Ações dos EUA na Venezuela geram riscos à ordem global

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A ofensiva militar liderada pelos Estados Unidos na Venezuela no sábado (3), visando depor o presidente Nicolás Maduro, desencadeou profundas preocupações entre especialistas em relações internacionais. As análises convergem para a ideia de que tal intervenção representa sérios riscos tanto para a estabilidade dos organismos multilaterais quanto para a segurança e soberania dos países da América Latina.

A operação, conforme relatado, resultou na remoção forçada de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, de território venezuelano. Durante a incursão, forças de segurança ligadas ao presidente foram abatidas, e explosões foram registradas em Caracas, a capital do país. Maduro foi, então, transferido para Nova York, onde, segundo informações do governo norte-americano, enfrentará acusações de suposta ligação com o tráfico internacional de drogas. Esse evento configura um marco crítico na geopolítica sul-americana, com repercussões que se estendem muito além das fronteiras venezuelanas.

Ainda neste cenário, a discussão central gira em torno das profundas implicações que as

Ações dos EUA na Venezuela geram riscos à ordem global

. A iniciativa estadunidense de atuar como polícia internacional, sem aval de instituições globais, levanta questionamentos fundamentais sobre a soberania das nações e o futuro da diplomacia pacífica em um cenário de crescentes tensões geopolíticas. Especialistas alertam para a gravidade dos precedentes estabelecidos por esta operação unilateral, apontando para um possível enfraquecimento das estruturas de governança global.

Implicações Jurídicas e Geopolíticas da Invasão

Para Bruno Lima Rocha, cientista político e professor de relações internacionais da Faculdade São Francisco de Assis (Unifin), a intervenção ocorrida na madrugada do último sábado constitui, primariamente, um ataque direto à soberania de uma nação. Rocha destaca a ausência de amparo legal internacional para que os Estados Unidos assumam um papel de “polícia global”. Mesmo diante de eventuais acusações contra Nicolás Maduro, que, segundo ele, carecem de provas concretas, o sistema de instituições internacionais, incluindo a Organização das Nações Unidas (ONU), não concedeu aos EUA o poder de capturar ou intervir em um país soberano sem autorização expressa. “Em segundo lugar, porque, mesmo que as acusações contra Nicolás Maduro fossem verdadeiras – o que, de fato não são –, a ONU ou o sistema de instituições internacionais não delegaram para os Estados Unidos poder para sequestrar, capturar ou intervir em um país soberano”, enfatiza o professor. A base das justificativas norte-americanas para as ofensivas à Venezuela, que apontavam para supostas ligações de Maduro com grupos narcoterroristas fornecedores de drogas ao mercado interno dos EUA, é vista por Rocha como uma “agressão imperialista pura e simples”, qualificando a remoção de Maduro como um sequestro. Adicionalmente, o professor alerta para o risco iminente de os Estados Unidos tentarem se apossar do petróleo venezuelano, país detentor das maiores reservas mundiais deste recurso essencial.

A comunidade internacional tem se mostrado dividida e preocupada com os rumos tomados pela situação venezuelana. A conduta dos Estados Unidos é vista por muitos como uma quebra dos princípios fundamentais que regem as relações entre os estados, como a não-intervenção em assuntos internos. Esta situação é um convite para que o tema da soberania e da atuação de grandes potências seja revisitado no cenário global. A unilateralidade da ação enfraquece a credibilidade de instâncias como o Conselho de Segurança da ONU, responsável pela manutenção da paz e segurança internacionais, cuja intervenção demanda aprovação prévia para ser considerada legítima no âmbito do direito internacional público. Para entender mais sobre esses princípios, veja o site da Organização das Nações Unidas.

Riscos para a América Latina e a Posição do Brasil

Os riscos geopolíticos não se restringem à Venezuela. Para Bruno Rocha, nações da região que possuem riquezas minerais cobiçadas pelos Estados Unidos também correm perigo. No contexto brasileiro, Rocha sugere que a decisão do Brasil de implementar um monopólio estatal na exploração de minerais críticos, juntamente com a assinatura de acordos com potências como Rússia e China ou a utilização de outras moedas que não o dólar em transações, poderiam intensificar essa tensão. Contudo, ele pondera que a legislação brasileira atual não aponta para tal direção, dada a inexistência de um monopólio efetivo sobre minerais estratégicos e terras raras, e a permissão para que companhias estrangeiras atuem na exploração de petróleo e minerais sob regulação de agências nacionais.

Gustavo Menon, docente no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), sublinha a delicada posição do Brasil neste contexto. Menon prevê que a nação brasileira, em consonância com sua tradição diplomática, reforçará sua estratégia de promover o diálogo e a cooperação. Esta postura envolve a defesa dos direitos humanos, a não intervenção e a busca pela resolução pacífica de conflitos. “O Brasil vê com muita preocupação essa intervenção armada direta em solo sul-americano”, afirma o especialista, que destaca ainda que o Itamaraty tem manifestado apoio à legitimidade de Delcy Rodrigues como presidente interina da Venezuela. A avaliação de Menon é que a intervenção dos EUA quebra o status da América do Sul como uma “região de paz”. Além disso, ele argumenta que a ação estadunidense viola tanto os princípios do direito internacional quanto as próprias leis domésticas dos EUA, uma vez que não houve aprovação do Congresso nem a emissão de mandados para a captura de Maduro.

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Imagem: Reuters via agenciabrasil.ebc.com.br

O Colapso do Sistema Multilateral e o Cenário Futuro

Tanto Rocha quanto Menon convergem na análise de que os sistemas multilaterais, concebidos após a Segunda Guerra Mundial e simbolizados pela criação da ONU, emergem feridos deste episódio. Menon declara que “no fundo, estamos presenciando o colapso desse sistema multilateral. Essa institucionalidade simplesmente virou pó”. Bruno Rocha, por sua vez, afirma que Donald Trump “colocou na lata do lixo instituições criadas após a Segunda Guerra Mundial”. Essa percepção sugere um novo paradigma no Século 21, onde o arcabouço global de cooperação e regras internacionais estaria sendo desmantelado pelos próprios Estados Unidos, a nação que teve papel central em sua formação.

Observar os próximos passos dos EUA na região é crucial, como adverte Menon, ressaltando o peso do petróleo venezuelano — as maiores reservas do planeta — e a relevância da Venezuela como nação amazônica. O pesquisador destaca a América do Sul como uma região rica em recursos naturais, cada vez mais imersa em uma intensa corrida geopolítica e geoeconômica. Embora seja incerto como será a anunciada “tutela” de Donald Trump sobre a Venezuela e seu controle sobre os recursos petrolíferos, Menon interpreta a ação como um recado direto a Pequim e Moscou: a América Latina permanece uma esfera de influência historicamente americana. Mais do que isso, a intervenção sinaliza a crescente prevalência da “lei do mais forte”. Rocha expressa preocupação com uma superpotência sob o comando de um governante de extrema direita invadindo um país soberano na América Latina, o que, para ele, representa uma ameaça a todos os demais países da região, seja por intervenção militar direta (como na Venezuela), ameaça de incentivo financeiro (como na eleição legislativa da Argentina) ou por operações de fraude (como em Honduras).

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As **ações dos EUA na Venezuela** não são meros eventos isolados, mas episódios que redefinem a dinâmica global e regional, lançando uma sombra sobre o futuro da diplomacia e da soberania nacional. A comunidade internacional aguarda com expectativa as consequências de tais movimentos, que certamente ecoarão em diversas esferas políticas e econômicas. Para se aprofundar nas análises sobre a crise diplomática e seus reflexos geopolíticos na América Latina, convidamos você a continuar acompanhando nossa editoria de Política e Análises para mais artigos aprofundados sobre o tema.

Crédito da imagem: ABC Affiliate WABC/Reuters/Proibida reprodução

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