Uma jiboia-do-ribeira (Corallus cropanii), reconhecida pelo Instituto Butantan como uma das espécies de serpentes mais singulares do planeta, foi localizada e resgatada viva na cidade de Juquiá, no interior de São Paulo. O animal, um exemplar fêmea adulta medindo 1,70 metro de comprimento, está atualmente sob os cuidados e supervisão do Projeto Jiboia do Ribeira (PJR). Permanece em fase de quarentena nas instalações do Instituto Rio Itariri (IRI), localizado em Pedro de Toledo, aguardando os procedimentos necessários antes de ser devolvido ao seu habitat natural.
De acordo com Daniela Gennari, pesquisadora ligada ao Museu de Zoologia da USP e membro ativo do PJR, o traslado da serpente para um viveiro semi-intensivo está programado para o próximo fim de semana. Este ambiente, concebido e preparado pelo especialista em bem-estar animal Lucas do Valle, replica condições climáticas naturais, incluindo regimes de chuva, umidade controlada e variações de temperatura, buscando simular o habitat original da espécie para sua readaptação progressiva. A presença da jiboia-do-ribeira em Juquiá representa um marco significativo para a biologia local e para os esforços de preservação.
Jiboia-do-Ribeira, uma das mais raras, é achada em Juquiá, SP
A permanência da serpente nesse espaço adaptado é estimada em vários meses antes que a soltura definitiva possa ser agendada. Paralelamente, a jiboia passará por uma rigorosa avaliação clínica para que se proceda à implantação de um microchip. Este procedimento, contudo, demanda uma série de exames preliminares e uma intervenção cirúrgica a ser realizada em uma clínica veterinária especializada. Em função desses múltiplos passos, a equipe responsável ainda não estabeleceu uma data prevista para a reintrodução do animal na natureza.
A relevância deste resgate é amplificada pelo fato de ser o primeiro exemplar vivo da jiboia-do-ribeira capturado na região de Juquiá. Pesquisadores estão empenhados em determinar se esta descoberta aponta para a existência de uma nova população da espécie no vasto e biodiversificado Vale do Ribeira. Antes deste registro, apenas três serpentes desta rara espécie haviam sido objeto de monitoramento na área, com avistamentos anteriores ocorrendo nas localidades de Sete Barras e Eldorado.
“Existe uma quantidade considerável de indagações ainda sem respostas sobre essa espécie. Nosso trabalho com as comunidades do Vale do Ribeira é justamente para obtermos esses esclarecimentos”, afirmou Daniela Gennari, destacando a importância da colaboração com os moradores para o sucesso das pesquisas e da conservação.
Votação Comunitária para o Nome
Com o intuito de envolver ativamente a população nos esforços de conservação da Corallus cropanii, o Projeto Jiboia do Ribeira tem uma iniciativa planejada. Durante a próxima semana, o PJR lançará uma campanha de votação nas suas plataformas de redes sociais. O objetivo central é permitir que a comunidade ajude a escolher o nome do exemplar recém-resgatado, promovendo assim um maior engajamento e apropriação coletiva do processo de proteção da biodiversidade local. Esta ação já demonstra mobilização e interesse entre os residentes da região.
Contexto do Encontro e Ações Ambientais
O coordenador do PJR, pesquisador Bruno Rocha, explicou que a localização deste exemplar da jiboia-do-ribeira foi um desdobramento de um avistamento anterior, ocorrido em abril de 2025, de outro indivíduo da espécie, o qual, no entanto, não pôde ser resgatado àquela época. Daniela Gennari acrescentou que as iniciativas de educação ambiental promovidas na cidade após aquele primeiro registro foram cruciais. Elas capacitaram os moradores a identificar a espécie, levando ao flagrante e subsequente resgate da serpente em 22 de novembro. “Embora não seja o mesmo animal que foi visto em abril, ele é um resultado direto daquele primeiro registro feito pelo morador Evandro de Ponte Santos”, pontuou a pesquisadora. A serpente foi primeiramente notada por funcionários do vereador Thiago Barbosa (PP) em uma estrada rural, que rapidamente acionaram Rafael Guimarães, da empresa PreserValle, para auxiliar no resgate e no encaminhamento do animal ao Projeto Jiboia do Ribeira.
O Projeto Jiboia do Ribeira e Seu Legado
Em 2026, o Projeto Jiboia do Ribeira (PJR) celebrará uma década de atividades dedicadas à pesquisa e conservação desta serpente enigmática. Ao longo desses anos, três exemplares anteriores foram cuidadosamente monitorados e reintegrados com sucesso ao seu ambiente natural. Esses animais, batizados carinhosamente de Esperança, Ribeiro e Dona Crô, cada um tem uma história particular; Dona Crô foi, inclusive, a primeira jiboia-do-ribeira acompanhada diretamente em seu ambiente selvagem após a reintrodução.

Imagem: g1.globo.com
Após um período de 60 anos sem registros confirmados, o primeiro espécime vivo da Corallus cropanii foi encontrado em 2017 por moradores no bairro de Guapiruvu. Desde então, tem sido monitorado por meio de uma colaboração estratégica entre pesquisadores do Museu de Zoologia da USP e especialistas do Instituto Butantan. Outros dois exemplares surgiram subsequentemente nos anos de 2020 e 2022. Com os recentes avistamentos e o resgate em Juquiá, tanto em abril quanto em novembro, o município emerge como uma região de crucial importância estratégica para a ocorrência e conservação da jiboia-do-ribeira, uma espécie que, apesar de sua raridade, ainda possui muitos aspectos pouco conhecidos pelos cientistas.
Para mais informações sobre as pesquisas e iniciativas de conservação no Brasil, é possível consultar entidades de referência como o Instituto Butantan, um centro de excelência em pesquisa biomédica e herpetologia.
A Raridade e Redescoberta da Espécie
A jiboia-do-ribeira foi formalmente descrita no ano de 1953 pelo renomado herpetólogo Alphonse Richard Hoge, figura proeminente do Instituto Butantan. Contudo, após essa descrição inicial, a espécie entrou em um longo período de ausência nos registros, ficando mais de seis décadas sem que exemplares vivos fossem observados. O aguardado reaparecimento ocorreu apenas em 2017, quando residentes de Sete Barras se depararam com um espécime, marcando o fim de 64 anos de incerteza sobre sua existência na natureza.
Em 2020, outro exemplar foi objeto de resgate, desta vez no Parque Estadual Intervales (PEI). Esse indivíduo permaneceu sob cuidados em cativeiro por um período de seis meses, visando garantir sua saúde e bem-estar, além de proporcionar a oportunidade para a realização de análises clínicas detalhadas e coleta de dados científicos cruciais. A cobra foi então equipada com um radiotransmissor antes de ser cuidadosamente devolvida à natureza, em uma operação que contou com o valioso apoio do Instituto Butantan. Tais estudos são tidos como fundamentais para expandir a compreensão acerca da Corallus cropanii e, consequentemente, orientar e fortalecer as estratégias de conservação mais eficazes para a sua perpetuação.
O último avistamento documentado antes do registro atual deu-se em 2022, quando um macho da espécie foi localizado no bairro Guapiruvu, novamente em Sete Barras. Posteriormente, foi libertado no Núcleo Guapiruvu do PEI, justamente o mesmo local onde o indivíduo de 2020 havia sido anteriormente observado.
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A descoberta da jiboia-do-ribeira em Juquiá reforça a importância da preservação do Vale do Ribeira, um hotspot de biodiversidade. Os esforços contínuos de pesquisa e educação ambiental, exemplificados pelo trabalho do Projeto Jiboia do Ribeira e pela mobilização da comunidade, são cruciais para a conservação desta e de outras espécies ameaçadas. Para se manter informado sobre as novidades da região e iniciativas de proteção, continue acompanhando a editoria de Cidades em nosso portal.
Crédito da imagem: Daniela Gennari