levou a consultoria americana S&P Global a rebaixar recentemente a classificação de crédito da gigante imobiliária para “inadimplência seletiva”, um sinal claro das profundas fissuras que a crise está provocando no setor privado e público do país.

Esses eventos ressaltam a urgência de uma reestruturação mais ampla e um suporte coordenado para o mercado, cuja saúde é fundamental para a estabilidade econômica geral da China. O cenário global, impactado pela desaceleração chinesa, observa atentamente as próximas movimentações de Pequim, seja através de medidas fiscais diretas ou intervenções monetárias para sustentar o desenvolvimento. Para aprofundar seu conhecimento sobre as complexidades do mercado financeiro e a economia chinesa, um relatório da Bloomberg oferece análises detalhadas.

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As ações dos governos locais para conter a crise imobiliária China são um indicativo da seriedade com que o problema é tratado, combinando subsídios, financiamentos e programas habitacionais. No entanto, a sustentabilidade dessas medidas e a necessidade de uma intervenção nacional mais robusta continuam em pauta. Fique por dentro de mais análises econômicas e políticas que afetam o cenário global acessando nossa editoria de Economia.

Crédito: Valor Econômico

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